terça-feira, 5 de dezembro de 2017

MUNDO || Ser feminina

Um dos conceitos que mais amadureci, à medida que fui crescendo, foi o significado de ser feminina. Sempre fui muito feminina; brinquei com Barbies, vestia-me de princesa, praticava ballet, amava brincar às casinhas — quando não estava na rua — e queria ser bailarina, quando fosse grande. Eu era o exemplo máximo daquilo que imaginamos quando falamos de uma criança feminina.

Mas na minha entrada para a adolescência, reparei numa percepção que, ainda hoje, perdura: a associação imediata que se faz ao "ser feminina" com "ser vulnerável". O expoente máximo onde isto se verifica é na escola; as minhas colegas preferiam dizer que eram "Marias-Rapaz" e eram mais admiradas por se lançarem para os campos de futebol porque "sempre joguei" (quando, na verdade, não jogavam, de todo) e a que praticava ballet era gozada por "usar tutus". Qualquer coisa mais próxima do universo feminino era absolutamente destruída e gozada por elas. Dizer "Eu dou-me melhor com rapazes do que raparigas" era o Santo Graal da inteligência, ponderação e desconexão do universo feminino.

Ainda hoje percepciono que as miúdas observam a característica feminina como um sinal de fraqueza. Que assemelharem-se mais a rapazes — no comportamento, nas preferências, nas relações — era uma garantia de auto-confiança e sensatez. Que ser uma miúda delicada, que preferisse cor-de-rosa depois dos dez anos, que tivesse um grupo de amigas e que não jogasse nada de futebol não só era ser feminina como também era ser fútil, fraca, e sem força de espírito.

É óbvio que há raparigas, de facto, nada ligadas ao universo feminino e que são "Marias-Rapaz". Quase todas as minhas amigas o eram (muitas ainda o são) e sempre haverá. É absolutamente normal. Mas eu sentia e quase que palpava esta concepção de que uma miúda só podia ser inteligente, sensata e interessante se se afastasse de tudo o que de mais óbvio há em ser feminina. E isto não podia ser mais errado.

O facto de os vossos gostos, comportamentos, preferências ou relações se aproximarem mais ou menos do universo feminino não vos torna mais frágeis ou menos interessantes. Vocês não são fracas por fazerem ballet e não mandarem uma para a caixa no futebol. Vocês não são pouco dadas à inteligência por gostarem de comédias românticas e não suportarem filmes de acção. Vocês não são mais interessantes se disserem que odiavam Barbies quando, na verdade, pediam uma todos os Natais. Vocês não são mais superficiais por adorarem o cor-de-rosa, e o facto de amarem ter amigAs não vos torna mais difíceis de relacionar — da mesma forma que terem amigOs não vos torna mais acessíveis, tolerantes ou pouco conflituosas —. Não gostarem de jogar consola não traduz que sejam insuportáveis ou pouco fixes. Simplesmente não gostam de consola.

É muito necessário que percebamos que ser feminino em nada tem a ver, na verdade, com estes gostos e preferências que acabei de referir — podem ser jogadoras de basquetebol, usar sweatshirts durante metade da vossa adolescência e continuarem a ser muito femininas (eu fui um exemplo claríssimo disso) mas é certo que concebemos imagens (um pouco justas, vamos ser honestos) de gostos e comportamentos mais femininos que outros. O importante é compreender que, o que quer que escolham para ser, fazer, conversar ou gostar não vos torna mais inúteis, vulneráveis ou inválidas por isso. Não tenham medo de ser femininas, independentemente dos vossos comportamentos e escolhas. Não tenham medo de admitir que são femininas mesmo quando continuam a não gostar de cor-de-rosa nem de maquilhagem. Não deixem que vos diminuam por uma característica que não tem absolutamente legitimidade nenhuma para vos diminuir. Podem continuar a gostar de princesas, podem gostar de se maquilhar depois de um torneio de futebol onde participaram, podem gostar de cor-de-rosa, podem ter mais amigas raparigas que rapazes, podem gostar de fazer compras e continuam a ter força para chegarem onde desejarem e capacidade para verem os vossos objectivos concretizados.

Não há nada de interessante em serem femininas ou não, mas sim em abraçarem quem são sem medo nem vergonha de serem felizes e fiéis a vocês mesmas.

18 comentários:

  1. eu nunca fui muito feminina. não por ter medo de mostrar ou parecer que sou fraca. mas porque tenho uma personalidade muito forte e chata e via muitas das "actividades" de rapariga como uma perda de tempo (tipo fazer as unhas, ir ao cabeleireiro com imensa frequência, maquilhar-me todos os dias, bla bla bla). Ainda hoje, acho que é uma perda de tempo fazer isso tudo, no entanto, como mulher de 26 anos que trabalha numa empresa grande, a lidar com clientes, é esperado que eu tenha um certo aspecto. E pronto, lá tem de ser. Mas sim, quando era mais nova era bastante maria rapaz, jogava a bola e não queria saber de tutus cor de rosa ^^


    TheNotSoGirlyGirl // Instagram // Facebook

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    1. Não percebi uma coisa neste comentário. Escreveste que não és feminina e ok, mas dizes que não o és porque tens uma “PERSONALIDADE FORTE e chata”. A minha pergunta é: leste a publicação dela? É que o teu comentário não faz qualquer sentido com a mensagem que ela quis passar, muito pelo contrário...
      Não leves a mal, se calhar fui eu que não percebi muito bem, só quero perceber o que querias dizer com não seres feminina por ter uma personalidade forte...

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    2. Creio que o que a TheNotSoGirlyGirl quis dizer é que não tem perfil para gostar de algumas actividades mais femininas, não que acha que as mulheres contrárias a ela têm personalidade fraca (pelo menos, foi esta a minha interpretação :D). Pessoalmente não gosto de adjectivar as pessoas com “personalidade forte” ou “fraca” porque não faz muito sentido, para mim claro, mas -usando estes termos- há personalidades fortes e fracas em mulheres mais ou menos femininas. Como referi, ser feminina não traduz nenhuma das duas :)

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  2. E é isto! Mais uma vez, Inês, dizes tanto com tão pouco <3

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  3. Acho que o último parágrafo expõe o que é mais importante: a importância clara de nos valorizamos sempre, independentemente das nossas opções e gostos, sem nos deixarmos colar às pessoas que estão ao nosso redor, sob a ideia de que ser assim é que deve ser o mais acertado. Excelente reflexão, Inês :)

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  4. Olha que belo texto. Sabes, eu fui uma wannabe-maria-rapaz durante algum tempo, não porque não gostasse de ser feminina (e sempre o fui e nunca o escondi), mas porque achava que isso é que era cool, e eu queria mesmo deixar de ser croma e passar a ser cool. Afinal de contas, as minhas amigas que jogavam bem futebol é que ficavam com os rapazes giros ahah :p fora de brincadeiras (que até são sérias porque a minha auto-estima era uma miséria à conta destas histórias, mas isso são outros 500), notava a mesma coisa que referes: o maior bullying que sofri (e que durou meses) surgiu no dia em que pintei as unhas de cor de rosa. Mas, felizmente, acho que hoje estas ideias estão mais diluídas nos mais novos, ou assim me parece pelos adolescentes com quem lido no teatro. Quero ter fé que sim. E que se percebe que cada um é como é e isso não nos torna mais ou menos válidos.

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  5. Há imensos vídeos acerca deste tema que já vi e gostei bastante porque aborda o mesmo de uma forma espantosa, não sei se já viste algum.
    Acho que organizaste as ideias muito bem. E tens razão, infelizmente somos vistas como frágeis e vulneráveis.

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  6. Concordo imenso com o que defendes! Acho que é ridículo sermos pressionadas desde pequenas para encaixar num padrão que pode ou não corresponder com realidade e ninguém explica que é natural sermos diferentes e ninguém é mais, ou menos por isso!
    https://sunflowers-in-the-wind.blogspot.pt/

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  7. Não sei bem por onde começar, estive este tempo todo a tentar organizar as ideias, mas, a verdade é que tu me inspiras profundamente, a sério. Escrever algo deste género, estar certa sem ser imprudente ou sem sobrepor a tua opinião. Adoro isto! Escreves tão bem e de forma tão assertiva.
    A verdade é que não percebo o conceito de feminina que vagueia por aí nas mentes das pessoas, como se gostar de brincar com Polly's e gostar de telecomandar carros fossem coisas completamente divergentes, como se fosse contraditório ter pistas de carros e saias cor-de-rosa, como se fosse antónimo usar saltos altos à noite e sapatilhas durante o dia. Por isso, obrigada por esta publicação, eheh, sempre que quiser dizer alguma coisa sobre isto, vou deixar as pessoas ler estas palavras primeiro.
    Um beijinho <3

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  8. Inês, o meu comentário não está directamente relacionado com este post mas como é transversal deixo-o aqui: queria só dizer que te acho uma pessoa realmente inspiradora (e eu digo isto de tão pouca gente!), e é uma pequena felicidade começar o dia com algumas palavras tuas — nem que seja sob a forma de um tweet, gosto mesmo de ler o que escreves. 😊 keep spreading love girl!

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    1. Oh, Sílvia, que miminho bom! Obrigada pela confiança e pelo carinho. Tenho sempre muita consideração pelo feedback que recebo e receber elogios como este deixam-me sem palavras mas muito orgulhosa do meu trabalho. Uma vez mais, muito obrigada! <3

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  9. Inês, adorei o texto, mas esse "haverão"...

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    1. Obrigada pela chamada de atenção, lamento que te tenha perturbado dessa forma. Farei a correção assim que possível! :)

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  10. Nunca tinha pensado dessa forma mas talvez seja verdade, talvez o motivo para que muitas vezes as raparigas se afastem do seu lado feminino seja inconsciente e reflita o medo de serem consideradas frágeis e fúteis...Obrigada por mais uma reflezão Inês.:)

    Another Lovely Blog!, http://letrad.blogspot.pt/

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  11. Pelo contrário, na minha pré-adolescência e adolescência, as meninas mais femininas é que eram mais valorizadas. :p

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  12. Inês, quando começas a publicar os TOP's? Estou muito entusiasmada e curiosa eheh

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    1. Apenas depois do Natal! Também estou ansiosa para partilhar tudo convosco :D

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  13. Que textão!! 👏 Compreendo bem o que dizes, pois, durante muito tempo, sempre fui contra o facto das raparigas serem demasiado femininas, exatamente por ter acreditado que isso nos tornava numas falsinhas, más, fúteis, etc... Acredito que muito em parte isso se deva às minhas experiências escolares, onde fui abusada por raparigas que se achavam superiores, logo, toda a imagem que eu associasse a essas miúdas, me fazia sentir azia e uma certa raiva.
    Contudo, fui crescendo, alargando conhecimentos e relações, e acabei por descobrir que feminilidade nada tem que ver com maldade, fraquezas, etc... Ser-se feminina é aceitarmos a nossa inteligência, a nossa beleza, a nossa capacidade de fazer mais e melhor, os nossos sentimentos... Sempre fui Maria-rapaz para me proteger de ataques, mas a verdade é que também o era porque me sentia confortável! Só muito recentemente, é que reconheci que eu posso ser eu mesma, também, dentro de conjuntos mais arrojados, dentro de modos decentes, assumindo uma postura mais cativante, arrojada, trabalhada.
    Penso que certas pessoas apenas compreendem certos termos, quando se apercebem elementos desse núcleo. Por exemplo, eu nunca consideraria alguém boa pessoa ou educada, se eu não fizesse parte desse grupo. Do mesmo modo que eu passei a reconhecer o valor da feminilidade, quando me reconheci como uma mulher feminina, não sendo malvada, fútil, egocêntrica, etc...
    Faz parte do crescimento!
    Gostei imenso desta tua reflexão, Inês! Como pudeste ver, colocaste-me a pensar e eu agradeço por isso!

    novo blogue: IMPERIUM

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