quinta-feira, 7 de setembro de 2017

MUNDO || World Ending

Nos últimos tempos, a minha caixa de e-mail tem estado recheada de mensagens de leitores mas, infelizmente, não é pelos melhores motivos. Os assuntos são diversificados e sempre com histórias diferentes - e que, por uma evidente questão de privacidade, eu não os irei partilhar convosco - mas identifico o factor comum: "sinto que o meu mundo acabou".

Esta súbita onda de mensagens, oriundas de pessoas tão diferentes e por motivos tão diferentes, fez-me reflectir um pouco. O Bobby Pins é um refúgio feliz e este sempre foi o meu objectivo - e continua a sê-lo - aqui na blogosfera, e fico sempre surpreendida quando continuam a confiar em mim para desabafar as coisas tristes também. Significa que, ao contrário do que muitos pregam, quem fala de felicidade também pode passar confiança aos leitores de que podem, também, falar sobre a tristeza. Talvez numa perspectiva que desconheciam antes. 

Mas, acima de tudo, fez-me pensar neste fim do mundo que tantas vezes nos arrebata e que é tão difícil de consolar quando nos vemos presos nele. O fim do mundo. Quando tudo à nossa volta colapsa, quando nada corre bem, quando os nossos alicerces racham, quando as pessoas se vão embora, quando o mundo pesa nos ombros e derrete sobre nós. Como podemos dizer à pessoa que está no olho do furacão, que cá fora vai ficar tudo bem, tudo normal, tudo impecável? Como é que eu, mera miúda que também tenho os meus fins do mundo, posso dizer a estas outras miúdas e miúdos que não é o fim do mundo quando se sente que é?

Eu sempre achei curioso os fins do mundo porque nenhum realmente acontece. A questão é que o fim do mundo (emocional e científico) não seria uma coisa palpável ou com uma contagem decrescente; o fim do mundo não se anuncia nem se sente; quando um meteoro do tamanho da Lua quiser colidir com a Terra, não vai haver comunicado da NASA, nem manobras de evacuação porque não haverá tempo para isso, sequer. Será tudo tão rápido que num minuto estaremos a comer um hambúrguer e no outro estaremos extintos e dizimados. Não haverá despedidas e lágrimas e crises existenciais. Não haverá tempo para fatalismos. O fim do mundo simplesmente acontece e simplesmente acaba. Mas o fim do mundo ainda não aconteceu. Nós acordamos no dia seguinte e a Terra está intacta, o céu tem as cores normais. O nosso coração continua a bater mesmo quando dizemos que está partido, a nossa cabeça continua a fazer raciocínios extraordinários mesmo quando a sentimos vazia ou pesada, os nossos olhos continuam a enxergar o mundo mesmo quando só querem fechar e nós continuamos a ter o nosso mundo mesmo quando achamos que acabou. Aqui continuamos, umas vezes com mais energia, outras vezes mais entregues à tristeza, no meio do olho do furacão mas... nada acontece. O furacão não nos leva, só ameaça. É enorme, mas não cumpre. Não termina com o nosso mundo, só nos faz sentir assim.

Vocês sobreviveram a todos os fins do mundo (o nosso e o vosso). Não preciso trabalhar na NASA para o afirmar: se vocês estão a ler esta publicação, se estão cá, se têm um coração equipado a rigor para vos fazer viver, uma cabeça perfeitamente capaz de vos fazer sentir e reflectir, olhos que não fecharam para lerem mais este parágrafo e, bem... Se um meteoro do tamanho da Lua não atingiu a Terra até agora, isto só pode significar que sobrevivemos a todos os fins do mundo - até eu. Também não sou imune a fins do mundo. Vocês sobreviveram a quedas violentas de bicicleta, à derrota do campeonato do vosso clube, à perda de um ente querido, a términos de namoro, a distanciamentos de amizade, a notas negativas, a chamadas de atenção humilhantes, a sustos na vossa saúde, a anos complicados, a derrotas académicas e profissionais, a portas fechadas na cara, a janelas fechadas na cara, a sentimentos não correspondidos e a qualquer outra coisa que vos assuste, que achem que jamais iam superar. Tudo isto se apresentou a vós como um furacão e nunca vos levou. Continuam aqui. 

Isto também deveria ser um excelente momento para reflectirem sobre uma outra coisa: vocês foram feitos de uma matéria muito mais resistente do que julgavam e, bom, sobreviveram a todos esses fins do mundo. O que significa que vocês são mais fortes do que imaginam, mesmo quando não se concentram nisso. Mesmo quando acham que não. Vocês superaram aquilo que vocês achavam insuperável e isso revela que têm uma força que desconheciam. Abracem-na. Lembrem-se dela. Não é de mais ninguém.

A questão é que é uma força só vossa e que ninguém a pode reclamar porque só a vós vos pertence. Ninguém vos pode tirar do fim do mundo por vocês. Eu não posso. Todas as pessoas ao vosso redor podem estar do outro lado a torcerem por vocês, a estenderem a mão, a dizer que tudo irá correr bem (e isso é muito importante). Eu posso dizer-vos que há sempre boas notícias ao virar da esquina. Mas são vocês que têm a força para agarrarem na mão dos outros, são vocês que têm a coragem de virar a esquina. A força é vossa e, por vezes, aparece sem se darem conta. Mas é vossa e podem orgulhar-se disso, de terem uma força que desconheciam! Sobreviveram, ultrapassaram o que achavam nunca vir a ultrapassar. E se já acordaram no dia seguinte ao fim do mundo, todas as manhãs, isso significa que qualquer outro fim jamais vos vai ganhar. Abala, todos abalam. Ameaça, todos ameaçam. Mas não ganha. Os vossos batimentos cardíacos e o vosso sorriso inconsciente é a prova disso: não é o fim do mundo. Vocês vão continuar a viver, vocês vão voltar a ser felizes, vocês vão voltar a encontrar beleza no que vos rodeia e nos outros, vocês vão voltar a sentir aquilo que julgavam estar guardado só para uma pessoa, vocês vão voltar a encontrar propósito, vocês vão descobrir o vosso talento e a vossa oportunidade vai chegar. É só um braço de ferro à vossa resiliência. E a matemática está do vosso lado, afinal de contas, vocês ganharam sempre. Confiem.

9 comentários:

  1. Bem escrito! E adoro a frase no fim do post :)

    themerrymarie.blogspot.com

    ResponderEliminar
  2. Todos temos os nossos fins do mundo, que traduzem diferentes impactos e consequências e lidamos com eles da forma que podemos. A visão que aqui partilhas hoje é maravilhosa, Inês. É um olhar bastante positivo sobre os solavancos e percalços no nosso dia-a-dia que, de certa forma, ajuda a ver as coisas de outra perspectiva. Gostei muito de ler :)

    ResponderEliminar
  3. damn Inês, o que escreveste é tão mas tão importante! é bom saber que já ultrapassei tanta coisa, ainda assim as tuas palavras fizeram-me imaginar um dos meus piores "fins do mundo" e uma pessoa só de imaginar fica fraca, mas como dizes todos somos fortes! tenho pena que tantos leitores teus estejam a passar por maus momentos, espero que fiquem todos bem :)

    https://lavitainrosaa.blogspot.pt/

    ResponderEliminar
  4. Pode parecer tolice, mas juro que a única coisa que me passou pela cabeça ao ler o texto foi: Inês, és #goals

    ResponderEliminar
  5. Sei que é a última frase, mas «E a matemática está do vosso lado, afinal de contas, vocês ganharam sempre. Confiem.» tocou-me de uma forma inimaginável, indescritível, até!
    Porque é que me deixas sempre de lágrima no olho? Nunca te mandei um email com tal conteúdo, porém, o assunto diz-me muito. Todos nós quebramos e sentimos que chegou o fim quando mais uma curva se apresenta à nossa frente. Saltar para cima da moto que é a nossa vida e conduzir pela curva sem saber o que há a a seguir a esta é a força que todos temos e ignoramos quando achamos estar mesmo mal. Chegámos até este ponto, caímos, esfolámos os joelhos, limpámos as lágrimas e seguimos em frente, com todos os piscas e stops que isso envolve.
    A tua visão da vida alegra-me profundamente. Obrigada por tamanha força que me transmitiste hoje, não fazes ideia como ler isto na fase da vida em que estou foi saboroso.
    Beijo enorme para ti Nês!

    ResponderEliminar
  6. '' os fins do mundo'' ao fim ao cabo tornam-nos mais fortes e fazem-nos crescer :) (por muito que doam)

    ResponderEliminar
  7. Inês, O-B-R-I-G-A-D-A por isto, de verdade. Vale a pena ler coisas assim. Emocionei-me mesmo. Porque há muitos "fins do mundo" na minha cabeça e, todos os dias, luto contra eles. Obrigada, és mesmo especial!

    ResponderEliminar
  8. Obrigada por este texto, está bonito demais :)

    ResponderEliminar
  9. Olha, só tenho a agradecer por esta leitura noturna, que embora pudesse ter sido feita mais cedo, por algum motivo do universo, só agora é que ficou decidido ela me vir parar às mãos.

    Todos temos os nossos momentos de maior fraqueza, aqueles que nos derrubam, que nos gritam os mais dolorosos "nãos" à cara, aqueles que nos amarram o coração e o apertam até ele deixar de jorrar sangue, no entanto, tudo passa e tudo tem solução. É como dizes, só nós é que podemos determinar a força com que enfrentaremos as nossas batalhas, cabe-nos a nós decidir se vamos, ou não, erguer a cabeça, sorrir e continuar a seguir. Dói sempre, aquela sensação de fracasso que nunca nos larga, aquela ideia de que jamais seremos gente suficiente para persistir, mas da mesma maneira que nos auto-sabotamos, também temos a destreza para evoluirmos e renascermos das cinzas!

    Obrigada, Inês, por este momento de reflexão. Nem sabes o quanto contribuíste, neste curto espaço de tempo, para que me sentisse mais certa das minhas convicções! De coração! ♡

    LYNE

    ResponderEliminar

Quaisquer comentários que visem a ofender e/ou afectar a minha integridade, dos meus leitores, comentadores, bloggers ou entidades que refiro nas minhas publicações não serão aceites.

Quaisquer questões colocadas serão respondidas na própria caixa de comentários!

Muito obrigada por estares aqui :)