quinta-feira, 4 de agosto de 2016

DESPORTO || Aikido


Estava nas portas de entrada para a adolescência quando comecei o mundo do Taekwondo. Inevitavelmente, sempre achei que a minha escolha por esta arte marcial em detrimento do Aikido tinha sido sempre um pouco agridoce para o meu pai - mestre e professor de Aikido -. A verdade é que o Aikido (arte marcial japonesa) foi a minha primeira arte marcial mas - e como o meu pai sempre afirma, com razão - raramente é uma arte iniciada desde pequenos; Não há pontapés com floreados, não há murros com trezentos movimentos de braços antes, não há pulinhos, não há competição nem há cintos coloridos. Quer queiramos ou não, isto é o principal atractivo dos miúdos, razão pela qual 90% dos alunos do meu pai são dos 18 anos para cima.

Mesmo tendo escolhido uma outra arte marcial para praticar, há uns tempos reconheci o quanto fui aprendendo, ao longo dos tempos, com o Aikido, através do meu pai - muito mais até do que todos os meus anos de Taekwondo -. Quando era novinha ia às aulas dos adultos - ainda o meu pai era o aprendiz, o aluno - e eu fazia os treinos com os mestres (eles adoram treinar as técnicas com crianças porque são genuínas na reacção e no contra-ataque) e ainda hoje sei fazer movimentos e técnicas que aprendi aos 5 anos e que valem muito mais do que um pontapé arqueado. Eu consigo libertar-me de qualquer pessoa que me agarre pelos pulsos, seja uma criança ou um homem corpulento de 100 quilos a agarrar com força os meus pulsos de formiga. Não só me liberto como ainda lhe chego ao pescoço e o imobilizo. E descobri que fazia esta técnica com elevada naturalidade e eficácia numa coisa tão simples: tentaram agarrar-me para fazer cócegas e eu libertei-me todas as vezes. Genial, tendo em conta que nunca mais fiz nada de Aikido há 10 anos. Pensava eu.

A verdade é que quando toda a gente aborda o meu pai sobre as técnicas de Aikido, o fascínio é tremendo. Porque não há pontapés esvoaçantes, mas há imobilização do adversário com mestria; Porque não se fazem murros ou defesas arqueadas mas ensinam-te a libertares-te de alguém que te agarra o pescoço; Porque não tem competição mas não vale de nada sabermos dar pontapés se não aprendemos que zonas corporais são mais eficazes para o nosso ataque (para quê dar um murro no braço ou no abdómen quando temos os olhos e os ouvidos que desequilibram muito mais?). E depois de quatro ou cinco se lançarem contra o meu pai e de caírem todos redondos no chão sem o despentearem, correm logo para a recepção para fazer as suas aulas. Mas Aikido é, e sempre foi, muito mais do que uma arte de ataque e defesa. É uma filosofia.

Os alunos têm de entrar sempre antes do mestre e limpar o tapete. Varrem, arrumam o fato, aquecem, perfilam-se de acordo com cada graduação e aguardam que o mestre entre para começarem a meditação. Há sempre meditação antes do início do treino. No final do treino, voltam a limpar todo o tapete e desta vez com esfregão incluído. Aikido não ensina só a desviarem uma faca que está direccionada à vossa cara. Aliás, não vos ensina a entrar em cenas de pancadaria; todos os mestres de Aikido dirão que "Se estás a ver confusão, pancadaria ou tiroteio perto de ti, corres para o lado contrário porque a pistola tem sempre razão". Aikido ensina-nos a estar à mesa; a ter postura; como nos comportarmos com os mais velhos e mais graduados; a ter tolerância e a aguentar o cansaço, mesmo quando quer tomar conta de nós; a sermos mais do que revelamos num primeiro soslaio; e a saber responder na exacta medida do nosso atacante, sem nunca querermos ser mais fortes que eles mas sim usar a força deles e as limitações corporais contra eles. E eu acho que isto é uma verdadeira arte.

Não me arrependo dos pontapés e combates de Taekwondo. Estava na idade certa para os fazer, sei bem. E também sei que, apesar de nunca mais ter ido a treinos, nem limpado tapetes, nem meditado, nem estudado para exames para os graus de Dan, eu aprendi muito Aikido. A começar pela forma como estou em sociedade e com o que digo à mesa e a acabar soltando-me 10 vezes do meu namorado, a tentar prender-me para me fazer cócegas - para sua grande frustração e para minha diversão.

2 comentários:

  1. não conhecia esta técnica! fiquei muito curiosa! :)

    ResponderEliminar
  2. No ano passado, antes de entrar na Patinagem, a minha ideia era praticar uma arte marcial pela questão que referiste: por serem mais do que «luta», por terem filosofia e por nos ensinarem mais sobre nós mesmos.
    Falava com um dos meus maiores amigos e ele disse-me, passados 4 anos de amizade forte e muitas conversas mesmo, que praticava artes marciais. Como é óbvio, fiquei chocada por não saber isso sobre ele, porém, rapidamente identifiquei muitos traços da calma, postura, bondade, que estas artes ensinam, na sua personalidade. É algo que me atrai bastante, tenho muita curiosidade em experimentar. Tem apenas sido complicado levar a minha mãe a crer que é algo que me fará bem! Um dia quem sabe, pois fiquei extremamente curiosa com o Aikido.

    ResponderEliminar

Quaisquer comentários que visem a ofender e/ou afectar a minha integridade, dos meus leitores, comentadores, bloggers ou entidades que refiro nas minhas publicações não serão aceites.

Quaisquer questões colocadas serão respondidas na própria caixa de comentários!

Muito obrigada por estares aqui :)