quinta-feira, 4 de maio de 2017

ISTO É TÃO INÊS || A Impermanência

Estava a preparar uma outra publicação quando este tema surgiu na minha mente e desencadeou uma série de reflexões que achei demasiado extensas para incluir nos rascunhos que estava a escrever. A impermanência.

Pode parecer que não mas eu sofro muito com a impermanência. É algo que estou a aprender a superar e que eu acredito que o crescimento possa ajudar. Aliás, já fiz alguns progressos consideráveis. Já não me custa como custava, dantes. Mas continuo a sofrer com a impermanência.

É um conflito interno. Por um lado, racionalmente, eu compreendo; as coisas não duram para sempre. Tudo. As pessoas não duram para sempre, há relações que não duram para sempre, não ficamos nas mesmas etapas e fases para sempre, não ficamos nos mesmos lugares para sempre e nem as coisas duram para sempre. Tudo tem o seu tempo e propósito para durar e devemos desfrutar dessa presença enquanto permanecer do nosso lado e aceitar que as coisas mudam e que não continuamos a mesma coisa, com as mesmas pessoas, nos mesmos lugares e nas mesmas fases até ao fim. A mudança é natural.

Mas o meu lado emocional martiriza-se com esta realidade. Eu ganho apego e não me consigo conformar que as coisas não durem. Eu faço laço com as pessoas, animais, com as coisas, com as rotinas, com os lugares e cidades, com as etapas de vida em que me encontro. E ver-me obrigada a dizer adeus a algum destes laços fragiliza-me. Para mim, é muito difícil lidar com a morte. Porque é o adeus definitivo, porque é a certeza de que as pessoas não duram para sempre. Para mim, terminar uma fase da minha vida para saltar para outra completamente desconhecida é um sufoco porque é a noção de que eu nunca mais vou reviver determinados momentos e experiências. Saber que nunca mais vou regressar a um lugar que gostava dá-me uma profunda tristeza. E em viagens, regresso sempre com um vazio por achar que nunca mais na vida vou rever tal lugar.

É horrível. É uma saudade que não traz nada a não ser sofrimento. Nada do que eu referi cá em cima irá fazer-me avançar, sorrir ou concluir. Só me fará sofrer. E é por isso que luto tanto para compreender a impermanência, para a aceitar. A impermanência é uma naturalidade da vida que eu tenho de abraçar e vou melhorando, ano após ano. Fico muito orgulhosa de mim quando me vejo numa situação em que tenho, simplesmente, de desamarrar o laço e seguir em frente e observo que o fiz sem sofrimento desnecessário. Que, se tivesse acontecido a mesma coisa há uns anos, eu não teria tido esta reacção tão compreensiva. Há dias em que a emoção ainda ganha, e sofro. Mas, quase sempre, a minha consciência consegue lutar pelo seu lugar e faz-me compreender que não me posso martirizar desta forma.

Nada dura para sempre. Absolutamente nada. Não significa que não tenha sido maravilhoso, depois de se ir. Podemos e devemos sorrir por ter acontecido. Pelos nossos entes queridos ou animais terem feito parte da nossa vida até ao último segundo. Por aquele caderno maravilhoso, que agora acabou, ter guardado tantos pensamentos e reflexões nossas. Por aquela pessoa ter cuidado tão bem do nosso coração no tempo que tinha de cuidar. Por aquela rotina ter sido tão feliz, mesmo que já não exista. Por aquele livro ter sido tão maravilhoso, mesmo que tenha terminado e que a história não se prolongue mais. Por a Faculdade ter sido tão desafiante e divertida, mesmo que já não estejamos lá. Por aquela casa ter sido sempre a nossa casa, mesmo que já não seja. Por aquele lugar ter sido palco de tantas coisas maravilhosas, mesmo que talvez não regressemos nunca mais. Vão sempre existir na nossa vida por terem feito parte da nossa vida. Moldaram o nosso carácter. Construíram memórias que vocês vão partilhar durante anos a fio. Garantiram inúmeras aprendizagens que levam convosco para o desconhecido, que é a mudança. Vivem nos nossos corações e só quando visualizamos desta forma é que aceitamos que também outras coisas estão por vir e que não podemos ter medo de avançar e desbravar o desconhecido. Coisas que nos vão fazer sorrir, festejar, aprender, amar, deslumbrar, entreter e que, também elas, não vão durar para sempre, vão acabar, vão deixar saudades - que só vão incluir sofrimento se o permitirmos -.

E o que fazemos, sabendo que nada dura para sempre? Como abraçamos algo impermanente? Com os braços esticados e um sorriso no rosto. Vamos aproveitar, desfrutar e agradecer por algo que nem sequer dura para sempre ter decidido dividir um pouco da sua impermanência ao nosso lado. Pelo tempo que durar. E depois disso? Vamos desamarrar o laço e avançar. Sempre em frente, sem medo, rumo a novas impermanências. E vamos permitir que elas nos transformem.

5 comentários:

  1. Antes, e agora um bocadinho, a impermanência assustava-me tanto. Olhava para as pessoas, lugares e coisas à minha volta e pensava "quando é que vou deixar de as ter na minha vida?". Porém, comecei a reparar que isto me andava a consumir demais. Não estava a aproveitar os momentos com as pessoas, as cores dos lugares, nem a utilidade das coisas. Assim, parei de fazer essa pergunta e passei a questionar-me: "o que estou a fazer para aproveitar isto ao máximo? Quero e vou aproveitar". Isto só me traz coisas boas. Passei a aproveitar mais o momento e a aceitar melhor quando algo/alguém sai da minha vida. Afinal, deixaram uma marca, positiva ou negativa, e ajudaram-me a evoluir, a chegar onde estou hoje.
    Adoro as tuas reflexões e não me canso de as ler. Digo e repito as vezes que for preciso: ainda bem que estamos vivas em simultâno e posso acompanhar as tuas genialidades.

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  2. Como Inês ansiosa que também sou, a impermanência é algo que também me inquieta e me faz duvidar e questionar 'n' vezes antes de me envolver em algo novo. Mas, de facto, é uma realidade. No entanto, apesar da brevidade de tudo, de tudo mesmo, prefiro viver as coisas no seu todo e dar muito de mim em tudo aquilo em que me envolvo. Só assim sinto valeu a pena, mesmo que termine de forma abrupta e inesperada...
    É muito bom ler-te, Inês. Escreves sobre problemas e situações reais e através da tua escrita consigo conhecer um pouco de ti.

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  3. Compreendo tão bem. Sou relutante à mudança. Apesar de estar Constantemente a tentar desafiar-me morro de medo do desconhecido. :/

    TheNotSoGirlyGirl // Instagram // Facebook

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  4. Tenho pensado exactamente no mesmo ultimamente. Tenho a mesma dificuldade em dizer adeus. Em dizer que não. Mas a vida molda-nos e este teu texto fez-me sentir que partilhar é algo que conforta.

    Obrigado, Inês.

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  5. Inês, que texto tão bonito! Só tu para escreveres textos assim, que nos dizem tanto!
    Também sofro bastante com a impermanência. Tal como tu, já não sofro deste mal tanto como dantes, mas ainda assim sofro muito. É mesmo triste saber que nunca mais viveremos certas rotinas,certos momentos nem estaremos com certas pessoas. Nunca sofri, felizmente, pela morte de um familiar, e vai ser muito difícil para mim quando isso acontecer, porque a morte é algo tão definitivo... No meu estágio em Oncologia, afeiçoeei-me muito a uma doente que tive e, quando ela morreu, senti-me mesmo em baixo ( os enfermeiros não devem criar laços com os doentes, mas somos humanos, é inevitável).
    No entanto, tenho tentado ver as coisas dessa perspetiva: ficar feliz por as coisas terem acontecido, e abraçar a impermanência com um sorriso no rosto.
    Muito obrigada Inês pelas tuas palavras sábias :).
    Beijinhos,
    Cherry
    Blog: Life of Cherry

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