sexta-feira, 18 de março de 2016

FILMES || Spotlight


Este filme tinha tudo para correr mal. Tudo para se tornar num escândalo político e religioso, no qual todas as atenções se iam desviar dos dois focos centrais desta produção: o tema sério - muito sério - sobre abusos sexuais em crianças por parte de padres e outros membros religiosos e a integridade jornalística que, a cada geração que passa, vai-se perdendo.
Tinha tudo para correr mal, mas quando a produção é bem feita, quando o foco está nos detalhes certos, no tempo certo de as referir e mostrar, grandes filmes com poderosas mensagens conseguem ser feitos com a mínima polémica possível - que ainda assim existiu e existirá sempre quando os assuntos são tão delicados como este -.

O filme é tão profissional como a equipa de jornalistas retratada que faz a investigação dos casos de abuso sexual em Boston por parte de padres. Não há entradas suaves, não há eufemismos, não há falinhas mansas neste filme; A realidade é retratada, pura e crua, mas o que nos choca, o que nos provoca a raiva, o desconforto e o desequilíbrio que os próprios jornalistas sentiram não é só os relatos comoventes e desconcertantes nem não são as imagens chocantes (que não existem e eu acho que este golpe foi de génio e de extrema elegância). É a proximidade com que o filme nos faz sentir com os casos. Podia acontecer a qualquer um de nós. Como em tudo na vida e como em qualquer ambiente, é certo. Não acontece só com padres, basta olharmos em redor no nosso mundo e qualquer lugar é, infelizmente, uma oportunidade. Mas, e apesar de já sabermos que é como tudo na vida, esquecemo-nos. Não ligamos. Não nos interessa porque não é connosco, porque não aconteceu. E nem imaginamos a proximidade com que poderá ter acontecido, ou o quão perto pudéssemos estar disso. Spotlight deixa-nos desconcertados porque é real. Porque a história não é só verídica como é palpável. Porque nos deixa incrédulos e chocados como é possível contornar-se assuntos tão sérios e delicados com meros acordos e cartas jogadas debaixo da mesa. Se fosse connosco? Com os nossos? Com os que convivem connosco? 

Faz falta jornalismo assim. Íntegro. Que fazem jornalismo por competência, por vocação e não por interesses e acordos financeiros. Que não se manipula nem se deixa levar pelas intrigas e pelo escândalo gratuito. E eu, que nem sou nada fã da Academia e que assisto às cerimónias por desporto e humor, fiquei agradavelmente surpreendida e orgulhosa pelo galardão merecido. O tema é pertinente. Vamos abrir os olhos. Vamos apertar nos sítios onde dói. E vamos apostar em mais jornalismo sério.

Poster

4 comentários:

  1. É um filme que quero muito ver. Obrigado pelo feedback =)

    ResponderEliminar
  2. Será que é estas férias que vejo este filme?! Espero bem que sim!

    ResponderEliminar
  3. Já vi o filme e fiquei com uma dor dentro de mim depois de ter acabado. É brutal a forma como nos faz pensar e nos faz ficar presos. Adorei o filme precisamente pelo que disseste; pela forma como retrata o que é real e que é, muitas vezes, esquecido. Porque só acontece aos outros. Mas não. E tens razão; deveria existir mais jornalismo assim, este é o verdadeiro caminho.

    ResponderEliminar

Quaisquer comentários que visem a ofender e/ou afectar a minha integridade, dos meus leitores, comentadores, bloggers ou entidades que refiro nas minhas publicações não serão aceites.

Quaisquer questões colocadas serão respondidas na própria caixa de comentários!

Muito obrigada por estares aqui :)