sábado, 27 de janeiro de 2018

PASSAPORTE || O Bloco Laranja

Açores 2003. Foi o destino da minha primeira viagem de avião. Levei este bloco de notas laranja comigo, para fazer os meus primeiros registos de viagem. Era a primeira vez que não ia escrever sobre contos e histórias inventados por mim e sim sobre factos e momentos que tinha vivido num acontecimento importante, como uma viagem.

Esses momentos de registo estavam sempre reservados para o final do dia, antes de jantar. Os dias eram sempre longos e cansativos, entre viagens de carro e caminhadas valentes para vermos todos os tesouros naturais, pelo que regressávamos sempre à pousada, já no final do dia, para um duche revigorante (e muito necessário) e para descansar um pouco antes de partirmos para jantar. Tentava sempre tomar banho o mais rápido possível para que pudesse ter muito tempo para escrever. Enroscava-me na cama e escrevia sobre tudo: os melhores momentos da viagem, os sítios mais interessantes para visitar, factos sobre os Açores... Parece-vos familiar?

Era como um diário de viagem. Embora não fosse para mais ninguém, sentia esta necessidade de partilhar e de registar os pormenores, factos e detalhes que, já em tenra idade, sabia que se iriam perder na memória. E por isso, embora cansada — a minha expressão diz tudo porque esta é uma cara de sacrifício, sono e fadiga — esforçava-me sempre por escrever, nem que fosse uma página. Guardo com muito carinho este registo que o meu pai fez, de uma forma tão natural: aqui está o nascimento do PASSAPORTE.

Podia ser uma fotografia melhor; o meu cabelo está todo molhado e a cara transparece tudo menos felicidade. Até a mão está caída. Mas é o registo mais fiel e feliz de sempre! Um registo de mim exausta, na minha primeira viagem — e quem já viajou, seja em que idade, sabe perfeitamente o quão violento e brutal é uma primeira viagem —, a pensar (porque a posição da mão engana, mas é este o trejeito que faço quando estou a pensar no que escrever) e a ser feliz. Ainda tenho este bloco comigo; a escrita e as descrições são rudimentares, o meu foco destinava-se a detalhes que, hoje, não teriam qualquer relevância para mim, mas é isso que torna tudo incrível. Era a viagem à minha imagem, como o faço agora. Às vezes as nossas ideias (como separadores de um blog) não nascem no momento em que os inauguramos. Às vezes nascem de outras formas. O PASSAPORTE — que vocês tanto acarinham e aguardam cada vez que anuncio mais uma aventura — começou aos nove anos, numa pousada nos Açores, enquanto relaxava. E agradeço à pequena Inês todos os dias por isso.

16 comentários:

  1. Que registo tão bonito! Os meus primeiros cadernos, aqueles onde escrevia histórias rudimentares, perdi-os todos. E tenho imensa pena de não poder revê-los.

    Um dia tens que partilhar connosco alguns excertos desses primeiros diários de bordo :)

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  2. Este post é absolutamente adorável!

    Normalmente, as coisas que gostamos de fazer quando somos crianças acabam por se manter de uma forma ou de outra. E ainda bem, adoro ler os teus Passaportes!

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  3. Eu, por outro lado, acho que a foto está incrível e transparece todo o trabalho e dedicação que colocas nesta rubrica. Está demais! Não acredito que tudo começou com um bloco cor de laranja e uma menina tão nova. Que bonito e inspirador! Nunca é cedo demais, nem nunca é tarde demais. 💫
    Que a tua vida tenha muitos blocos cor-de-laranja!

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  4. Lembro-me tão bem de nas minhas primeiras viagens fazer o mesmo. Todas as noites escrevia num caderninho os pontos altos do dia. Deste-me imensa nostalgia porque já à uns bons anos que não o faço!

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  5. Que giro manteres essa recordação. Comecei a viajar de avião com apenas dois anos :) então, para mim, nunca houve essa 'mudança' do antes e do depois. Sempre vi as viagens como parte integrante de quem sou, e sinto-me eternamente grata pelos pais que tenho e por me proporcionarem essas experiências desde tao cedo.
    Continua a contar-nos esses relatos Inês!

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  6. Que incrível! Espero que um dia partilhes esses textos do início do Passaporte connosco :)

    Beijinhos, Ensaio Sobre o Desassossego

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  7. Revejo-me tanto neste post!
    Sempre quis ter um diário de viagens. O ano passado, com a minha primeira viagem marcada, ofereceram-me um, que contem toda a magia daquela semana fantástica. Não podia estar mais feliz com os registos que fiz

    \Xiá
    Coffee Cup

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  8. Ok, tinhas um ar tão fofo!!!!
    Apesar de ainda não ter tido oportunidade de viajar muito, no ano passado, nas férias, levei um caderno para poder escrever sobre cada dia, antes de dormir. E apesar de partilhar os locais que visito no blog, escrever a viagem naquele caderno foi uma experiência diferente e quero repeti-la sempre que tiver oportunidade de viajar.
    Deve ser realmente encantador poder reler as impressões que tiveste quando ainda eras tão novinha! :D


    A Sofia World

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  9. Que sorte teres estes registos! Felizmente eu tenho cadernos da minha infância e adolescência. Tão bom recordar com as minhas próprias palavras!

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  10. Que gira! Adorei a história e gostava que um dia partilhasses connosco esses primeiros registros! Eu também tinha o costume de escrever muito, mas nunca o fiz sobre as minhas viagens, excepto com uma em que comprei um album gigante especialmente para isso
    Por onde anda a Sofia?-Instagram

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  11. Tão fofa.:P Esses registos têm tanto valor!

    Another Lovely Blog!, http://letrad.blogspot.pt/

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  12. Que publicação e fotografia tão amorosas :)
    No meu ponto de vista, existem coisas que adoramos ou fazemos em crianças que só mais tarde voltam a estar na nossa vida. Quer seja porque entretanto passámos a querer fazer as mesmas coisas que os nossos amigos ou até porque nos vamos distraindo com as novidades. Acho que é quando nos voltamos a encontrar as nós mesmos que estes pedaços reaparecem.
    Neste caso em concreto parece que o "Passaporte" esteve sempre presente e fico feliz por a pequena Inês ter vencido o cansaço e ter-se dedicado a algo que lhe fazia sentido.

    Beijinhos!

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  13. E a pequena Inês tem um amor tão amoroso como a Inês crescida. Beijinhos

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  14. Que post tão bonito e fofo ( sobretudo tu, eras tão amorosa <3). É incrível como uma rubrica muito adorada na blogosfera começou de uma forma tão simples, com um simples bloco de notas cor de laranja.
    És tão Inês em tudo o que fazes, não sei explicar, mas nota-se que és uma pessoa que faz questão de deixar a sua marca pessoal em tudo o que fazes, e é por isso que tenho um gosto enorme em te acompanhar.
    Beijinhos,
    Cherry
    Blog: Life of Cherry

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  15. A pequena Inês sabia já que escrever era uma parte importante da tua vida. Eu também tenho este hábito de escrever desde pequena. Fossem relatos de viagens ou dos meus dias até ao tão secreto diário. Tenho quase todas as fases da minha vida documentadas em pedaços de papel. Fiquei agora com vontade de reler os escritos da pequena Andreia. Obrigada por este texto saudosista e cheio de sentimento! Beijinhos

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