quarta-feira, 28 de junho de 2017

MUNDO || Plural


Uma das maiores vantagens de vivermos num mundo livre - ou, pelo menos, num país livre - é a possibilidade de abraçarmos a nossa pluralidade. Poucas coisas são menos sensatas do que reduzirmos os outros - ou nós próprios - em categorias e rótulos baseados num único interesse. Porque é uma ideia irreal. Não somos um só interesse, um só gosto, um só estilo.

Eu gosto de basquetebol, artes marciais e ballet. Nuns dias prefiro pôr batom, noutros uma sweatshirt. Deslumbro-me a ver clássicos da Disney e a ler livros sobre ciência. A química e física intrigam-me tanto como a literatura, as línguas e a arte. Vou a museus de manhã, mas também posso ir a festas que acabam de madrugada. Tenho o mesmo interesse por saber mais sobre a vida de Kandinsky como a de Kevin Garnett. Gosto de gestos românticos e tenho os pés assentes no chão, ao mesmo tempo. Conheço as composições de Mozart e sei de cor letras de rap cheias de palavreado digno de arrepiar. Vibro na mesma medida com uma viagem tropical e com uma urbana. Alinho tão bem numa caminhada por arvoredos e bosques como numa ida às compras ou ao cinema. Posso falar sobre Harry Potter e também sobre política. Adoro ouvir o que os outros entendem por espiritualidade, mesmo que saiba que sou muito racional. Gosto de me vestir bem, de acompanhar tendências e de estar num café a ver um bom jogo de futebol, compreendendo todas as regras e jogadas de campo. Consigo torcer pelo Benfica sem desmerecer todos os restantes clubes por isso. Quis tanto aprender a tocar violino como a fazer mergulho. Sofro de ansiedade e não tenho medo de descer rápidos de canoa. Consigo fazer piadas, dizer coisas parvas e de dizer outras tantas coisas, mais sérias e, talvez, bem mais válidas. Não gosto de beber, mas sou divertida. E aprecio música brasileira e Foo Fighters com a mesma dedicação.

Não somos singulares e não faz sentido que o sejamos. Somos plurais e temos interesses que não têm, necessariamente, de encaixarem todos no mesmo padrão. Às vezes não contrastamos só com os outros; também contrastamos com nós próprios. Somos femininas e odiamos Barbies. Não somos fãs de política mas interessamo-nos por filosofia. Adoramos maquilhagem e matemática. Interessamo-nos por música house e instrumental. Somos de humanidades e de ciências no mesmo grau. Temos sensibilidade e racionalidade na mesma medida. E é estimulante! Desconstrói, todos os dias, as noções que criámos sobre o mundo e sobre nós para criar outras, novas e mais ricas, mais desenvolvidas e mais abrangentes. Torna-nos inteligentes, interessantes e pouco monótonos. Ninguém é feito de um só gosto e não faz sentido rotular ou julgar o outro por um só estímulo. Porque somos feitos de mais; de curiosidades, de questões, de inclinações que nos fazem abraçar uma série de conceitos opostos que, de um jeito muito peculiar, desenham os nossos traços e características. Não somos nada por gostarmos de uma coisa; mas somos muito por gostarmos de várias. A pluralidade ainda não é um facto facilmente reconhecido e aceitado por todos, mas é uma das coisas mais incríveis que a nossa consciência nos permite ter: a capacidade de nos apaixonarmos por um milhão de assuntos que o mundo à nossa volta tem para oferecer.

12 comentários:

  1. Identifiquei-me tanto com esta publicação. De facto, todos nós temos a nossa pluralidade, não vale a pena negar como muito gente tenta fazer. Existem muitas pessoas que tentam negar está pluridade, dizem que não é possível termos interesses tão diversos e contraditórios. Mas a verdade é que é.
    Para dar um exemplo, eu tanto me interesso por letras como por ciências ( nesta área, interessa-me mais especificamente saúde). Muita gente no meu curso acha que há algo de errado comigo, por também gostar de letras. Ha quem diga até que estou no curso errado, que devia estar em letras xD. Mas porque é que me julgam? Eu não posso ter interesse pelas duas áreas? Na minha opinião, posso, e não tenho nem vou ser obrigada a escolher entre estas duas paixões.
    Além destes dois interesses, também tenho muitos outros contraditórios. Como tu, tanto fico em casa a ler um livro como vou para uma festa até às tantas da madrugada. Tanto digo piadas como falo a sério. Tanto vejo Simpsons como vejo o telejornal... E muito mais :).
    Beijinhos,
    Cherry
    Blog: Life of Cherry

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  2. Apaixonei-me por este texto. Nunca tinha pensado bem sobre este "pluralismo", mas realmente chateia-me porem rótulos ou assumirem gostos com base apenas num ponto da constelação que somos.
    Bravo!

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  3. Um texto maravilhoso e com o qual me identifico imenso! A nossa capacidade em ser plurais é incrível.

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  4. "Adoramos maquilhagem e matemática", por momentos pensei que escreveste o texto a pensar em mim, e esta frase foi a que me fez acreditar mais nessa hipótese! Acho que nunca te disse, mas acho-te uma pessoa tão completa. É incrível como consegues sempre meter por palavras, pensamentos que tenho e que não consigo sequer transmitir a alguém. E tu consegues isso na perfeição.

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  5. Adorei este texto, Inês. Identifiquei-me tanto!
    Beijinhos grandes e muitas felicidades.

    https://bloomblogue.blogspot.pt

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  6. Concordo plenamente com o facto de sermos muito mais que rótulos, somos contrastes andantes e distinguimo-nos também por isso. Identifico-me muito com a grande maioria dos exemplos que deste! Muito bom texto Inês!

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  7. Que texto lindo, Inês! Acho que qualquer pessoa se consegue identificar com o que dizes. E é esta pluralidade que torna a vida tão bela :) Beijinhos*

    www.catmorais.com

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  8. Já quando escreveste da última vez sobre a pluralidade fiquei estupefacta a olhar para as tuas palavras e continuo a ficar. Realmente, tento lembrar as pessoas que não é assim tão anormal ter gosto distintos e variados. Infelizmente, é algo que está muito embrenhado nas cabeças de maioria dos humanos. Porém, é por textos como este e pessoas como tu que eu tenho a certeza que toda esta mentalidade vai mudar e será em breve.
    Que a tua voz se oiça mais alto e que as tuas palavras aqueçam mais corações.
    Beijo enorme, Inn. <3

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  9. Que texto lindo, Inês! Não podia concordar mais com o que escreveste! :)

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  10. É incrível a forma como agarras um tema e o tornas tão teu, Inês. A tua forma simples de escrever e partilhar opiniões de assuntos sobre os quais não pensamos muitas vezes, é cativante. Poder ler-te é um prazer de que não abdico :)

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  11. Um dos melhores textos que já li até hoje Inês, obrigada por isso.:)

    Another Lovely Blog!, http://letrad.blogspot.pt/

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  12. Também me identifico!
    Há vezes em que sou o arquétipo da compostura e delicadeza, noutras em que estou a entornar baldes inteiros de pipocas em salas de cinema porque tropecei num chão perfeitamente plano. Posso estar em casa a ouvir música clássica e, assim que saio para passear o cão, tenho indie rock a bombar na playlist do telemóvel. Por vezes tenho conversas absolutamente sem conteúdo com amigas minhas e, logo a seguir, estamos a discutir política externa e a participação de Portugal na NATO.
    Acho que é precisamente esta pluralidade que nos torna minimamente interessantes :)

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