Irlanda

domingo, 12 de março de 2023


Não sou uma pessoa de regressos. Embora viaje muitas vezes pela doçura (e melancolia) da nostalgia, raramente repito destinos e livros. Há um desejo de ver lugares novos, de conhecer histórias diferentes e, admito, é uma característica que me é surpreendente. Estaria muito mais alinhado com o meu perfil regressar às histórias e lugares pelo sentido de familiaridade e segurança de sabermos como são, como acabam, ao que cheiram e sabem. Mas a descoberta parece-me mais entusiasmante.  

Dublin não estava nos meus planos de regresso, admito. Adorei a atmosfera da cidade assim que a pisei em O’Connell Street, em 2019. É pequena, tem carisma e, bem planeada a viagem, retiramos muito facilmente o melhor da experiência. Ficou muito pouco por ver e a infinitude do mundo atraía-me mais. Mas a ideia de regressar para fazer algo feliz, novo e diferente fez-me pensar que podia ter ido a outros lugares no mundo, mas Dublin fazia o mais perfeito sentido. 

E aqui está a magia dos regressos. São viagens no tempo, em certa forma. Quando caminhamos pelas mesmas ruas, quando devoramos com saudade certos sabores que adorámos da primeira vez, quando ouvimos a mesma música, no mesmo pub, ou mesmo quando seguimos um caminho diferente do primeiro roteiro, nós vemo-nos lá, vemos quem pisou a cidade pela primeira vez. E, mais evidente, vemos o abismo que nos separa, na mesma cidade. 

Dublin foi a minha primeira aventura (feliz) do ano, antes de arrancar com a segunda (infeliz). Quando entrámos no pequeno apartamento em frente a Ha’penny Bridge, estava resoluta de que ia aproveitar o máximo que pudesse antes de entrar num universo que me deixava miserável, mas que queria terminar com distinção – se é para atravessar o labirinto, que tenhamos a medalha olímpica, no final. 

A Inês que calcorreou Dublin pela primeira vez tem mundos de distância de mim, que passeei pela cidade uma segunda vez. Se nos cruzássemos ali, em St. Stephen's Green, não sei se nos reconheceríamos embora, honestamente, não estejamos tão diferentes por fora, arrisco analisar. 

Quando descobri Dublin pela primeira vez, sonhava com outro caminho profissional, sentia-me completamente condenada ao meu plano original, namorava e passei cada minuto daquela viagem com um aperto no peito que atenuava com a distração que só uma cidade nova pode proporcionar. O aperto no peito quase palpável de tão esmagador: não querer estar ali. Não me refiro a Dublin (gosto tanto de Dublin!) mas… ali. Naquela fase de vida. Era um pequeno cubo e tentar servir num triângulo e cada pedaço de mim que não servia, que não encaixava, magoava-me. Toda a gente avisa que as arestas dos vintes são afiadas, mas dói ainda mais quando a forma sufoca-nos também. 

Dublin foi um pequeno abraço antes de respirar fundo, fechar os olhos e fazer o que tinha de fazer. De lutar por outra coisa enquanto se engole sapos (não há originalidade nisto de se viver, certo?). 

Acho que me reconheceria em St. Stephen's Green. E acho que seria a única pessoa no mundo a arrancar-me aquele peso no peito. Bom, certo, diferente do passado há uma solitude que me acompanha, mas estou feliz com ela, estou até curiosa com ela. Mas, acima de tudo, estou mais leve. Estou no lugar que desejava (não é perfeito, mas poucas coisas o são, compreendemos). E tenho outras perguntas, outras inquietações e continuo a ser um cubo. Às vezes distraio-me e tento entrar na forma do triângulo, mas, em geral, já sei perceber que não é o meu lugar e que há outras formas que me servem melhor. Claro, as arestas continuam mais afiadas do que nunca, mas o tempo desgasta a crueldade incrível de se ser jovem também (e quem não acha que os vintes são uma crueldade com sabor a mel, não se lembra dos vintes). 

Então, regressei. Sem peso no peito. Sim, com dúvidas e medos e com certos capítulos em aberto, mas sem medo do futuro. E sem vontade de ser uma pirâmide ou de servir na forma do triângulo. 

Choveu em Dublin, neste regresso. Não tive um único dia de sol. Lembrava-me de Dublin a céu azul e com um dia de neve. Especial. 

Gostei que, também dentro de nós, o clima estivesse diferente do que me recordava.

domingo, 19 de maio de 2019


1. Um impermeável é um essencial de viagem. A Irlanda é uma espécie de Sintra em grande escala, com variações de clima frequentes e imprevisíveis. Além de ser um país húmido, é conhecido pelos seus aguaceiros. Num dia, podem ter sol, chuva e neve — aconteceu connosco. Escolham, também, o calçado em conformidade com este tipo de clima!

sexta-feira, 17 de maio de 2019

 DUBLIN

É quando estou a viajar que me imagino vivendo naqueles lugares e criando um quotidiano realista à minha personalidade. Por vezes, faz-me ter vontade de emigrar, outras pergunto-me como seria capaz de resistir. Este foi um dos casos, quando saí de Trinity College e dei de caras com uma pastelaria charmosa e com o nome mais queridinho. "Como seria capaz de estudar nesta universidade e não vir aqui todos os dias?!"

quarta-feira, 15 de maio de 2019


St. Stephen's Shopping | Por norma, o ideal é fugir de centros comerciais quando estamos numa viagem, mas a exceção é mais do que merecida e vão aperceber-se disso assim que entrarem. Toda a estrutura é absolutamente magnífica — e fica ainda mais bonita durante as festividades, onde a decoração é pensada ao pormenor. Para além disso, no próprio centro comercial, podem encontrar uma série de lojas para fãs geeks, de moda, música e cinema, papelaria ou para comprar alguns souvenirs de última hora. Pela proximidade com parque que lhe dá o nome, um bom roteiro seria visitarem o shopping, aproveitarem para comer alguma coisa e passearem, por fim, no parque.

terça-feira, 14 de maio de 2019


Localizado mesmo em diante do St. Stephen Green, encontra-se The Little Museum of Dublin, um museu que promete contar a História da cidade em 29 minutos e com muita boa disposição. Embora estejam em projeto de alargamento do museu, passando a ser ‘The (not so) Little Museum of Dublin’, como brincou a nossa guia, The Little Museum of Dublin despe-se se todas as regras e convenções de museus, revelando-se acolhedor, tanto no espaço, quanto nos funcionários. 

segunda-feira, 13 de maio de 2019


As tréguas da chuva em Dublin permitiram-nos visitar o parque de St. Stephen. Central, arranjado e com um pequeno lago, este é o refugio da cidade onde podemos ver as famílias a passear, crianças a brincar e a vida a acontecer mais lentamente na cidade.

St. Stephen's Green acaba por ser, também, um lugar histórico por ter sido palco da Easter Rising, uma revolução provocada por militantes irlandeses que procuravam ganhar a independência da Irlanda ao Reino Unido, em 1916. O refugio dos militantes foi o parque, onde ficaram e se defenderam das tropas inglesas até serem cercados e obrigados a procurar abrigo no Real Colégio dos Cirurgiões, em frente ao parque. A revolta não foi bem sucedida mas uma curiosidade caricata é que houve, por momentos, um cessar-fogo para que o guarda do parque pudesse alimentar os patos. True story!

O desenrolar de todos os acontecimentos é explicado em inúmeras placas informativas espalhadas pelo parque, pelo que vale a pena fazerem um bom passeio por lá — de preferência, num bom dia (atípico) de Sol! Embora o parque acabe associado a um conflito, a tranquilidade e a beleza do lugar superam o caos — da História e da cidade. Certamente será ainda mais bonito na Primavera.

domingo, 12 de maio de 2019

 DUBLIN

Fundada em Dublin, em 1932, esta requintada casa de chocolates espalhou-se rapidamente pela cidade, conquistando cada visitante pelo paladar. Mais do que reconhecida e galardoada, é impossível resistir a entrar num Butlers Chocolate Café, mais não seja para apreciar o seu interior à época e digno de uma casa de bonecas.

Os tons pastel e a iluminação clara convencem, mas é a gigantesca montra de bombons ao balcão que faz crescer água na boca e ter vontade de experimentar chocolate de alta qualidade. As poucas mesas no interior do espaço eram ocupadas por dubliners sequiosos do famoso chocolate quente da casa. O tempo estava propício, mas não chegámos a provar a bebida, acabando por escolher apenas alguns bombons para provar enquanto passeávamos.

Entre sabores de caramelo salgado, avelã e chocolate branco, aprovámos cada escolha de olhos fechados e sorriso de deleite. O chocolate é suave, derrete-se na boca e é quando os provamos que temos a certeza de que privilegiam os melhores ingredientes. Não são permitidas fotografias no local e esta é uma casa de chocolates que ainda só tem espaço na Irlanda e, agora, no Reino Unido, pelo que vale a pena considerarem a visita se estiverem a programar uma viagem até lá. Caso se arrependam, no final da viagem, de não terem lá passado, não se preocupem, há um pequeno espaço no aeroporto de Dublin que certamente vos ajudará num momento de gula de última hora!
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51 Grafton Street, Dublin 2
Dublin
Contato: +353 161 670 04

quinta-feira, 9 de maio de 2019

 DUBLIN

Já tive o (enorme) privilégio de poder visitar restaurantes incríveis, que se destacam não só pelo mérito dos seus sabores e pratos mas também pelos espaços que lhe dão uma cara e uma casa. Mas arrisco-me dizer que nunca antes tinha vivido uma experiência tão original quanto esta: fazer uma refeição no interior de uma igreja.

quarta-feira, 8 de maio de 2019


Mesmo ao lado do Castelo de Dublin, podem encontrar um edifício georgiano convertido em museu com o nome em homenagem ao magnata Sir Alfred Chester Beatty, proprietário das coleções ao dispor para visitar.

domingo, 5 de maio de 2019


Fundada em 1854, a National Gallery é um ponto turístico obrigatório para fãs de arte. Começou como uma pequena galeria para inspirar pintores irlandeses e, graças a generosas doações, o projeto cresceu, aumentando exponencialmente o tamanho e a riqueza do seu acervo.

sexta-feira, 3 de maio de 2019

 DUBLIN

Eis um facto que desconhecia por completo sobre Dublin: são loucos por donuts! Esta é uma delícia que começa, agora, a dar os primeiros passos na capital portuguesa, porém, em Dublin, a conversa é outra e há várias casas para experimentar! Como sugestão, trago-vos duas que não podem mesmo perder se também forem fãs!

terça-feira, 30 de abril de 2019


Quando pedi sugestões e recomendações para a minha viagem a Dublin, recebi dezenas de dicas, muitas delas repetidas, mas nenhuma a fazer referência a este tesouro que qualquer amante de bibliotecas vai amar. Cabe-me a mim partilhar convosco um 'segredo' da capital: a Biblioteca Nacional.

Foi construída em 1877 e abriga mais de 10 milhões de itens, entre livros, jornais, manuscritos, fotografias, mapas, música (...). Está divida entre dois pontos de atração principais: uma exposição sobre literatura irlandesa, com um espólio muito rico sobre alguns dos autores mais famosos da literatura clássica, e — o lugar que ansiava visitar — o Reading Room, uma sala de estudo com uma cúpula extraordinária que nos faz ficar de boca aberta ao entrar.

O lugar é de tal forma pouco popular que éramos os únicos turistas na biblioteca. No meu guia, a menção é curta e desprovida de fotografias, com a indicação de horários incorrecta— o Reading Room não está aberto às segundas) — pelo que senti que este momento era inteiramente privilegiado. Não nos é permitido entrar na área das secretárias sem um cartão de leitor e também não era permitido fotografar, mas esse sinal só dei conta depois de ter feito os meus registos. A cúpula luminosa e esverdeada, o classicismo da biblioteca e o cheiro dos livros torna o lugar encantador.

A entrada é gratuita e recomendo vivamente este ponto secreto de Dublin que está bem no centro da cidade. Magnífico!

domingo, 28 de abril de 2019

 DUBLIN

Em qualquer pub em Dublin, existe um elemento praticamente garantido: música ao vivo. Alguns lugares apostam mais na música tradicional irlandesa e outros têm uma vertente mais comum e acústica. Seja qual for a escolha, é certo que o pub estará cheio mas que vão passar um bom serão.

sexta-feira, 26 de abril de 2019


O Museu Nacional da Irlanda acolhe o maior património arqueológico e pré-Histórico da Irlanda, entre jóias e tesouros, heranças Viking e uma exposição de História Natural. Foi um dos museus onde tivemos maior azar, uma vez que a maior parte das galerias estavam encerradas para manutenção ou permanentemente, pelo que tivemos apenas duas salas de História Natural para explorar.

quarta-feira, 24 de abril de 2019


Vermelho. Icónico. Imperdível. Assim é The Temple Bar, o pub mais famoso de Dublin, cujo nome se deve à zona onde se encontra, chamada Temple Bar. Sobre o pub, recebi vários feedbacks diferentes: uns aconselharam-me a não ir, a apreciar apenas o espaço por fora visto que, por dentro, dada a sua popularidade, era impossível de se estar; outros defenderam que deve de ser uma experiência vivida, pelo menos, uma vez. Confiámos na segunda opinião. 

terça-feira, 23 de abril de 2019


O ex-libris de Dublin encontra-se na lindíssima Trinity College e obviamente era uma das visitas mais aguardadas da minha viagem, ou não fosse eu uma apaixonada por literatura e bibliotecas: estou a referir-me à Old Library, claro!

sábado, 20 de abril de 2019


Mandado construir em 1204, o Castelo de Dublin apresenta-se diante de nós com um convite a viajar no tempo. Rapidamente se tornou na fortificação mais importante na Irlanda e apresentou várias funcionalidades ao longo das épocas, desde sede do governo colonial a centro de poder político e militar. Hoje em dia, acolhe os eventos mais formais da república, sendo a tomada de posse da presidência um deles.


sexta-feira, 19 de abril de 2019

 DUBLIN

Escolhemos a lindíssima zona de Portobello para fazermos uma pequena recarga de energias e  nos abrigarmos da chuva. O café Grove Road é pequenino, localiza-se numa esquina e convidou-nos a desfrutar do ambiente quentinho com pastelaria de fazer crescer água na boca. 

quinta-feira, 18 de abril de 2019


Uma das maiores referências turísticas de Dublin, para alegria de todos os amantes de fachadas e arquitetura, são as portas de Portobello, um bairro lindíssimo com ruas de perder de vista, cada uma com uma fachada relativamente banal, se me permitem a ousadia, e onde a protagonista é mesmo a porta.

terça-feira, 16 de abril de 2019


Do alto do nosso privilégio, é um pouco insólito imaginar um mundo onde a maior causa de morte era a fome. Hoje em dia, morremos precisamente pela epidemia contrária mas, durante praticamente toda a História da Humanidade, a fome era um medo que perseguia as populações como uma sombra. O assunto sempre me sensibilizou. Não ter garantias de quando, como e o que vamos comer hoje e amanhã é um assunto arrepiante que nunca nenhum de nós viveu — pelo menos, não como eles viveram — e foi desta forma que eu admirei cada traço deste Memorial: grata por não saber sequer imaginar o que é passar fome.

Entre 1845 e 1849, a Europa foi assolada por uma onda de fome e doenças resultantes da contaminação, em larga escala, da batata, um alimento que estava na base diária da alimentação de toda a população, especialmente nas comunidades mais empobrecidas, que dependiam deste tubérculo para sobreviver. Aliado à situação política, económica e social precária do país — especialmente nas suas relações com o Reino Unido — a Irlanda tornou-se num dos países mais afectados por esta contaminação, sendo de tal forma um período negro que resultou em mortes e emigração em massa. A época denominou-se, assim, A Grande Fome.

É uma das principais razões por existir uma comunidade tão forte de Irlandeses nos Estados Unidos e no Canadá e, ainda hoje, é um período trágico abordado com muito respeito, sensibilidade e algum debate polémico, nomeadamente, a ajuda tardia e pobre por parte de Inglaterra. Os dados são emocionantes e catastróficos: um milhão de mortos; mais de um milhão de irlandeses que precisaram de fugir das suas casas à procura de um lugar, uma vida, um país melhor. Uma fatia generosa da população Irlandesa decrescida.

A fome, o abandono e a pobreza estão, infelizmente, muito enraizados na cultura Irlandesa, ao longo dos séculos. Porém, A Grande Fome foi um dos períodos mais negros da História. O país optou por o recordar para sempre na forma de um Memorial simples, mas muito cru, em Dublin, à beira-rio. O aspecto decadente e desesperado das esculturas representadas não passa despercebido, assim como o olhar sem a mínima esperança.

Confesso que não acompanho a série televisiva Victoria mas, há um ano, assisti a um episódio que se referia precisamente à Grande Fome da Irlanda e esta cena final, ainda hoje, me emociona. Acho que transmite na perfeição todo o contexto desta catástrofe. Também demonstra, como já a História tem vindo a provar, que com grandes atos de terror, vêm grandes atos de Humanidade. A música, um cover de uma canção tradicional irlandesa cuja letra é, precisamente, sobre A Grande Fome, está repleta de significado. Assistam, vale a pena.

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