segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

PASSAPORTE || Ali

Fotografia da minha autoria, por favor, não a utilizar sem autorização prévia
Uma das coisas que mais me fascina quando viajo (entre outras milhentas que também mereciam destaque numa outra publicação) é o facto de eu sentir a cidade de uma forma completamente diferente de todas as pessoas que me rodeiam no planeta. A forma como eu vou ver os destinos que visito, por muito próxima que seja de uma outra qualquer pessoa, nunca será a mesma.
Eu gosto de percorrer ruas que, para mim, são um completo desconhecido e descoberta na certeza porém de que, para muitas outras, são as ruas mais familiares das suas vidas. São as ruas das suas casas, são as ruas que circulam todos os dias para o trabalho. São as ruas que não dão a mínima importância porque não têm nada de especial, mas para os de fora têm sempre. 
Eu atravesso uma avenida aleatória sem ter nela grandes manifestações mas, para outro alguém, foi a avenida do seu primeiro emprego. Eu sento-me perto de uma porta apenas para observar tudo à minha volta com mais tranquilidade mas, para um conhecido que eu desconheço, essa porta é o seu lar de sempre. Onde estão as pessoas que ele mais ama no mundo inteiro.
Eu passo por pontes perguntando-me quantos pedidos de casamento já deve ter feito parte. Por jardins bonitos onde alguém pode ter recebido uma notícia tão triste. Enquanto eu preciso de um mapa para saber qual o próximo caminho a seguir, outro alguém faz todo esse percurso de olhos fechados e com onze alternativas diferentes. Eu tomo um chocolate quente ou uma massa divinal achando que é o melhor do local, altamente recomendado, mas talvez um punhado de pessoas conseguisse levar-me a quinze sítios bem melhores e que quase ninguém sabe. Os segredos da cidade e os sussurros da cidade. Pensar que posso ter cruzado um café sem lhe dar importância mas que, para um casal, foi o local mais especial do mundo: onde foi dito o primeiro amo-te.
Espreitar para uma montra sem grandes pretensões e onde, lá dentro, se encontra alguém cujo aquele local é a sua realização de um sonho. Passar por bares que são o ponto especial dos amigos depois da faculdade ou de um dia de trabalho. Saber que, num sítio onde eu exploro com descontracção, curiosidade e descoberta, muitos outros olhos vêem o mesmo local como rotina, com a cidade na palma da mão e a familiaridade com que se abraça uma mãe ou se mata saudades de um prato da avó.
Exploramos cidades, destinos, locais, mas nunca é só isso. Não pagamos só o preço de um avião, comboio, de um quarto de hotel, de taxas, de restaurantes. Pagamos o preço de memórias. De ruas que já viram momentos extraordinariamente encantadores e absurdamente tristes. De pontes que já viram mais do que nós quando olhamos o seu horizonte. De cafés e restaurantes com momentos guardados mais deliciosos que os pratos que promete no menu. Saboreamos a rotina, o quotidiano, a familiaridade do dia-a-dia de milhares de pessoas sem nos darmos conta. E é isso que nos faz mudar quando voltamos de viagens. A sensação de sabermos que descobrimos muito da cidade, mas desconhecemos ainda mais. E que, de certa forma, e quase involuntariamente contribuímos também para enriquecer a cidade com as nossas próprias vivências, cada vez que pisamos nela. Por mais que a visita seja curta. Sem que deixe de ser muito incrível que também outros tantos milhares de pessoas (inclusive vocês) possam ter passado pelos lugares onde coisas importantes e maravilhosas aconteceram na minha vida sem sequer o suspeitarem.

7 comentários:

  1. E que bem que se está AQUI a ler este texto. I-N-C-R-Í-V-E-L.

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  2. Muitas palmas Inês! Os teus textos da etiqueta "passaporte" são completamente os meus preferidos!

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  3. «Exploramos cidades, destinos, locais, mas nunca é só isso.» - Sem dúvida.
    Gostei tanto do texto, muito bom! Que bela maneira de escrever, parabéns. ^-^
    https://www.youtube.com/watch?v=GPu-o0S0YZI , deixo aqui o link do meu último vídeo, gostava de saber a tua opinião, se puderes passa por lá. Beijinho.

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  4. Sem dúvida alguma um dos melhores textos que já te li. Lindo, lindo, lindo. Não só sinto o teu amor pelas viagens que fazes e já fizeste como sinto agora, mais do que nunca, o poder que é viajar. Obrigada por este texto, Inês! Estava mesmo a precisar.

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  5. identifico-me tanto contigo no que é relativo a viajar :)

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  6. meu deus Inês, gostei tanto! escreves tudo de uma maneira tão pura que é dificil não ficar encantada!

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