sábado, 20 de maio de 2017

FAMÍLIA || 7 Coisas que Aprendi com o Pai


Não há almoços grátis: este pensamento já mereceu o seu devido tempo de antena aqui pelo blogue, mas foi um dos seus maiores ensinamentos, que fez questão de, desde cedo, mo explicar. Há sempre pedidos em troca, e um almoço grátis nunca é apenas um gesto inocente ou caridoso. Os almoços grátis pressupõem parceria futura, convidam a aceitares assinar um contrato, são expectativas de um beijo ao final da noite ou de um favor em troca. Sejam eles mais inocentes ou mais decisivos, os almoços grátis, mais tarde ou mais cedo se cobram. E é por isso que a carteira deve estar na nossa mão no momento em que a conta desce.

A vida é um convite: a vida é uma sucessão de variados convites que vamos aceitando ou declinando. A vida convida-nos a aprender, a tomar decisões, a tomar partidos e a escolher rumos. A vida convida-nos a estudarmos o que quisermos e a trabalharmos no que quisermos. Convida-nos a namorar, a fazer asneiras, a experimentar coisas e a falar com pessoas, a abraçar projectos. Cada dia é feito de milhões de convites e o mais importante é sabermos quais aceitar e quais declinar. A vida não está feita para aceitarmos todos os convites que nos surgem (porque muitos são traiçoeiros e porque não fomos feitos para todas as intimações) mas também depressa nos ensina que, se não aceitarmos pelo menos um, estamos a perder milhões de oportunidades, sem o sabermos.

A tua palavra é de honra: desde muito pequena, o meu pai ensinou-me a honrar o que quer que dissesse. Se fazia promessas, tinha de as cumprir, custasse o que custasse - afinal de contas, eu tinha prometido. Se afirmasse alguma coisa, tinha de me responsabilizar pelo que tinha saído da minha boca. Se me comprometia em alguma ideia, tinha de valorizar esse compromisso. Quando cresci - e comecei a visualizar o mundo de uma forma menos inocente e infantil - perguntei-lhe como era possível esta honra toda da palavra se a maior parte das pessoas não cumpre os mesmos princípios. E a sua resposta, essa, eu nunca vou esquecer "porque honrares a tua palavra não é um compromisso aos outros mas sim contigo. É saberes que tudo o que dizes foi pensado vezes sem conta, antes de sair da tua boca. É saberes que terás sempre plena consciência da mensagem que estás a passar aos outros, do que estás a prometer a alguém, de que realmente sentes aquilo que dizes. Nunca deixes de reivindicar a honra da palavra mas não te preocupes com a falta dela nos outros. É problema deles e, mais cedo ou mais tarde, vai pesar-lhes nos ombros. Preocupa-te com a tua porque só quando honras o que dizes é que tens confiança no que pensas e sentes. A honra não é para mais ninguém senão para ti própria."

A gostar de ler: na minha família, é difícil eu admitir quem me incutiu o gosto de ler. Dou a medalha à mãe porque era ela que lia todas as noites para eu dormir, mas era o pai que eu admirava porque tinha sempre tempo para ler. Para todo o lado, ele tinha um livro consigo e os mais variados autores passaram-me pelos olhos. Foi ele que me fez apaixonar por Saramago, quando me ofereceu as Intermitências da Morte. Foi com ele que aprendi a deixar as minhas anotações no final do livro, a data de quando o li e o local. É com ele que mais falo de literatura e é ele que me espicaça para experimentar autores diferentes e mais audazes. Para ele, uma pessoa que não lê é uma pessoa vazia e já vi muitos amigos meus, nada amantes de livros, pegarem num depois de um conversa com ele. É a sua arte favorita e uma das minhas, também.

Viver sem medo de arriscar: o percurso do meu pai e a sua história de vida é absolutamente fascinante e aventureira. Foi um homem que não desistiu do seu sonho quando todas as cartas apontavam-lhe outro caminho. Decidiu viajar, experimentar, aventurar-se, arriscar e caminhar para onde ele sabia que tinha de ir, mesmo que não fosse o caminho perfeito. Não fez o percurso mais clássico da vida de um adolescente e jovem adulto e eu fico muito aliviada por isso, porque acumulou uma experiência e uma sabedoria sobre a vida, sobre as ideologias sociais e sobre as pessoas que me inspira. É com ele que tenho as maiores discussões (no bom sentido) sobre a nossa sociedade, sobre o mundo, sobre viagens e sobre crescer. E desde sempre que o vejo dar-me empurrões para onde o sabor do vento me puxa. Ele nunca me impingiu um futuro; ensinou-me a voar mas, mais importante que isso, ensinou-me a cair.

Argumentar: já referi que é com ele que tenho as maiores discussões. A mãe também entra, claro que sim. É à mesa que um de nós se lembra de levantar uma daquelas questões terríveis que faz com que cada um escolha as armas que considera certas para se defender. É ele que mais sabe desarmar-me nos meus argumentos e é assim que eu os fortaleço. É ele que me tira as certezas e põe-me no lugar. É ele que me abre os horizontes e ensina-me que há mais cores além do preto e branco. Desde miúda.

Vamos perdendo certezas com a idade: foi também ele que partilhou comigo esta lição. Quando somos mais novos temos certezas de tudo. Se estou a andar e as casas estão a aumentar, estou a avançar. Se elas estão a diminuir, estou a recuar. E pronto. Somos muito assim, radicais, definitivos. Não só em ideologias ou opiniões. Falo mesmo em atitudes face à nossa vida e às nossas decisões; "não posso errar no curso porque só pode ser isto que quero", "nunca mais vou lá", "nunca mais falo com x pessoa", "vou sempre apoiar esta minha decisão". E a verdade é que, à medida que envelhecemos vamos ganhando mais dúvidas e as certezas passam a incertezas. E as casas já não diminuem nem aumentam. Às vezes vamos parar a ruas novas.

Feliz aniversário, pai!

6 comentários:

  1. Feliz aniversário ao teu Papi! E parabéns também por ser um Homem com tanta sabedoria. Gosto muito destas tuas piblicações e como nos dás a conhecer as pessoas que fizeram de ti quem és.
    Estes ensinamentos são valiosos e admiro imenso que os deixes por escrito, não te esqueças de lhos dizer também. Já me tinha apercebido, mas cada vez fico mais espantada com o pai 5 estrelas que tens. Já percebi de onde vem a tua genuinidade e preserverança!
    Beijinhos para os dois 😙

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  2. Muitos parabéns ao teu pai!!
    Tens pessoas fantásticas ao teu lado, e para ser sincera, fico mesmo muito feliz que assim o seja, pois sem isso, não teria a oportunidade de me cruzar contigo, com os teus textos, com a pessoa harmoniosa e linda que és, Inês! Nós somos o reflexo das pessoas que nos educam, e por esta dedicação ao teu pai, vê-se mesmo muito bem que te desenvolveste da melhor maneira! Continua assim! ♥
    Beijinho,

    LYNE

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  3. A questão do almoço é tão verdade e poucas são as pessoas que compreendem isso! Também me ensinaram exactamente o mesmo e até agora, posso atestar a sua veracidade. A perda de certezas com a idade é algo que a minha mãe me diz desde criança. É assustador perceber que afinal ela tinha razão all along. Este tipo de ensinamentos muitas vezes são menosprezados por nós, filhos, mas o certo é que valem ouro.

    Parabéns ao teu pai :)

    Ricardo, The Ghostly Walker.

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  4. Sem dúvida que a questão dos almoços grátis é dos ensinamentos mais valiosos que o teu pai te poderia transmitir. Ao longo dos tempos, pude constatar exatamente o que referiste, salvo raras excepções.

    Parabéns ao teu pai!

    Sara
    http://keep-choosing-joy.blogspot.pt/

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  5. Wow. Não sei se conseguiria escrever tamanhas coisas sobre o meu pai. E não porque não seja um papel importante para mim, e sim porque talvez não tenha a consciência que essas lições vieram dele.

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