quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

BOM GARFO || Coisas que uma esquisita sofre

Fotografia da minha autoria, por favor, não a utilizar sem autorização prévia
Para quem me conhece, sabe: sou uma esquisitinha. Tenho um graaaaave problema com a comida e não sou (ironicamente neste blogue) um bom garfo. Há sempre algo que ponho no canto do prato, há sempre algo que me faz torcer o nariz. Desde pequena. E hoje, para vos fazer acompanhar nesta jornada de "dor" social, levo-vos ao mundo da minha esquisitice. Os esquisitos por aí espalhados na blogosfera acusem-se se encontrarem coisas iguais.

1. Toda. Mas tooooda a gente olha de lado para mim por ter seguido nutrição
A minha esquisitice com a comida é algo que não passa despercebido especialmente por conta de dois grandes factores: 1) as minhas educadoras de infância; 2) a minha família. É das coisas que nunca escapa quando alguém fala de mim e contam as histórias mais humilhantes e embaraçosas sobre a minha pessoa a comer, claro. Isto resulta em toda a gente da minha cidade a olhar de lado para mim quando escolhi nutrição. Novidades: não quero clínica, não tenho de "dar o exemplo", clássico argumento que as pessoas gostam de dar para me chatear.

2. Todo um pânico se instala quando te convidam na casa de outra pessoa para ficares lá
Quando era mais nova, raramente ficava na casa dos meus amigos; Durante imenso tempo as pessoas achavam que era pelo medo típico das crianças quando ficam fora da casa dos pais a dormir, mas rapidamente descobriram porquê: eu tinha medo da hora das refeições. E é algo que ainda hoje tenho.
Fico a tremer se me convidam para almoçar ou jantar em casa de alguém. O medo de não gostar da comida, de algum ingrediente e passar má figura é algo que me atormenta. Quando jantei pela primeira vez em casa do meu namorado, disse-lhe o dia todo "por amor de Deus, garante-me que vão fazer uma comida que eu coma, protege-me por favor".

3. Em consequência do segundo ponto, é um alívio do caraças quando os almoços e jantares são em restaurantes
5000kg saem de mim quando dizem a palavra "restaurante". Porque lá posso escolher o menu e aplicá-lo à minha medida sem julgamentos. Sem passar figuras ou pôr coisas à borda do prato.

4. Recebo sempre um olhar de julgamento quando me perguntam "salada?" e eu digo: "não, obrigada"
Já vos disse aqui, só como legumes na sopa, e nutricionalmente isso é bom! É um dos "nossos" truques enquanto nutricionistas quando temos à nossa frente pacientes que não gostam de legumes: metam tudo na sopa, tudo. Os nutrientes necessários continuam lá e é uma excelente refeição. Mas as pessoas não compreendem isso e não compreendem que as alfaces não são legumes, são cores (a alface tem calorias residuais e só água). E por isso fazem taças enormes de salada sempre em todas as refeições, que depois distribuem pelas pessoas. E quem diz não, vai ser comido pela Selecção Natural e queimado num Pelourinho pela Real Inquisição das Saladas. 

5. Um namorado que diga "eu como" é o melhor namorado do mundo
Eu vou explicar-vos por que o Diogo é o melhor namorado do mundo: é bom garfo. Graças a Deus é um bom garfo. O que significa que quando janto fora com ele e vejo no menu algo interessante mas tenho medo de não gostar, ele diz "prova, que se não gostares eu como". E isso efectivamente acontece. Ter um namorado que coma as esquisitices que nós não comemos é um prémio do céu. Mais! Quando vamos a almoços e jantares juntos e ele vê que me servem algo que potencialmente posso não vir a gostar, ele segreda-me muito discretamente ao ouvido "gostas?" e se eu acenar que não, sorrateiramente tira-me o que quer que seja do prato e come sem ninguém suspeitar de nada. Não é um amor?

6. Dizes que não gostas de um grupo de alimentos e as pessoas vão ditar-te cada um dos elementos da lista até perceberem que não gostas de um grupo de alimentos
"Gostas de fruta?" "Não." "Nããããoooo? Mas e de maçã?" "Não." "E de banana? É tão bom!" "Não." "E melancia? Não me digas que não gostas de melancia!" "Melancia é uma espécie de peixe?" "Não." "Então qual foi a parte de, 'não gosto de fruta' que não apanhaste?"
Às vezes é um pouco cansativo.

7. Dizes que não gostas de determinada coisa e tens de ouvir uma missa sobre o quão boa é
"Mas como não gostas de tomate? Tomate é tão bom e podes fazer assim, e fazê-lo assado e já experimentaste assim? É que é óptimo!". Avisem-me quando for para levantar e benzer.

8. Falam imediatamente da falta de palmadas que levaste e que se fosse na casa deles era bem diferente
Isto acontecia-me mais em criança. Quando tinha de jantar na casa de uma amiga (às vezes não tinha escapatória) e dizia que não gostava de x coisa, a mãe da minha amiga fazia questão de dizer "Cá em casa não há não. Tens de comer tudo até ao fim e acabou. Isso é falta de uma boa palmada, se fosse comigo ias aprender a comer brócolos a cantar". As pessoas simplesmente não percebem que não é assim que as coisas funcionam. Sim, a minha família passou pesadelos a contornar a situação e não se trata de uma falta de disciplina ou educação. Acontece.

9. Nunca podes dividir pizza com ninguém
Porque não gostas de 90% dos ingredientes da pizza, não vale a pena estares a sacrificar a pizza de alguém para a tua sair como queres.

10. Se tiveres um ar saudável, vão imediatamente ditar-te que vais morrer de trezentas doenças
Tens uma vida toda feita, é independente, mulher maior e vacinada, mas se dizer que não comes fruta e/ou legumes, as pessoas perguntam-te se já foste ao médico ver isso porque podes vir a ter problemas. O quê?! Esperem! Alto lá! Podem falar-me das aldrabices dos multi-vitamínicos mas.... MÉDICO? Que é isso? Em 21 anos de vida nunca ouvi falar e óbvio que nunca fui avaliada, examinada e analisada. Pff, agora que me disseste isso numa conversa de café onde há 5 minutos descobriste que não como bananas é que me desceu a ficha. Vou já investigar isso do médico.
Gente, não façam figuras. Somos as pessoas que mais controlam isso. E sim, vamos todos morrer da vitamina que não conseguimos arranjar pelo fruto X. Como se essa vitamina não existisse em mais lado nenhum.

Hoje em dia já não me chateio nestas situações e encaro-as com humor e algum sarcasmo (ao fim de algum tempo a levar sempre com o mesmo guião, não há alternativa) mas ainda há insistências que me desequilibram um pouco a vontade de não responder de forma torta. Não gostar de grupos de alimentos é um tabu e é um sinónimo de capricho, ser mimado ou com manias e não podia ser uma ideia mais errada. E se para que eu tenha de ser um pouco mais respeitada eu tenho de falar do assunto num blogue sob a forma de 10 pontos humorísticos, eu vou falar.

16 comentários:

  1. Esquesitinha de primeira aqui! Realmente identifico-me com 80% desta lista e isso não é nada bom pois estou sempre a levar com as indignações alheias, como se toda a gente tivesse alguma coisa a ver com o que eu como. Ainda hoje levo com revirar de olhos e comentários desnecessários e tenho de me conter para não perder as estribeiras. Não, ser esquisito não é a mesma coisa que ser mimado e não tem nada a ver com a educação. Simplesmente, se há algo que me deixa imediatamente mal disposta pelo odor, ou pelo aspeto ou pelo sabor, eu não tenho de o comer só para ser aceite. Tal como tu disseste! Arrgh, quando é que as pessoas percebem?

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  2. Identifiquei-me tanto contigo, Ines :) É um verdadeiro pesadelo quando vou jantar ou almoçar a casa de alguém que não me conhece assim tão bem!

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  3. Eu identifico-me com TODAS as situações à excepção da primeira (no meu caso - apesar de não ter colocado sequer a hipótese - sinto que nunca poderia seguir uma profissão ligada à alimentação porque há certos alimentos que eu nem consigo tocar ou cheirar, muito menos comer! E por isso aplaudo a tua capacidade de os trabalhar e cozinhar em contexto de aula mesmo quando não gostas; eu sei que, nesta fase de vida, ainda não conseguiria).
    E sinto que as pessoas não me respeitam neste aspeto. Não as pessoas "de sempre" ou o meu namorado mas as pessoas novas, com quem não tenho grande afinidade. Mil discursos são ditos e repetidos, mil recomendações são feitas...
    Pessoalmente não encaro as situações com humor, os comentários e discursos fazem-me sentir mal comigo mesma, como se fosse pior pessoa por ser assim. E é uma característica minha que não me agrada nem um pouco porque promove muitos gozos e piadas que não têm piada nenhuma para mim. Não respondo torto, claro que não, mas - ainda que nunca admita ou demonstre - é algo que me magoa porque eu também gostava de ser "bom garfo" e não consigo. Sou assim e preferia não ser, é verdade.
    Quanto ao segundo ponto, acho mesmo que é o pior de todos neste momento porque me limita a um ponto que eu nunca deixaria. Um exemplo muito simples: ainda não conheço a mãe do meu namorado apesar das insistências (e conheço as irmãs, os tios, os padrinhos, os primos...) porque me recuso sempre a almoçar/jantar em casa dele e não arrisco que a primeira impressão com a mãe dele seja assim... Pode parecer absurdo (e claro que ele me diz que nunca me levaria para jantar num dia em que a comida fosse "incompatível" comigo) mas eu não me sinto bem em jantar em casa doutras pessoas... Que me lembre, nunca fiz refeições "principais" com os familiares dos meus amigos, por exemplo e ainda esta semana falei sobre isto: só como em casa e em casa dos meus familiares (e não são todos) porque são os locais onde tenho a garantia de que a comida é compatível comigo e não serei apelidada de mimada.

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  4. Olha o meu dedinho aqui no ar xD E um grande Amén a todos os namorados que são uns fofos e comem o que a gente não gosta e que ajudam a fingir que estava tudo Excelente ;P
    Então eu sendo magra é um suplicio quando eu tenho analises fantásticas. Tiram-me a ficha clínica só pelo peso. E a pizza ahaha é uma comédia eu não gosto quase nada em comum com as pessoas ora porque gostam de ananás na pizza e isso estraga tudo, ou porque metem peperoni (eu DETESTO!!!!) ou metem atum (Gosto misturado nos pratos tipo salada de atum, atum fresco, pasta de atum mas nunca NUNCA pizza de atum). Eu nunca dormi em casa de amigos exactamente por esse medo.
    Essa da educação é um espectáculo, porque mesmo ficando toda negra eu ia continuar a detestar aquilo e se comer ficar doente, porque eu sinto-me mesmo mal se comer alguma dessas coisas. Eu tinha meses e não comia já, imagina agora com vontade própria. Ainda hoje para comer uma maçã tenho de me mentalizar e tem de ser escolhida a dedo para ser o mais sem sabor possível... E eu fazer o suplicio de comer.

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  5. Olha, eu não gosto de azeite nas coisas e já por isso é um tormento. Ou se não gosto de algo é "Ainda não provaste. /Não gostas de nada que seja tradicional, só gostas de porcarias.", e sim, já provei dúzias de vezes e continuo a não gostar. Mas de resto, não sou esquisita. Claro que há alimentos que estão na lista negra, paciência.

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  6. Fui esquisitinha durante toda a infância e adolescência. As natas do leite quente, o sabor da manteiga pela manhã, a gordura e os nervos da carne eram o meu pesadelo. Afinal o meu problema era não ter nascido para consumir produtos de origem animal. Quando comecei a ter uma dieta vegetariana passei a adorar comida e foram-se as esquisitices :)

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  7. Eu até há pouco tempo não comia legumes crus. Aliás, não os comia de maneira nenhuma a não ser na sopa e eventualmente salteados (com muito tempero). E tal como tu, levava sempre com o tal olhar de condenação por parte da "Real Inquisição das Saladas", pelo que te percebo completamente. Era sempre um problema ir comer a casa de alguém porque o pessoal faz sempre grandes baldes de salada e eu lá tinha de ser a desmancha prazeres - não conseguia mesmo. Felizmente os meus pais nunca me obrigaram a comer nada (desde que eu comesse a sopa estava tudo ok), mas de vez em quando lá ouvia comentários desses "se fosse minha filha..." - principalmente dos avós! É que eu ainda por cima durante muito tempo não suportei o sabor do azeite. Se estivesse nos cozinhados estava tudo bem, mas se fosse como tempero nem pensar - por exemplo, sempre comi o peixe cozido sem nada, a "seco". Isto também era sempre um imenso problema "mas comes isso assim? nem um bocadinho? e nas batatas? mas gostas do peixe assim? isso não tem jeito nenhum". Enfim. Adorei o ponto 5, porque o meu namorado também come tudo, não é esquisito com rigorosamente nada - e para mim isso é sempre um alívio, porque sei que nada vai ter de ficar no prato (e escuso de levar com o típico "não gostou?").

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  8. Não gosto nadaaaaaaa de salada! Nadinha! Alface é daquelas coisas que meto à boca e só consigo engolir se for empurrada com água... e mesmo assim, é dificil. E sou sempre aquela que, quando vai a algum lado comer, pergunta sempre "vem com salada? se vem, tire, por favor"

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  9. Não sou esquisitinha, excepto com legumes, posso comer mas blhac! Também olham para mim de lado quando ponho as coisas à borda. Por gosto só como mesmo cenoura!

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  10. ahaha adorei o post, quando era pequena também era muito assim e o que me irritava mais eram os "discursos moralistas" da minha família
    beijinhos

    http://umacolherdearroz.blogspot.pt/

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  11. Confesso que não sofro minimamente desse mal :p a não ser com legumes, aí sou um pouco esquisita, mas vai! Mas presumo que de facto deve ser complicado estar sempre a ouvir comentários...ponho a mão na consciência: vou para de os fazer. Ou tentar, pelo menos, juro!
    Relativamente à questão da educação, desculpa, mas há casos e casos. Há pessoas que simplesmente não gostam de certas coisas, e até aí tudo bem, desde que haja saúde e uma alimentação completa! Mas sei de casos (na minha família, inclusive), em que o "não gostar" é simplesmente birra do não-só-porque-posso-e-mando, que depois acaba em problemas de nutrição com consequências na saúde...e aí a coisa é mais séria, e é também de educação porque não é impedido o "prazer" de mandar onde se pode - isto em crianças e também em adultos. Ninguém gosta SÓ de bife e batatas fritas :p

    Jiji

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  12. Eu também sou muito esquisita! Praticamente não como legumes sem ser na sopa e em relação a molhos entao.... Mas vou tentando sobreviver e aprendi a lidar com os comentários :P *

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  13. Ao contrário de ti não sou NADA esquisita e gosto bastante. Tirando algumas comidas típicas portuguesas que odeio mesmo tipo dobrada e feijoada (acho mesmo nojento e só o cheiro dá-me vómitos) como de tudo. A minha maior esquisitice é não gostar de comida com fruta. Para mim ou é comida de prato mesmo, ou é só fruta.

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  14. Eu não posso dizer que me identifico contigo, porque sou uma gorducha come tudo desde sempre. Mas a verdade é que percebo alguns pontos muito bem! Nomeadamente esse discurso sem fundo: "ai se fosses minhas filha, comias isso tudo". Já me aconteceu, e ao meu irmão gémeo também, estarmos na casa de uns tios avós nossos e dizermos que não gostávamos de bacalhau. E, por isso, optamos pelo segundo prato que eles tinham para oferecer na mesa. Mas esse tipo de discurso existiu! E nós, educados como sempre, rimo-nos. Mas relembro o momento em que os meus pais decidiram chegar-se à frente e defender-nos à séria. Como se naquele momento nos mostrassem que está tudo bem. Que é OK não gostarmos do que toda a gente gosta. Naquele momento, mostraram-nos que aquilo que acaba por fazer parte da nossa personalidade é válido. Ser diferente é identidade também. E adoro-os por esse dia, sem dúvida! :)

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  15. Meu Deus!! Identifico-me a valer com este artigo; melhor "queres ir jantar a X restaurante?" Ahhh, não sei *ver a ementa do restaurante*, pode ser, sim!!

    Beijinho querida :) *

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  16. Ahahah também sou um bocado assim... e a acrescentar também sempre fui muitoooo magra (aos 10 anos pesava 20Kg), para além de que também não como muito em quantidade. O pior mesmo é quando eu digo que não gosto de chocolate, batatas fritas de pacote nem queijo e as pessoas me perguntam "Mas já provaste?" como se eu fossem um alien...
    Ah, e a minha mãe também é nutricionista... o que levava as pessoas a dizer que era por isso que acontecia porque a minha mãe me "proibia" coisa que obviamente nunca aconteceu.

    http://blog-flor-mar.blogspot.pt/

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