sábado, 5 de novembro de 2016

FILMES || Race - 10 Segundos de Liberdade


Tenho muita pena que a maior parte da minha geração desconheça quem é Jesse Owens. É como se, daqui a 40 anos, ninguém imaginasse sequer quem é Usain Bolt. Quase impensável, certo? 
Quando era pequena, o meu pai falou-me de Owens mas eu só vim mesmo a interessar-me por ele quando li A Rapariga Que Roubava Livros, no começo da minha adolescência. Quem leu o livro recorda-se, com algum esforço, que Rudy (um dos personagens mais importantes do livro) era um miúdo alemão que idolatrava Owens e que chegou até a pintar a cara com carvão para assemelhar-se ao tom de pele do seu ídolo, enquanto corria. Podem imaginar a controvérsia e os problemas que isso acarretou a Rudy, mas desenvolver esses detalhes seria estar a falar de um tema que nada tem a ver com a publicação de hoje. Serviu apenas para concluir que eu já conhecia o nome e quem era e, depois de ler o livro, pesquisei sobre ele e fiquei fascinada com o seu feito enquanto atleta e homem na História.

Race conta a história deste jovem americano, negro, com uma grande aptidão física para o atletismo. Eu adoro ler e ver histórias de superação e de alcance de metas e este é um filme que vai de encontro a esses assuntos; a forma como um jovem sem grandes posses, com uma filha e planos de casamento entra numa universidade e lida com a rejeição social, com a necessidade de arranjar um trabalho e ainda com as expectativas de um treinador que aposta em Jesse para chegar aos Jogos Olímpicos de Berlim, numa época de forte ascensão nazi. Do caraças, certo?

O foco do filme não é apenas dirigido à superação de obstáculos e à conquista de vitórias de Owens mas também aborda bastante todos os preparativos e confrontos políticos e sociais dos Jogos Olímpicos de 1936. Há que fazer um enquadramento na História e lembrar que os JO, naquele tempo, tinham um impacto muito mais gigantesco do que agora (surpreendentemente); afinal de contas, hoje, temos dezenas de campeonatos internacionais, europeus, mundiais. Naquele tempo, o grande campeonato mundial eram os JO e onde as maiores mensagens sociais e desportivas se difundiam. Mas dado o contexto histórico da época, é fácil de imaginar todos os conflitos políticos que se intrometeram no meio de um evento desportivo. Já pararam para pensar que pessoas de cor e judeus participaram num evento que decorreu em pleno núcleo nazi? Como foi possível? E que responsabilidades acresceram a todos os atletas, dessas condições, que aceitaram participar num evento organizado por uma elite que os desprezava a todo o custo? 

Apesar de todos os paradoxos que expus aqui nesta publicação e de todo o peso histórico que esta figura do desporto acarreta, o filme atende a todas as questões e é maravilhosamente leve. É perfeitamente agradável de assistir e acho que é essa leveza e simplicidade na abordagem dos assuntos que o torna mais apetecível de ser visto pelo público sem, porém, florearem a realidade; as temáticas do racismo, xenofobia, corrupção e intolerância estão todas aqui presentes e nenhum dos personagens, incluindo o principal, é apresentado como sendo perfeito. Mas também é abordado o espírito de equipa, o fair-play, a igualdade, a superação de desafios, o trabalho árduo para atingirmos a vitória e a luta pelos nossos princípios e valores. E conseguimos ver momentos muito bonitos e verídicos que nos fazem ter esperança na Humanidade, quando tudo à volta é escuro e sombrio. Eu sempre disse e sempre o direi: é nos tempos mais negros da História que os verdadeiros heróis se revelam, por vezes, em simples actos de bondade e respeito. E Race revela tudo isso.

Não é só um filme sobre um atleta que devia ser inesquecível. Mas, inevitavelmente, depois de assistirmos, todos temos vontade de pintar a nossa cara com carvão antes de correr, qual Rudy. Só tenho pena que tenha sido tão desprezado nos cinemas. Que ironia.

4 comentários:

  1. não conhecia o filme, mas pareceu-me muito a minha cara :)

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  2. Está na minha lista de "Tenho mesmo que ver" e as tuas palavras só me deram mais curiosidade!

    Um beijinho,

    http://obiquinidourado.blogspot.pt/

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  3. Vi o trailer no cinema e fiquei super curiosa. Também já conhecia a história deste atletas porque acho ele correu com uns ténis que foram feitos por alguém do partido nazi. São coisas da história que temos de relembar para nao cometermos os mesmos esrros no futuro
    Por onde anda a Sofia?

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  4. Seu história é maravilhosa e muito inspiradora. Quando leio que um filme será baseado em fatos reais, automaticamente chama a minha atenção, adoro ver como os adaptam para a tela grande. Particularmente Raça , adorei este filme. A história é impactante, sempre falei que a realidade supera a ficção.

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