sábado, 22 de abril de 2017

DAILY || Há sempre boas notícias ao virar da esquina


Eu admito: quando acordei, só desejava que aquele dia fosse cancelado. Nem precisava de abrir a agenda para saber de cor todas as tarefas e trabalhos que tinha reservados para o dia, embora não estivesse programado nada de entusiasmante. Nesse campo, a folha estaria em branco e isso estava a desmotivar-me.

Tratei de todos os meus assuntos, cruzei todas as minhas tarefas e recebi o João em minha casa. Pior do que estares triste é veres uma criança ficar triste por te ver triste. E na sua doçura infantil, deu-me um abracinho e disse-me "Podemos ir passear à rua?". Não tinha vontade nenhuma de sair de casa, mas vi que ele estava com esperanças de que dissesse que sim e decidi fazer-lhe a vontade. Lá fomos os dois no carro a ouvir o último lançamento dos Coldplay e procurar um sítio giro para lanchar.

Um gelado para ti, um bagel de queijo creme para mim e um sumo de manga e laranja para os dois. De repente, o dia já não parecia tão escuro. Ele sempre a falar e a contar histórias. Não há nada melhor para curar dias tristes porque são sempre narrativas simples e que só exigem um pouco de atenção e imaginação suficientes para acompanharmos todos os raciocínios. Começámos a dar um passeio despreocupado pelas ruas - sempre a tagarelar - e demos com uma loja pequenina mas cheia de artigos em segunda mão, que decidimos espreitar.

Era como um pequeno sotão cheio de tesouros que, para alguém, não valiam nada e, para outros, podiam valer tudo; roupa, cerâmica, livros, acessórios, filmes e até jogos. Cada um foi para o seu canto para espreitar tudo e foi então que vi o meu filme preferido de comédia na prateleira. O DVD que andava há tanto tempo há procura e que não encontrava em lado nenhum estava ali, solitário, a um euro. Os meus olhos brilharam de felicidade. O filme não é nada de especial ou de extraordinário, a comédia é non-sense barata mas sempre fez recordar a primeira vez que o vi, em Aveiro, com a minha mãe e a minha madrinha, na sala. Perdidas de riso, esse filme ganhou o meu coração. Quando íamos alugar filmes, às sextas-feiras, eu e a minha mãe escolhíamos sempre algumas novidades mas não resistíamos e tínhamos sempre de levar este filme de comédia, só para sermos felizes garantidamente. Parecia que aquele DVD estava ali só mesmo para me fazer sorrir. O João apareceu aos pulos porque tinha encontrado um jogo que andava há imenso tempo a namorar. Decidimos levar os nossos tesouros para casa.

Experimentámos o jogo durante horas e terminámos o dia a ver o filme. Eu a rir das piadas que já conhecia de cor e salteado, ele a rir delas pela primeira vez e a torná-las suas. Foi só um simples filme abandonado mas que me fez rir e sorrir. Que fez um dia, que afinal valeu a pena, terminar de uma forma tão deliciosa e nostálgica. Afinal, o dia não devia ser cancelado e o que antes era uma folha de programas em branco, convertera-se num lanche com a melhor companhia do mundo e num final de tarde a ver um filme que adoro.

E é isto que quero dizer quando acredito que há sempre boas notícias ao virar da esquina. Descobrirmos que o nosso dia pode terminar de uma forma trezentas vezes melhor do que pensávamos é, também, uma boa notícia. Dos miminhos mais pequenos e gentis às novidades e surpresas mais maravilhosas, há sempre algo de bom reservado para nós nos momentos mais inesperados. Só temos de ter a coragem de caminharmos em direcção às boas notícias e o empenho certo para virar as esquinas. Eu não teria um final de tarde tão feliz se não tivesse alinhado num lanche fora de casa. Eu não receberia notícias profissionais tão boas se não trabalhasse por elas. Eu acredito que há boas notícias ao virar da esquina porque eu caminho nessa direcção para as receber. Mesmo quando acordo com as palpebras pesadas, o coração apertado e com vontade de passar um dia à frente.

Obrigada a quem se desfez daquele DVD, pensando que não valia nada (ou um euro). Fez-me sorrir, fez-me rir, fez-me sentir Inês. E, para mim, isso é precioso.

5 comentários:

  1. Eu também acredito (e bastante!) que as coisas boas acontecem quando menos estamos à espera, mas claro, como tu dizes - e bem!! - temos de caminhar em direcção delas :)

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  2. Em todos os dias maus, nunca atiro a toalha para o chão, na esperança que algo bom aconteça. E a ti aconteceu, e ainda bem Inês!
    Que esta fase passe rápido e que chegue uma fase de uma Inês mais feliz e alegre porque tu mereces! :)

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  3. É tão bom quando estas coisas acontecem... Tanto as más que nos inspiram a lutar, quanto as boas que são a recompensa pela batalha! E quando são os detalhes mais simples, parece que a matiz da vida fica ainda mais brilhante, mais colorida!
    Fico tão feliz por saber que, no final das contas, ficou tudo bem! Podes ainda não estar a cem porcento, mas sendo tu a guerreira que és, hás de encontrar todas as respostas que procuras!
    Continua fantástica, Inês!
    Beijinhos!

    LYNE

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  4. Sabes, ultimamente tenho pensado muito no quanto um dia pode se transformar. Tu transcreveste para este texto maravilhoso e simples a beleza de tudo isso.

    Um beijinho.

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  5. És tão Inês!
    Tento diariamente ter metsde da tua força, amabilidade e preserverança. Admiro-te tanto. E fico mesmo contente por saber que, apesar das coisas más, há sempre um sorriso em ti, há sempre um bloco de amor pronto a ser disparado, há sempre palavras aleatórias preparadas para formar um texto imbatível.
    És muito especial Inn, certamente o Joãzito sabe isso e aproveita-o para te deixar feliz de uma forma inocente e jovem.
    Temos muita sorte de ter estas pessoas à nossa volta ❤ tenho muita sorte de te poder ler!

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