quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

FACULDADE || 1º semestre de Ciências da Nutrição (ano 4)


Todos os semestres acabo por escrever este tipo de publicações e se umas vezes achei que, à primeira vista, é uma publicação desinteressante para a maior parte dos meus leitores, por outro lado penso que nunca sei quem estará do outro lado a ler e que ambições académicas terá. E o quão próximas das minhas poderão ser. Se há coisa que aprendi ao longo desta Licenciatura é que a lista de unidades curriculares é 10% da informação do que realmente se vai passar. Que os testemunhos são cada vez mais urgentes para termos a verdadeira noção do panorama geral de um curso. E, quem sabe um dia, alguém vai perguntar como será a minha licenciatura. E tudo ficará aqui registado. E até eu irei gostar de ler todos estes relatos tão frescos no futuro.

Este ano tinha tudo para ser um ano tranquilo. As cadeiras suscitavam-me curiosidade e não medo, a experiência em relação à rotina de faculdade era cada vez mais e o coração apaziguado de não ter nada para trás era gigante. Mas há dois factores que me impediram imenso de encarar este ano com muita tranquilidade: estágio e projecto II.

Nutrição na Infância e Adolescência, Nutrição Geriátrica, Nutrição Molecular, Projecto II, Epidemiologia e Dietoterapia III foram as cadeiras do meu semestre, cadeiras cada vez mais objectivas e mais exclusivas ao curso que pratico. Nutrição na Infância e Adolescência faz jus ao nome da cadeira. O universo dos barriguitas, crianças e adolescentes entra em acção e tudo é esmiuçado, desde a gravidez à alimentação dos bebés etapa a etapa, à introdução de alimentos, alergias, gestão de ementas de cantinas de escola, aprendizagem sobre o comportamento psicológico dos adolescentes que se reflecte em comportamentos à mesa, distúrbios alimentares, gestão de ementas e recomendações em creches, directivas da OMS e do Plano Nacional de Saúde... Nada escapa. Foi a cadeira da Licenciatura onde estive mais confiante e preparada e isso reflectiu-se na nota. Sem dúvida de que, se clínica fosse a minha ambição, pediatria era o caminho. 

Nutrição Geriátrica aborda o perfeito oposto. Uma cadeira exclusiva ao envelhecimento e à 3ª idade, as necessidades que podem aumentar, as carências, as falhas típicas do envelhecimento e onde podemos intervir, os vários tipos de envelhecimento... Achei a cadeira verdadeiramente pertinente e quero deixar um enorme espaço de antena à professora que o abordou. A minha professora favorita de toda a Licenciatura, aquela com quem gostava de, um dia "lá fora" travar ainda mais conhecimento. Era uma mulher extraordinária, muito descontraída, tratando-nos como colegas e não como inferiores, incentivava ao máximo a participação dos alunos e a abordagem da matéria envolveu sempre imensos casos práticos que aconteceram com ela e exemplos do que queria explicar com as suas vivências. Nada ela leccionado sem uma história prática e isso, no meu curso, é um bónus fabuloso. Foram muitas as vezes em que li determinadas matérias e perguntei-me sobre o contexto prático das mesmas. Ter uma professora que pensou nisso ao pormenor foi fenomenal. Além de que era de uma simpatia e doçura extrema. Sinto-me grata por esta Licenciatura só pelo facto de a ter conhecido. Inspiração.

Nutrição Molecular, para mim, foi uma cadeira de Genética II mas mais direccionada para a Nutrição. Eu adoro Genética mas para muitos foi um drama. Eu adorei. A abordagem da nutrição no sentido personalizado e individualizado. Há países e regiões que têm comportamentos e tendências na nutrição mais marcantes que outros. Alergias mais típicas num hemisfério que outro. Intolerâncias mais frequentes no sul da Europa do que no Norte. Então... Porque temos directrizes iguais para todos? Faz sentido? Faz sentido termos guidelines para todos os indivíduos quando nenhum deles é igual? E se fosse possível personalizar a alimentação com base na linguagem genética de uma pessoa? E se fosse possível criar guidelines ou alimentos fortificados ou alterados para determinadas regiões do planeta que dele precisam? Esta cadeira é o futuro e adorei estudar o primeiro capítulo.

Projecto II foi aquilo que mais tempo exigiu de mim e dou graças a Deus não ter tido frequências em Novembro porque galopei no trabalho. Sobre esta não adianto mais, um dia destes apresento uma publicação mais aprofundada.

Epidemiologia e Dietoterapia III foram as minhas cadeiras de combate. As duas enganaram-me redondamente. A primeira encarou-me com uma violenta agressividade. Eu confesso: não acompanhava a matéria. A professora expunha exercícios no quadro, casos práticos e cada tiro, cada melro. Eu simplesmente não chegava lá. Epidemiologia aborda todo o processo para fazermos um estudo. Estão a ver aquela notícia sobre as carnes processadas? As conclusões da mesma exigem estudos. E é isso que a cadeira ensina. Como os fazer. Que tipo de estudos existem. Quais podem ser validados. Como se passa de uma hipótese a uma afirmação. E todos os dados estatísticos e matemáticos que envolve. E por me ter assustado tanto com a minha incompetência e julgando o pior, eu não desliguei nem por um segundo desta cadeira. Estudei sempre que podia, tirei o máximo de apontamentos que podia, tirei dúvidas, fiz perguntas pertinentes, perguntas estúpidas, não fechei os olhos. Passei de ter a professora colada a mim porque sabia que tinha dificuldades e queria insistir para que eu as ultrapassa-se para ser eu colada a ela a questionar tudo o que podia e a dizer, com honestidade "Professora, eu não percebo, pode explicar-me de novo?" E quando cheguei à prova geral, ansiosa e pouco confiante, deparei-me com uma avaliação que estava ao meu alcance. Eu sabia as respostas, eu percebia, eu compreendia. Por ter tanto medo dela, estudei-a como mais ninguém poderia estudar e tive uma nota genial. Que me tirou sorrisos gigantes e eu sei... Eu sei que a professora deve ter confirmado o meu nome 15 vezes porque não acredita ainda hoje que possa ter tirado tal nota. O esforço compensa. A persistência compensa. E eu não aceito ser incompetente nem "não saber". Não baixo os braços.
Dietoterapia III foi precisamente o contrário. Fiz as outras duas com alguma tranquilidade e, no meio de todos os afazeres da Faculdade, esta foi ficando calmamente adormecida, involuntariamente. Até que chegou a altura das provas e percebi o quão divergente era de todas as outras cadeiras que fiz. O ambiente agora era hospitalar e tinha de dominar o mercado da nutrição parentérica e entérica (a alimentação que muitos doentes fazem quando não conseguem comer da forma normal) e ainda saber fazer os cálculos, saber em que doenças podia fazer um tipo de nutrição e em que doenças ou operações não podia, o que resulta numa bíblia de doenças e nomenclaturas médicas que me deixaram em pânico. Apanhei um enorme susto e um balde de água fria no primeiro impacto, mas não baixei os braços, por muitas lágrimas que me tenha tirado de desilusão. É o preço a pagar quando estudamos uma matéria para a qual não nos identificamos. Mas já está feita, é o que importa.

No meio de tudo isto, o que tirou a harmonia principal deste semestre foram os estágios. Tínhamos duas opções: ou esperávamos por notícias de estágio em Janeiro realizadas pela Universidade, sem grandes avanços de notícias até lá ou arranjávamos o nosso próprio estágio até Dezembro. Para mim, foi uma pilha de nervos e quando achava que já não ia ter resposta, no limite da data, recebi uma chamada que me deixou de lágrimas nos olhos de felicidade e pulos no meio da Universidade. Mas foi um ano com uma enorme intensidade de dramas desnecessários na minha turma, especialmente no início do semestre. Tudo era uma entrave, tudo era um obstáculo, tudo era um terramoto, uma avalanche, um tsunami e eu tentei ignorar toda a dramalhada à volta e concentrar-me em ter calma e não me deixar levar. Sem dúvida que foi um semestre intenso que não vou esquecer. Ainda não tenho distância suficiente para sentir saudades e comover-me das rotinas mas as lágrimas já caíram com a certeza de que não vou ver tantas pessoas com tanta frequência ou visitar espaços que visitava todos os dias. Novos desafios aguardam-me e eu encaro-os com coragem.

E assim termino esta rubrica do separador da Faculdade. Espero que um dia venha a ser útil a alguém.

8 comentários:

  1. ainda bem que fazes estas coisas, andei à procura em agosto/setembro por causa do meu curso e não encontrei nada! tenho que ver se faço isso para futuros caloiros :)
    r: pois se calhar é do grupo grande, mas nos meus anos fui a uma hamburgaria com um grupo grande e não tive problemas nenhuns! mas são experiências diferentes!

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  2. Gosto muito de ler este tipo de post, até porque estou no 12º ano e a escolha do curso e universidade aproxima-se. Para ser sincera nutrição foi sempre algo que me agradou, mas tenho imensas dúvidas sobre o curso, empregabilidade e tudo o mais. Em que universidade estás a estudar? Será que podias fazer um post em que falavas sobre o curso em concreto?
    Obrigada Inês. Beijinhos!

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    1. Andreia, estudo na Universidade Lusófona e este separador está repleto de assuntos em relação ao curso. Tenho também uma publicação no Especial Tempo de Antena da Carolina onde abordo o assunto num panorama mais geral, como pedes, fica aqui o link: http://iamtheluckythirteen.blogspot.pt/2015/06/tempo-de-antena-ensino-superior_22.html. Para coisas mais específicas é preferível que me faças a pergunta, por aqui ou por e-mail se preferires :)

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  3. Inês, eu a doroestas publicações mesmo que a área de ciencias não seja mesmo o meu forte e o meu interesse não seja nutrição, mas escreves tão bem e adoro sentir o teu entusiasmo nas tuas conquistas, é divertido de ler e obrigada por partilhares um bocadinho do teu mundo connosco! Vais ser muito grande, trust me! :)

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  4. Ahah, o meme é tão engraçado xD. A minha prima acabou o curso de Nutrição o ano passado e está sempre a dizer isso xD.
    Adoro estes teus posts, são muito úteis para as pessoas que ainda estão no secundário ou estão a pensar mudar de curso, e querem saber mais sobre uma determinada área. Além disso, adoro ler sobre experiências universitárias, porque todas são diferentes à sua maneira e cada pessoa reage de maneira diferente às cadeiras :).
    Beijinhos,
    Cherry
    Blog: Life of Cherry

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  5. Mesmo que esta não seja a área que sigo, acho bastante interessante abordares este tipo de assunto, pois é como dizes, com certeza existem pessoas por aí que querem fazer o mesmo que tu e ter este manual é sempre ótimo.
    Pelo aquilo que já vi e contas (com muita paixão digo-te já), o teu curso parece-me ser bastante completo e vamos ser sinceras, está relacionado com comida!! Vê-se mesmo que nasceste para exercer esta profissão e eu desejo-te a maior sorte do mundo agora poderás vir a trabalhar. E espero ouvir falar muito de ti!
    Beijinhos <3

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  6. Inês ,adoro este blog . Neste momento a minha filha está numa grande indecisão( tem de decidir já ). Está tão mal que diz que já nem vai para a faculdade . escolheu Ciências da Nutrição mas toda a gente lhe diz que não há emprego .Como é a realidade em termos de saídas ?

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    1. O mais importante é que ela escolha algo que realmente a estimula e desperta curiosidade. Está mau para todos os lados e nutrição não é excepção. A área clínica está saturadíssima mas nas restantes ainda há alguma procura e espaço para crescer. Mas preparem-se porque Nutrição (em todas as áreas) é muito competitiva. Boa sorte :)

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