terça-feira, 10 de maio de 2016

FACULDADE || A Última Praxe


"A Praxe nunca acaba!" é uma das frases mais ditas a todos os caloiros e trajados. Uma das frases mais ditas por mim. Que não é por já termos o traje no corpo e a capa nos ombros que a Praxe termina. Mas a verdade é que termina. Há um adeus físico de verdade e ontem foi o meu. Ainda não me despedi do meu traje e da minha capa de aventuras porque ainda tenho mais um dia para o fazer com toda a pompa e circunstância, mas a Praxe, ontem, abraçou-me num adeus.

Foi uma noite interminável de surpresas e emoções. De receber Fitas absolutamente incríveis e que eu sei que foram feitas com o coração na boca e as lágrimas nos olhos. De matar saudades de quem ainda está na Universidade e ainda não se apercebeu de como o tempo vai voar (porque nunca acreditamos que seja tão rápido, estamos sempre em negação). De contar novidades e saborear tudo num ambiente onde me reconheço muito bem. Ontem fui Madrinha, tornei-me Avó (e que honra é ser Avó antes de terminar a Licenciatura), baptizei e tracei a capa do meu último Afilhado e pude assistir a uma Afilhada minha a traçar a capa da minha Neta (e que orgulho é poder ter visto). Ontem Enterrei os meus últimos Caloiros do lado do meu namorado, que baptizava a capa dos seus. Ontem despedimo-nos mais uma vez de um grande trajado que connosco já não está ao cantarmos a sua música de curso preferida, enquanto começou a chover ao mesmo tempo. Ontem recebi os abraços mais apertados, as palavras mais bonitas e o agradecimento da Presidente de Praxe mais inesquecível. 

Lembro-me de cada detalhe do meu primeiro dia de praxe. Do que vesti, de como era, de como me senti e do nome do primeiro trajado da minha Praxe que me recebeu, em Farmácia. E por muito que tivesse o coração alvoraçado e expectativas elevadas, nunca, jamais me passaria pela cabeça imaginar tudo o que ia viver pela Praxe. As pessoas que conheci e que jamais teria conhecido noutra circunstância. O meu Padrinho, que ainda hoje continua a dedicar-se de alma e coração para me ver bem e feliz. Os amigos que fiz para toda a vida e os Afilhados que hoje contam comigo para lhes dar na cabeça nos momentos necessários e enche-los de abraços nos momentos de orgulho. Jamais passaria pela cabeça receber tantos elogios pela forma como praxo, ter tantas pessoas a pedir-me conselhos e a receber tantos agradecimentos por parte das Presidentes, um ano atrás do outro. É impagável e emocionante quando sabemos que deixámos uma marca em algo que a priori já nos tinha marcado. E por muito que, ano após ano, tenha ganho novos títulos de nome, tenha ganho mais privilégios para praxar e mais matrículas em cima dos ombros, nunca, mas nunca esqueci a miúda de cabelo pelos ombros, risco de lado, ténis rotos vermelhos e t-shirt branca que um dia esteve do outro lado. Aliás, foi nela em que pensei, em todos os dias incontáveis de praxe que tive. 

A minha Licenciatura foi e está a ser, para meu grande alívio, um percurso muito bonito e feliz, mas eu não tenho dúvidas que alguns dos momentos em que fui mais feliz tinha a cara toda pintada ou estava de capa aos ombros. E no final de tudo (palavra de Finalista) é só isto que vais recordar no término da viagem: quais foram os momentos em que foste mais feliz? Quais foram as memórias que tiveram mais impacto?

As despedidas não são feitas sem agradecimentos. E apesar de ter uma família gigante mas incrível, de ter um Padrinho invejável, Afilhados maravilhosos e Presidentes inesquecíveis, eu sei a quem quero agradecer (e muito): a ti, Vanessa. Obrigada por não teres desistido de me conhecer quando te perguntei se fazias algum desporto ou quando fiquei aliviada por encontrar alguém menor de idade como eu (os teus 21 eram muito bem conservados, juro!). Um obrigada que nunca vai caber em lado nenhum. Porque, para grande curiosidade, nas minhas memórias felizes de faculdade, tu estás em todas elas. E porque começámos juntas a treinar as músicas de curso e terminei a minha jornada ao teu lado, num cantinho desse mesmo jardim, a ler a tua Fita do teu lado e a dividir lágrimas contigo. A praxe diz-me muito mas sem ti ao meu lado para dividir esta sobremesa incrível, não teria tido nem metade da piada. 

A praxe nunca acaba. Despede-se de nós e deixa-nos seguir com a vida para outras aventuras. Mas fica sempre dentro de nós. Com uma capa pequenina (preta de preferência) traçada nos nossos corações.

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11 comentários:

  1. Arrepiei-me e chorei ao ler o teu magnífico texto, Inês!
    À praxe devo muito, porque foi a praxe (SIM, A PRAXE) que me ajudou em muitos aspectos! Ajudou-me a aprender e a ensinar. A ser alguém mais feliz e descontraída, apesar de tudo! Foi graças à praxe que ultrapassei algumas barreiras e hoje, quando olho para trás, só quero voltar a ser caloira!
    Está lindo, sentido e, mais importante ainda, verdadeiro!
    Um beijinho *

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  2. Adorei e revi-me tanto nas tuas palavras! Esse sentimento é tão sentido aqui por estes lados, mesmo depois de já terem passado anos desde que fui finalista. Obrigada por me deixares de lágrimas nos olhos, mas com o coração feliz por saber que também fui feliz dessa maneira! :)

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  3. Ontem foi o meu traçar, foi dos momentos mais bonitos que já tive na praxe, senti-me tão bem! Alguns doutores discursaram e lágrimas foram derramadas porque eles se vão embora e não deixo de pensar que daqui a dois anos sou eu, dois anos, parece uma eternidade, mas não é. Quero poder aproveitar tudo ao máximo e ser feliz, assim como tu foste.
    A culpa é da praxe, a culpa é da praxe de nos dar bons momentos e de nos fazer mais felizes.

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  4. Que texto maravilhoso, Inês! Apenas tive essa experiência fantástica no meu ano de caloira - confesso que os anos seguintes foram de um afastamento brutal da minha parte, tanto porque não me identificava com o que era feito na praxe como por falta de tempo. Mas é mesmo bom ler relatos assim - e a praxe dá-nos amigos para a vida!

    Jiji

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  5. Certo que desisti da praxe mas o traçar da capa e os momentos que passamos com os nossos pseudo-padrinhos (para quem não anda na praxe) são inesquecíveis!!
    Beijinhos*

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  6. Só tenho pena de estar a trabalhar e a estudar, o que não me deu tempo nenhum para participar nas praxes. Deve ser um momento único! Fico muito feliz e adorei o teu post :)

    http://all-the-brightplaces.blogspot.pt

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  7. Depois de ter abraçado o meu ano de caloira da melhor maneira que pude, de ter trajado, traçado a capa à meia noite... Fico mesmo feliz ao ler o teu texto! És a prova de que a praxe pode ser uma significativa e boa parte da nossa vida e que podemos dedicar-nos a ela não descurando do resto. E fico igualmente feliz por, apesar das diferenças não só praxísticas mas também académicas (porque estás um bocadinho longe e é perfeitamente natural!) a tua praxe te tenha dado tudo isso e se faça verdadeira e boa praxe aí (porque, com bons praxistas como acredito que foste, só assim tem de ser). Que um dia mais tarde, daqui a 2 ou 4 anos, eu sinta o mesmo orgulho e sentimento de que fiz bem feito o que tinha a fazer. Tenho a certeza de que se tivesses sido minha praxista serias das que olharia com admiração. Como sempre, uma inspiração :)

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  8. Quando leio textos deste género tenho mesmo pena de ter sido obrigada a desistir da praxe. Mas é como tu dizes, a praxe nunca acaba, pode acabar fisicamente, mas nos nossos corações nunca acaba. Para mim a praxe acabou mais cedo do que deveria, mas no meu coração nunca acabará, guardarei com todo o amor todos os momentos que vivi.
    Fico feliz por teres vivido o teu percurso académico e a praxe com essa intensidade. Tu mereces, porque nota-se que és uma excelente pessoa. Não te conheço pessoalmente, mas tenho a certeza que foste uma boa caloira e mais tarde uma boa praxante, e tenho a certeza que o teu padrinho, os teus afilhados e todas as pessoas que tiveram o privilégio de te conhecer se orgulham muito de ti.
    Boa sorte para o teu futuro :).
    Beijinhos,
    Cherry
    Blog: Life of Cherry

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  9. chorei a ler o que escreveste. estou na UM, no 2º ano, só praxo para o ano, mas tenho uma ideia super parecida com a tua. :)

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  10. Só um verdadeiro praxista pode sentir a praxe assim!

    Esse período da minha vida já acabou, mas é sempre recordado com uma saudade e nostalgia boas. Os momentos vividos, os afilhados, os amigos que fiz para a vida...tudo isso faz com que tudo tenha valido a pena. E não há sentimento mais avassalador nesta hora de despedida do que o de um finalista feliz e grato pela experiência que a praxe proporcionou.

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