quinta-feira, 29 de setembro de 2016

PASSAPORTE || Dicas e Factos sobre Cuba (parte II)

Foi a primeira vez que vi o sol nascer no mar e quis registar, na minha primeira manhã em Cuba. Isto chama-se cara de jet lag
Finalmente trago-vos os últimos factos e dicas sobre Cuba. Ainda tenho alguns lugares sobre os quais quero dar mais atenção em publicações futuras mas os meus principais conselhos encerram-se aqui. Sugiro-vos que, se tiverem mais alguma questão ou curiosidade adicional sobre Cuba e que acham que eu terei capacidades de responder, que deixem as vossas perguntas nos comentários desta publicação para que, em visitas posteriores, os leitores também as possam ver!


1. Um médico ganha, em média, 50 euros por mês.

2. Levem sapatos confortáveis quando estiverem a visitar as cidades. Eu compreendo que, num calor insuportável como é aquele clima, a vontade de usar uma sapatilha em vez de umas sandálias ou chinelos seja muita, mas o conforto deve estar mesmo em primeiro lugar e vão andar bastante a pé. Garantam que levam calçado já preparado para quando o pé aumentar dois tamanhos pelo inchaço ao calor e de tanto caminharem, não arrisquem sandálias que podem fazer bolha. É preferível morrerem com os pés de calor dentro de umas sapatilhas que resistem a dias intensos do que comprometerem a vossa visita por terem o dedo do pé assado pelo chinelo.

3. A comida não é das melhores. Não no sentido de ser esquisitinha como sou, mas no sentido de eu ter um estômago muito resistente e, mesmo assim, ele não ter aguentado tamanha falta de qualidade e segurança alimentar. Mesmo nos resorts, a falta de qualidade no que toca à comida e à água é bastante clara (uma vez encheram-me o copo com água que não era engarrafada e o líquido cheirava intensamente a amoníaco, recusei-me imediatamente a beber. Por favor, peçam sempre água engarrafada). Se são fracos de estômago, levem os devidos medicamentos intestinais e dêem preferência aos grelhados, ao arroz sem molhos e joguem pelo seguro. Se são fortes de estômago, não cantem de galo, como eu fiz. Passei mesmo muito mal com a comida em Cuba. E mesmo que não vos aconteça nada, saibam que estão no paraíso dos hipertensos, porque eles não temperam nunca a comida. Nada. Nunca metem sal. A comida vem insonsa ou insípida. O saleiro de mesa vai ser o vosso novo melhor amigo.

4. Para esta viagem, eu e a minha companhia levámos canetas e t-shirts numa mochila, para distribuir às pessoas mais carenciadas que observássemos nas ruas e eu incentivo-vos a que façam o mesmo. As dificuldades no país são enormes e inegáveis, e sei que terão conhecimento disso, tal como eu já tinha. Mas saber é muito diferente de ver com os nossos próprios olhos privilegiados. Para mim, foi de deixar o coração apertado ver um homem idoso, muito, muito pobre, a não pedir nem dinheiro, nem comida, nem roupa mas sim uma simples caneta, porque sempre soube ler mas nunca lhe deram o privilégio de escrever. Para mim, enquanto blogger e prezando tanto as palavras e a escrita, o seu pedido tocou-me profundamente. Porque a liberdade de expressão e a escrita estão muito longe de serem um privilégio garantido neste país e saber que pude dar a um homem a sua primeira caneta para escrever é algo que me fez sentir mais humana do que muitas das conquistas que já fiz na vida. O mesmo para as crianças. Cada vez que lhes entregávamos uma caneta, os seus olhos brilhavam, como se estivéssemos a dar barras de ouro. Entregámos também muitas t-shirts mas, neste caso, decidimos dar apenas às crianças que encontrávamos com roupas esfarrapadas mas longe dos pais. Aquilo de que nos apercebemos era que, quando dávamos às crianças e aos pais, se voltássemos uma hora depois ao mesmo sítio, víamos os pais com as suas t-shirts vestidas e mais todas as outras que demos em mãos aos miúdos, a vendê-las. Isso enfureceu-nos profundamente e decidimos dar apenas aos miúdos quando estavam sozinhos. É uma incógnita se puderam ficar com elas de verdade e é bastante possível que, quando tenham regressado para juntos dos pais, estes últimos tenham feito precisamente a mesma coisa, mas pelo menos pudemos vê-los durante bastante tempo com uma t-shirt limpa e em condições vestida, para poderem brincar. E os seus sorrisos eram impagáveis. Senti que fiz a diferença.

5. Os horários dos museus e monumentos são curtos. Das nove da manhã às cinco da tarde, é este o tempo que terão para ver os museus, e meia hora antes de fechar as recepcionistas já estarão a tentar dissuadir-vos de comprarem um bilhete, portanto, às 16:30h saibam que a maior parte das coisas já não funciona. Tenham em conta o curto espaço de tempo que têm para as visitas na altura de planearem quais são os lugares prioritários.

6. Em Cuba não vemos mendigos nem pessoas a dormir nas ruas. Aliás, não vemos qualquer tipo de mendigo, e isto acontece porque o governo cubano garante que cada cidadão consegue receber uma habitação, comida e roupas. É também com muito orgulho que referem que não há desemprego no país. Ainda assim, existe muita pobreza em Cuba. Nenhum dos três parâmetros garante qualidade e o que acaba por acontecer é que essas mesmas pessoas acabam por ter de fazer obras ou arranjos nas habitações que lhes foram designadas, passam fome e têm de comprar roupa ao mercado negro porque a roupa que lhes fornecem é de péssimas condições. Além disso, a electricidade e a água não são asseguradas e, embora a água seja relativamente barata, a electricidade não é. Mesmo assim, foi com muito espanto que vi, enquanto seguíamos estrada fora, uma miúda descalça, com roupas fraquinhas, mas com um iPhone na mão. E casas muito empobrecidas, com móveis estragados, tinta a estalar, mas com um enorme ecrã plasma a ocupar 90% da sala. Há um grande desequilíbrio de prioridades, em muitos sítios.

7. Não há internet grátis em Cuba. Ou seja, wi-fi gratuito. Só há poucos anos é que a internet tomou conta de Cuba e, ainda assim, é um acesso muito caro. Isto significa que não vão encontrar wi-fi gratuito nos hotéis, restaurantes, bares ou museus, como é típico. A melhor forma de conseguirem ter acesso ao wi-fi é através da compra de um cartão, da operadora Nauta (escolham o cartão Nauta porque é fonte segura, não há risco de ser uma fraude). O cartão é pago à hora, ou seja, vocês só podem comprar uma hora de wi-fi, no mínimo. No cartão encontram um nome de utilizador e a vossa palavra passe, para que possam utilizar em qualquer ponto que tenha wi-fi, em Cuba. Ou seja, vocês, assim que iniciam a sessão, não são obrigados a utilizar toda a hora de internet que compraram, podem encerrar a sessão e ainda têm direito ao tempo que vos sobrou. O preço vai variar muito de lugar para lugar. Por exemplo, no meu hotel, uma hora de acesso custava 2 euros, mas num restaurante, pelo mesmo tempo, custava 6 euros. A internet é bastante rápida.


8. É totalmente seguro andar por Cuba. Desde andar pelas cidades mais pequenas como Trinidad, Santa Clara, às cidades mais cosmopolitas como é o caso de Havana. Seja em Havana Velha (mais empobrecida) seja Havana Moderna, fizemos sempre os percursos a pé, com mochilas, telemóveis e máquinas e em nenhum momento senti-me ameaçada, seja de que forma for. Não senti que iriam roubar-me a qualquer momento, comia sem que ninguém pedisse o que estava a comer, não fui assediada mesmo estando de pernas e ombros destapados e só vinham falar connosco para perguntar de onde éramos e se estávamos a gostar de Cuba. Aliás, as praias dos resorts são públicas (ao contrário da maior parte dos destinos tropicais), o que significa que locais podem perfeitamente desfrutar do mesmo espaço que vocês e eu deixava os meus livros e as minhas coisas em cima da espreguiçadeira sem qualquer receio. Foi um lugar onde não me importei de ficar um pouco mais para trás em relação ao grupo, em que andei de telemóvel na mão sem dramas e onde tive prazer de andar pelas ruas e conhecer as pessoas. Muito diferente da República Dominicana. Para ser sincera, tive exactamente os mesmos cuidados que teria em qualquer cidade europeia.

9. Cuba é um destino que, se querem ver no seu estado genuíno e antigo, é para marcarem voo . O meu pai foi a Cuba há 10 anos e a descrição que ele fez deste país - e que muitas outras pessoas também fizeram, em anos mais recentes - já não vai ao encontro da minha. É muito típico dizerem-vos abertamente que os cubanos são pessoas simpáticas e genuínas, com o propósito de apenas vos entreter, que tocam na rua pelo prazer de tocar. Também é muito típico falarem-vos dos acessos precários, de que as estradas são más e os lugares não têm o luxo das condições.
A verdade é que já há boas estradas e boas instalações. Não em todos os lugares, mas sem dúvida que, nesse aspecto, a evolução de Cuba é excelente. Por outro lado, eu não encontrei essa genuinidade que tanta gente descreveu-me. Atenção! São um povo latino e, por virtude, serão sempre simpáticos convosco, serão calorosos e festivos. Mas achei que já não olham para o turista com olhos inocentes e sim com olhos oportunistas. Já não tocam nas ruas só para vos animar. Tocam com um chapéu estendido para as moedas. Sempre foi comum (e cortês), oferecer-se algo quando tirávamos fotos com um local. Não era algo obrigatório, mas um gesto educado. Agora eles querem ter a garantia de que são pagos antes de tirarem fotos convosco. Nos bares, tocam com muita alegria mas, no final, ali estão eles a vender algo, a pedir dinheiro, a cravar. Cravam muito! Descrição que ninguém, que anteriormente tinha visitado Cuba, tinha feito antes. Falaram-me das típicas caricaturas que eles faziam, nas ruas, às pessoas e que ofereciam (o meu pai e o meu tio têm uma) mas eu nunca vi. Disseram-me que iriam abordar-me na rua para saber de onde era, se estava a gostar, se voltaria. E, claro, isso aconteceu, mas não com a frequência que todos me prometeram. Diziam que não ia conseguir atravessar uma rua sem falar com o bairro inteiro, e esteve longe da verdade da minha experiência. O turista é cada vez mais vulgar e uma máquina de fazer dinheiro. É normal, claro. Mas, se ainda querem ver um pouco da natureza de um cubano e de Cuba (que eu encontrei, apesar de tudo, sem sombra de dúvida que ainda há "Cubanos Originais") têm de marcar viagem. Porque eu sou das que tem a certeza de que a queda do Embargo vai acentuar ainda mais esta mudança. Talvez a mudança venha a ser incrível e vos apresente uma Cuba ainda mais moderna e ainda mais turística. Mas, com sinceridade? Cuba é mágica por ser parada no tempo. E já só há uns grãos de areia deste tempo. Corram.


Fotografias da minha autoria, por favor, não as utilizar sem autorização prévia

6 comentários:

  1. Bem, até deu vontade de visitar! Mesmo sendo um local pobre, vê-se que no fundo as pessoas são felizes e dão valor a tudo. Gostei muito :)

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  2. oh pah! o 4! obrigada por seres assim inês! :)

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  3. Uau!! Não fazia ideia. Isso da água é sempre um problema quando se visita países menos desenvolvidos.
    Beijinho* Confissões de uma Pecadora by Valentina

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  4. Adorava poder ir a uma cidade da América latina. Por o que me dizem e percebi as pessoas apesar de tudo são felizes e simpaticas com os de fora. Gostei muito deste post !!

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  5. Adorei a dica de levar t-shirts e canetas. Nunca pensara nisso. Foi uma dica que guardei e pretendo pôr em prática no futuro!

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  6. O que escreveste aqui representa a realidade que muitos gostam de ignorar. Obrigada Inês.

    Cátia ∫ Meraki

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