sexta-feira, 16 de março de 2018

ISTO É TÃO INÊS || Cozinhar

Da mesma forma que a ansiedade se manifesta de maneiras totalmente distintas de pessoa para pessoa — embora existam alguns sinais e comportamentos chave que permitem não só identificar a doença, como também nos identificarmos com outras vítimas desta patologia —, os métodos de combate são, também eles, distintos e personalizados. E todos válidos.

Os meus aliados são vários mas, consoante as minhas fases, uns têm mais eficácia que outros. Infelizmente estou a passar por uma fase mais dura e estava a entrar em grande desespero por nenhum deles funcionar, o que não ajuda visto que sentir que não tenho controlo sobre a minha ansiedade é a fórmula perfeita para me sentir ainda pior. Quando achava que estava melhor, vi-me no tapete, acabada, e sem ninguém nem nada para me ajudar. 

Descobrir a culinária surgiu de uma forma muito natural. Não se deixem enganar: eu continuo a ODIAR cozinhar. Continuo a dizer que se fosse milionária, o meu maior sonho era ter alguém que cozinhasse para mim e me tirasse deste inferno (eu podia fazer as limpezas, só queria alguém que dominasse a cozinha por mim). E continuo a ser totalmente obtusa nesta divisão da casa. Mas foi precisamente por reunir todas estas coisas que eu percebi por que razão não ficava ansiosa nem desastrada: por não ser, decididamente, a minha área de conforto.

Tenho um sem fim de receitas falhadas na cozinha e tenho mesmo! Não é cantada. Já destruí um microondas a tentar fazer um bolo na caneca — aquela receita que normalmente se recomenda às crianças para que elas participem na cozinha de forma segura, sabem? —, já transformei bolos em cimento, já coloquei 500 gramas de manteiga sem questionar a receita, já tentei cozinhar batatas sem me ocorrer que, talvez, seja melhor cozê-las primeiro. E por aí vai. Este pequeno leque serve só para aligeirar a vossa leitura. 

Há muitos anos que assumi e reconheci que não herdei o lado culinário que toda a gente da minha família tem — incluindo o meu primo de 9 anos —. O gene ficou recessivo por aqui e tudo bem. Mas é precisamente por este número de tentativas falhadas ser tão gigante que cozinhar provocou um efeito em mim extraordinário: a minha mente desliga e fica unicamente focada naquilo que tenho de fazer.
Não me posso distrair, tenho de ler com muita atenção a receita e identificar se tudo faz sentido, tenho de estar concentrada porque não me quero queimar, cortar ou partir coisas, é necessário que eu siga os passos da receita à risca e com muita atenção para nada falhar, e os timings da culinária são demasiado importantes para permitir que a minha cabeça viaje para lugares negros e assustadores. Há um bolo para garantir que não queimo! Se adoram cozinha, sabem o quanto um minuto de distracção pode ser fatal para a nossa receita.

Ainda não olho para a culinária como um prazer ou algo que me dê vontade de. Nem sequer peço às pessoas que provem as receitas que, ultimamente, tenho feito. O que me faz entrar para a cozinha e arregaçar as mangas é a certeza de que, durante aquele tempo, o meu corpo vai ter paz. É como um banho de imersão. Se me sinto mais desesperada e angustiada, disparo para a cozinha e procuro uma receita. O resultado final, honestamente, é-me indiferente (embora, até à data, tenha ficado muito surpreendida com o que coloco no meu prato) porque o importante está no processo. Sei que não correrá mal porque o propósito é concentrar-me na receita e parar de pensar. Aliado ao facto de estar a reeducar-me a nível alimentar, dar a mão a estes dois monstros do desconforto tem sido fundamental para me tornar numa Inês diferente.

Acho que nunca vão imaginar o quanto esta descoberta e introdução da cozinha na minha vida foi surreal para mim e para as minhas pessoas. Mas foi mesmo. Foi uma faceta que jamais esperava. Foi a descoberta de um lado meu que há muito não investia (no facto de ser esquisitinha e não cozinhar). Nunca pensei em fazer esta relação porque, por ser algo tão desconfortável, imediatamente supus que só poderia prejudicar a minha ansiedade, quando faz precisamente o contrário. Salva-me dela. Viver com ansiedade ensinou-me que em diferentes fases tenho de recorrer a diferentes métodos. E quando achava que no pico máximo do desespero estava tudo perdido, descobri que o meu DNA tinha o lado culinário do resto da família. Simplesmente tinha um propósito diferente do deles.

8 comentários:

  1. Isto é mesmo interessante, Inês! E percebo bem como pode funcionar, de facto faz todo o sentido. Ou te focas, ou corre mal, por isso não tens outro remédio. Clever girl! Já eu, adoro cozinhar - e, não tendo ansiedade, uso isso como um dos prazeres do meu dia-a-dia e uma forma de me acalmar :)

    Jiji

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  2. É um método... peculiar, mas que compreendo como e porque é que funciona! No meu caso, penso que estar ocupada, seja com a faculdade, ou com a escola me ajuda bastante - se estou de férias e por acaso, não consigo pensar em nada para me distrair, a minha mente acaba por dispersar para lugares que eu tento evitar.
    https://sunflowers-in-the-wind.blogspot.pt/

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  3. Your only limit is your soul. Acredito muito nisto. Assim como acredito que cada um tem a sua forma de combater as suas batalhas. Para uns, a espada é a melhor opção, para outros, passa por pegar numa lima. E, ainda bem que não há um algoritmo único para todas as patologias e personalidades. Assim, podemos aprender com o outro e perceber se funciona ou não connosco. Enquanto te desligar a cozinhar, eu desligo-me a correr e, apesar de gostar - MUITO! - de o fazer, não quer dizer que não sirva o mesmo efeito.
    Não fico feliz que sofras de ansiedade, porém, fico genuinamente contente que estejas a descobrir como contornar.
    Beijo enorme, mulher. 🌻💛

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  4. Gostei tanto de ler este texto. Sofro com o mesmo problema que tu, a tal ansiedade que embora tenha picos e alturas em que não se manifesta tanto, nos faz passar por fases mais complicadas. Também tento sempre encontrar estratégias para a combater e às vezes não é facil, até porque como dizes, o que funciona em certa altura, pode não funcionar depois e achei engraçado porque também já me lembrei de investir mais nesta área da Cozinha, o que tenho tentado fazer, embora de maneira muito lenta LOL
    Tens de nos dar umas dicas de receitas :)
    Rita

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  5. Acho esta forma de relaxar muito curiosa, sobretudo de alguém que afirma não ter muito jeito na cozinha :).
    Eu cá ainda estou a aprender a cozinhar ( já sei os básicos, mas quero ir mais além), e, ao contrário de ti, ter que me concentrar naquilo que não sei deixa-me ansiosa. Aprender coisas novas nem sempre me deixa ansiosa, mas acho que na cozinha devo ter medo a pôr a arder ahahahah xD.Mas fazer bolos relaxa-me imenso.
    A mim o que me ajuda imenso a relaxar é ler livros, ir ao cinema e falar com aqueles que me compreendem melhor.
    Beijinhos
    Blog: Life of Cherry

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  6. Quando era mais novinha, odiava cozinhar porque sempre apenas o fazia para o meu pai ter almoço quando viesse de trabalhar e eu antes de ir para escola. Nunca gostei de cozinhar mas dava me prazer fazer umas sobremesas. O tempo foi passando e, apesar de continuar a preferir fazer receitas doces, gosto de cozinhar no geral e de inventar receitas, ler blogs, usar ingredientes variados. É, para muita gente uma forma de relaxar, para mim é algo que estou habituada a fazer todos os dias e o faço de forma feliz!

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  7. És incrível só isso. A todas as horas do dia! Um beijinho enorme Inês .
    Catarina Craveiro

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