quinta-feira, 17 de maio de 2018

ON JOB || Trabalhos Dignos


O meu primeiro emprego foi como lojista, na Decathlon. Não estava a conseguir cumprir os objectivos que me tinha proposto para a minha pós-licenciatura e, embora isso me deixasse frustrada, desanimada e praticamente traumatizada, ficar parada não era opção — e não me iria reconhecer se a escolhesse —. Portanto, fiz o que me parecia ser mais lógico: imprimi uma série de currículos e fui bater a todas as portas, sem experiência nenhuma. Estava com medo? Não. Estava aterrorizada. Mas tinha de fazer o que fosse preciso.

Embora, hoje em dia, sejam privilegiadas as candidaturas e plataformas online, sei que foi o facto de me ter chegado à frente ao balcão, da forma mais tradicional de sempre e ter dito 'posso deixar aqui o meu CV?', que me conquistou uma entrevista. Quando olho para a apresentação do CV que entreguei, na altura, dá-me um aperto no peito de vergonha e agradeço ter conseguido mostrar quem sou e do que sou capaz pessoalmente. Mas é assim que se aprende. Não há outra forma mais eficaz.

Fui a três entrevistas e consegui o meu lugar. O meu primeiro emprego. Fiz tudo; arrumei stock, fiz horário de abertura de loja, fiz horário de fecho de loja, estive presente na chegada dos novos artigos, mudei a disposição dos produtos, fiz caixa, aprendi conceitos e tarefas que nunca na minha vida iria aprender de outra forma, lidei com clientes incríveis e também fui muito destratada por clientes que tinham tido um mau dia e decidiam descarregar em nós porque nos viam como se fôssemos inferiores ou mesmo burros por trabalharmos ali. Claro, também meti muita pata na poça durante a minha passagem por lá. Faz tudo parte da aprendizagem.

Partilhei convosco que o meu primeiro emprego foi uma óptima experiência e confirmo. Sei que isto pode surpreender quem já foi lojista — pelo menos os meus amigos ficaram surpreendidos — mas a verdade é que me dava muito bem com o meu chefe, a minha responsável e gerente era impecável e toda a equipa que trabalhava na loja era simpática, prestável, paciente e compreensiva comigo, sem ambientes desagradáveis. Não sentia que alguém me queria tramar ou implicava comigo, qualquer imprevisto ou algo que precisasse de aprender era bem recebido e terminei toda a experiência com muito orgulho em mim e das pessoas com quem trabalhei, extraordinárias. É raro, eu sei, mas sou muito grata por isso.

Existe — e não se aborda muito, mas é inegável — uma certa vergonha em aceitar ou dizer que se fez determinados trabalhos que, no silêncio escondido de muita gente, se consideram 'pouco dignos'. Dignos para o seu grau académico, intelecto ou aspirações. Ser caixa num supermercado, vender perfumes num shopping ou limpar ruas ainda parece ser algo digno de vergonha ou de derrota, de falhados. Se estamos lá é porque não conseguimos nada melhor. Porém, confesso que nunca tive esta visão.

Fui trabalhar porque não queria ficar sentada em casa. Não queria chorar por ser um tesouro em bruto que ninguém notava, ou por não aproveitarem o meu potencial. Se era o meu emprego de sonho? Não. Mas os empregos de sonho não se conseguem escondidos do mundo, no nosso quarto. E se o caminho mais fácil e mais natural parecia inacessível, dei a volta e deixei que as minhas capacidades e relevância comunicassem por si. Fui lojista, mas podia ter servido às mesas ou feito caixa num Supermercado. Trabalhei. Conheci pessoas e cheguei a outros caminhos que não sei se teria conhecido ou chegado se não tivesse começado desta forma.

Sei que tem um gosto de conto de fadas e que pode não ser uma verdade global. E eu compreendo. Mas foi algo que resultou comigo e que resulta com tantas pessoas ao meu redor. Como não acreditar que é este o caminho que faz sentido? Como não acreditar que só temos trabalho quando já estamos a trabalhar (seja no que for) e a dar a cara, a ir aos lugares, a falar com as pessoas?

Mesmo que nada disto tivesse resultado neste caminho onde estou agora (e mesmo que tudo daqui em diante corra mal) contactei com os valores profissionais — que são os mesmos a limpar chão e a enviar e-mails importantes —, experimentei novos desafios que me permitiram conhecer melhor e descobrir capacidades que não sabia que tinha, e ganhei estaleca. Muitas das coisas que aprendi valem-me para a vida e não apenas para uma área em particular. E não é isso que devíamos almejar? Crescimento pessoal? Desenvolvimento de capacidades (profissionais e inter-pessoais)? E se conseguimos isto nestes empregos, o que têm de indigno, de vergonha, de falhanço ou desaprovação? É preferível ficar estagnado?

Um trabalho que respeite a nossa dignidade e apresente um salário conforme às funções já é digno por si só. E o meu avô sempre disse 'antes um trabalho na mão que nenhum'. Bom, se vos garante estes dois pontos, eu concordo. Há que fazer o que tiver de ser feito para crescermos, para construirmos os nossos objectivos e a nossa autonomia. E darmos a cara. Não há que ter vergonha de abraçarmos camisolas inesperadas, não há pouca dignidade em termos de seguir um outro caminho enquanto procuramos a ponte que nos leva à rota que queremos. Há maturidade, isso sim. Estamos a encarar a realidade arregaçando as mangas e não aceitamos um 'não' do mundo como resposta. E podem ter a certeza de que a Inês de hoje trabalha com o mesmo afinco e vontade de aprender que a Inês que se apresentou para o seu primeiro dia numa loja. E trabalharei sempre assim. Sem vergonha. Porque a dignidade não está no trabalho que escolhi e sim nos meus valores como pessoa e trabalhadora. E esforço-me muito para que sejam inquestionáveis.

10 comentários:

  1. Isso mesmo, Inês! Não podia concordar mais - aliás, já conversamos sobre isso e também tenho essa ideia: ficar parada não é opção e não há nenhum trabalho menos digno do que ficar parado à espera que as coisas aconteçam.

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  2. Mais do que um excelente texto que explora o que de 'podre' há na nossa mentalidade, denota grandes grandes valores da tua parte, Inês. Não consegues deixar de surpreender, mas também não consigo deixar de referir algo nada digno que certamente se passou contigo e continua a passar neste momento: a miséria de salário que os trabalhadores da empresa auferem. Ridículo e desrespeitoso pelo trabalho de qualidade e pelo tempo que dedicam

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    1. Devo dizer que, no meu caso, para o contracto que assinei, o horário que fiz e as funções que desempenhei, recebi em conformidade. Entendo o que queres dizer mas, nesse aspecto, nada tenho a queixar-me. Revolta-me muito mais os esquemas mirabolantes que muitas empresas fazem em relação aos estágios (em geral), por exemplo.

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  3. Well, este post tinha de comentar. Tenho uma licenciatura, já trabalhei na área e há uns bons anos sou lojista. Sinto constantemente isso - somos seres inferiores por estarmos atrás de um balcão. Somos seres inferiores por trabalhar num centro comercial ou numa loja. Somos seres inferiores porque se estamos ali é porque não nos esforçamos o suficiente.
    Bem... acho que já perdi em absoluto a paciência para justificar o que não há para justificar. A verdade é que estou há quatro anos a fazer fecho de loja, trabalho sempre à noite, chego sempre de madrugada a casa, perco muita coisa mas ganho um ordenado ao final do mês que me permite viver a vida da melhor forma que sei/consigo. Não sou melhor nem pior por ter uma licenciatura nem sou melhor nem pior por não estar a exercê-la! Trabalhar, seja onde for, é ser-se digno e honesto.

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  4. Admiro quem faz o que fizeste! E acho que as pessoas desvalorizam mesmo certos trabalhos... eu encho o peito de orgulho para dizer que servi casamentos, trabalhei numa fábrica de palmilhas, trabalhei numa fábrica de texteis, estive em feiras a vender... e tudo isso fez de mim aquilo que sou hoje. Arregaço as mangas e trabalho, enquanto luto pelos meus objetivos. E sempre disse que, se não conseguisse o meu objetivo profissional de ser professora, o meu sonho era trabalhar numa caixa de supermercado... todos se riem, mas é mesmo essa a minha realidade. Eu adorava ter uma experiência dessas!
    O que interessa, acima de tudo, é tentarmos ser o melhor que conseguirmos, no que quer que estejamos a fazer. E isso faz com que boas oportunidades surjam :)

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  5. *clap clap clap* tão bem dito, Inês. Feliz ou infelizmente, não sei porque não passei por isso, o meu primeiro trabalho foi logo na área para a qual estudei (é o que tenho agora, na verdade). Mas sempre disse, e estava convencidíssima disso (porque eng. civil há poucos anos atrás...bem, era o que era!), que se nada aparecesse no espaço de um mês ou dois, eu mandava-me para o shopping. Ficar parada é que não era opção! E não vejo absolutamente nada de indigno nisso - bem pelo contrário! Só mostra que tens coragem de te atirar a áreas que não dominas de todo, de lidar com situações difíceis - embora não tenha passado por elas, ouço cada história - e acredita que se me recuso a ser uma cliente chata não é só por eu "ser assim" e fazer parte da minha personalidade, mas também porque sei que quem trabalha com o público passa por cada uma...bom, mas olha, em resumo: é assim mesmo!

    Jiji

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  6. Foi uma ótima decisão! Mais uma experiência que te vai ajudar seja lá onde for que trabalhes no futuro. :)

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  7. Identifico-me totalmente! Passou-se o mesmo comigo... Como cresci, através do contato com as pessoas no meu trabalho "menor"...!!! Mesmo.

    Um beijinho!

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  8. Tudo dito. Ainda ontem falava sobre este assunto de "trabalhos dignos". Todos os trabalhos são importantes. Numa multinacional super importante o gerente de renome não pode fazer nada se a senhora das limpezas não fizer o seu trabalho. Todos os trabalhos são dignos, a única coisa "não digna" no mundo do trabalho é haver pessoas que discriminem certas profissões.

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  9. Começar é sempre difícil, conseguir que alguém olhe para nós e que acredite no nosso potencial. O importante é nunca parar e lutar sempre mesmo que tenhamo de sair da nossa "área". Vai dar sempre para aprender algo e tornarmos-nos melhores pessoas. Um trabalho é sempre digno seja qual for o posto! Ficamos ao sol à espera que as oportunidades caiam é que não nos vai levar a lado nenhum.
    Detesto as pessoas que tratam os outros como se fossem menos pessoas por ter um trabalho de atender os outros. Qualquer pessoa devia passar pelo atendimento ao publico uma vez nada vida para ver o que custa.

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