segunda-feira, 17 de abril de 2017

Desde que me conheço que sempre tive muita dificuldade em controlar as minhas emoções. Atribuo muito da culpa - sem remorsos - à ansiedade. É uma das características mais marcantes desta condição; não digo que seja impossível de a superar - aliás, é por isto mesmo que estou a escrever esta publicação. É possível, claro. Mas é muito difícil. Eu sempre vivi assim, especialmente em situações decisivas, de confronto, e não me refiro apenas a discussões. Isto sempre fez com que, por muito cabeça fria e solucionista que eu fosse, não conseguisse absorver no presente o momento que estava a viver. O que a outra pessoa me estava a dizer. Simplesmente entrava numa bolha e deixava-me levar pela bola de neve que aparecia à minha frente ou sucumbia à transparência do que sentia.

Desta vez quis fazer tudo diferente. Decidi, que para aquele confronto, eu precisava de viver o momento em pleno, sem me deixar paralisar pelo medo. Eu precisava de ouvir muito e dizer tudo o que tinha para dizer sem deixar que a minha cabeça viajasse para cenários hipotéticos. E foi o que fiz. 
Eu estava com medo. Muito medo. Das minhas emoções. De deixar que as minhas emoções falassem mais alto do que aquilo que queria transmitir e fazer. Eu não queria ir embora sem lembrar de nada, sem sentir que faltava algo por fazer, sentir ou dizer. Eu queria viver o momento com calma.

O engraçado é que, quando regressei a casa e dividi tudo o que tinha acontecido, começaram a cair muitas e muitas lágrimas. E a minha mãe sentou-se ao meu lado e disse "Não vais entregar-te à tristeza. Estiveste muito bem!" num tom carinhoso, não rancoroso. Mas, apesar de estar triste, eu estava muito orgulhosa de mim, como nunca antes tinha estado num momento de confrontação. Sim, eu chorei muito nesse momento, mas foi um choro controlado. Não foi de alguém que estava a sentir as emoções tomarem conta de si, não foram lágrimas desesperadas. Foram lágrimas de tristeza, que são válidas de sentir e demonstrar. Estas são naturais e não há que sentir vergonha. Foram lágrimas de conclusão, de saudade e de coração que, sim, está apertadinho mas não está frustrado. Eu vivi o momento em pleno. Eu disse tudo aquilo que sentia que precisava que a outra pessoa à minha frente ouvisse. Mas, acima de tudo, eu ouvi a outra pessoa. Eu percebi o seu desabafo. E eu tentei ajudar da melhor forma que podia porque tinha essa confiança e intimidade. Porque eu, melhor do que ninguém, naquele momento, podia dar a melhor opinião acerca dos seus sentimentos. Eu compreendi que o meu sofrimento era válido e grande mas que a sensação da outra pessoa era muito mais assustadora e que a estava a paralisar de viver. De ser feliz. E eu prefiro sofrer de viver do que sofrer por viver paralisada. Gosto tanto da pessoa que tinha à minha frente, seria impensável não dizer todas as mensagens que tentei que interiorizasse. Todas as lições e conselhos que eu precisava que metesse na cabeça. Podem não entrar, tudo bem. Pode não ter levado nada consigo. Pode não ter reflectido. Mas eu sei que levou. Eu sei que confia no que digo. Eu sei que acredita nas minhas avaliações e que o que eu disse era verdade. 

Eu fiquei muito orgulhosa de mim porque devolvi muito mais amor e apoio do que podia imaginar. E tudo porque quis ter um auto-controlo do meu corpo e do que estava a sentir. Não fui fria, nem calculista, nem fechei o meu coração, muito pelo contrário. Nada ficou por dizer. Mas a forma como disse tudo o que queria foi muito mais bonita e sincera. E isso permitiu-me ter abertura para aconselhar, ouvir e avaliar.

A forma como processamos as nossas tristezas (sejam elas quais forem porque todos nós temos tristezas) é um trabalho muito próprio e que ninguém pode julgar. Mas é muito importante que o façamos com paz. Com sensação de paz. Ninguém resolve tristezas com culpa ou a sensação de que ficou algo por dizer ou escutar. E eu estou em paz. Estou triste pelo presente mas feliz por tudo o que pude viver e expectante de todas as coisas boas ao virar da esquina, que me aguardam. Fui mais Inês do que nunca e, apesar de ter sido um pequeno momento da minha vida inteira, foi o momento em que eu mais senti orgulho na minha existência. Porque dei uma nova perspectiva de pensar a alguém, e a minha perspectiva é muito mais positiva, saudável e feliz. Foi a minha forma de retribuir tudo o que de bom esta pessoa fez por mim. Todas as coisas extraordinárias que fez por mim. Eu senti que, finalmente, devolvi à altura. E isso é um dos feitos mais extraordinários que eu senti que pude fazer. E escrevo-o de lágrimas nos olhos mas com um sorriso no rosto. Sou cada vez mais a Inês que quero vir a ser.

Acho que estou a crescer. É bom sentir isso.


Porque me marcaste mas, eu sei, também te marquei. Um abraço e um beijo do tamanho do mar, onde estás à deriva. Que sejam o teu farol.

6 comentários:

  1. Um abraço do tamanho do mundo e muito muito apertado, Inês! Como te disse há uns tempos, confia que há mesmo boas notícias ao virar da esquina, pode demorar e pode custar mas elas virão. Nunca deixes de ser assim, um beijinho enorme querida Inês!

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  2. Admiro muito a tua maturidade e a forma como pareces lidar com isto. Muita força, Inês!

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  3. Revejo-me muito nas tuas palavras, Inês. A ansiedade já faz parte da minha vida, há anos e nem sempre soube lidar com ela da melhor forma. Mas estou a aprender, aos poucos. A melhor forma de a superar é não nos tornarmos reféns dela. E esse é o grande desafio. É insistimos e desafiarmos os receios e agir, de alguma forma. Penso que foi o que fizeste e fico muito feliz por teres dado mais um passo no bom sentido. Muita força e um beijo enorme!

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  4. Tenho de admitir que, à medida que fui lendo este texto, o meu coração se foi apertando cada vez mais em simultâneo com um certo alívio. Ficou bem preocupado, o meu coração, porque percebeu que enfrentaste algo que te assustava e tiveste de dar um passo muito grande e importante no teu conforto interior e nas tuas relações exteriores. Ficou realmente aliviado, pois, percebeu que tu és mesmo Inês, és determinada e, quando te deixas vencer, rapidamente ergues de novo a cabeça. Ainda bem que conseguiste falar com o coração e o cérebro em sintonia, merecias essa paz nas palavras. Espero que, o que quer que tenha acontecido, daqui para a frente, a vida te sorria muito e te lembres deste momento como o avançar das páginas da tua história. És uma miúda incrível. Força Inn! <3

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  5. Inês, o que quer que tenha acontecido, uma coisa é certa: foste a melhor Inês que podias ter sido. É crescer, e é ter coração e cabeça. Esse controlo está aí, juntamente com a bondade e a compreensão. Que a tristeza passe rápido e deixe apenas a certeza de que melhores dias virão * um beijo!

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  6. A ansiedade é lixada, tenho de lidar com ela à muitos, muitos anos. Percebo perfeitamente o valor destas pequenas grandes conquistas. O que para muitos é natural para outros tem uma dimensão inexplicável e as vezes as pessoas não conseguem perceber o porque de sermos assim.
    A minha ansiedade manifesta-se em algo completamente diferente mas sinto cá dentro exactamente o mesmo.
    Que continues a superar-te, a sair da tua zona de conforto e a seres cada vez mais Inês. Beijinho!

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