quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

ISTO É TÃO INÊS || Mulher

Fotografia da minha autoria, por favor, não a utilizar sem autorização prévia
Há coisas incríveis de uma pessoa reparar. Sei lá, às vezes estamos tão ocupados na nossa vida que nos esquecemos de reparar na nossa vida. Num detalhe que é enorme mas que... é um detalhe. E entre os cadernos empilhados que fizeram as figuras da semana passada, das papeladas, do computador aberto até à uma e meia da manhã, entre as minhas viagens de autocarro diárias, entre o meu vício ainda tão adolescente de actualizar constantemente as redes sociais, estava eu muito feliz, muito menina a preparar-me para deitar, a tirar o elástico do carrapito que me acompanha desde os 11 anos de idade e a meter um bocadinho de batom do cieiro nos lábios como faço desde que vi a minha mãe fazer, tão elegante, tão senhora, que reparei neste facto curioso sobre a minha vida: estou cada vez a ser mais mulher.

Isto, para mim, foi uma consciencialização tão estúpida que eu literalmente estava sentada à chinês com metade dos lábios cobertos de batom do cieiro e a rir em frente ao espelho. Em muitos níveis, naquele momento, aquela consciencialização tão óbvia quase que soava ao ridículo. É óbvio que estou cada vez mais a ser mulher, não caminharei para jovem nunca na vida. Jamais irei regredir. Mas é do caraças quando nos apercebemos.

Sabem, é difícil definir o momento em que deixamos de ser miúdas e passamos a ser mulheres. É ainda mais difícil assumirmo-nos como mulheres e não como miúdas. Primeiro, porque raramente as outras pessoas vão concordar. Vocês são as miúdas da vida das vossas pessoas. Vocês são as miúdas da vossa mãe, as meninas do papá, as netinhas da avó. Vocês não são mulheres e nunca serão mulheres aos olhos da vossa família. Vocês estarão a casar-se belíssimas da vida, corpo feito, o amor da vossa vida no altar bem giraço e a vossa mãe, linda de morrer e a conter-se para não sujar os olhos com o rímel ainda quer acreditar que estão a brincar às casinhas. Tudo isto para dizer que não podem simplesmente chegar ao pé das vossas famílias e dizer "Eu sou uma mulher". 

Mas somos. Mas sou. E apercebi-me disso por todas as vivências que ser mulher acarreta. Porque cada vez mais tenho a experiência de viver eu mesma acontecimentos que exigem cada vez mais de mim amadurecimento nas decisões, exigem que amealhe aprendizagens cada vez mais complexas de gerar certezas mas que certamente geram mudanças profundas na pessoa que sou. Porque fui e vou a lugares onde antes não me imaginaria entrar e porque consegui fazer coisas que jamais me imaginaria a fazer. Crescer, neste caso, é dizer pouco. Algo em mim traçou-se de uma forma muito bela e elegante. E quase paradoxal, uma vez que não sou uma completa mulher. Eu preciso ainda de tanta coisa, eu tenho ainda tanta independência e autonomia por conquistar. Tantas coisas para trazer comigo para a rua sem receios. Tanta coragem por usar. Tanta capacidade de resolver problemas por testar. Não sou, ainda, a mulher. Mas caminho para o ser.

E é uma observação natural, óbvia, mas tão surpreendente. Olhei-me ao espelho, de cabelo cheio de jeitos, lábios brilhantes e pijama de peluche com uma sensação de presença. Nunca me senti tão viva e cheia de experiências. Nunca me senti com tantas incertezas e dúvidas. E sei que, por me sentir assim, viva e incerta, caminho cada vez mais para ser uma mulher completa. Tenho de ser, por mim, a melhor mulher que possa ser. E nesse momento olhamo-nos ao espelho e o mundo, por apenas um segundo, faz muito sentido. 

10 comentários:

  1. Uau! Adorei o texto, Inês! Não sei se é de ser tão tarde e ser uma hora em que eu, pessoalmente, gosto de ler este género de pensamento, mas senti-me presente em cada palavra do teu texto!

    um grande beijinho*
    The Brunette Lingerie

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  2. Minha querida Inês, sem nada a acrescentar ! Absolutamente brilhante :')

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  3. Em primeiro lugar gostei bastante do texto e da maneira quase "etérea" com que explicaste a tua "mudança". Estava a pensar e, com muita pena minha, não consigo precisar ao certo quando é que me aconteceu o mesmo. De qualquer maneira compreendo na perfeição o "paradoxo" que referes, sinto o mesmo regularmente :)

    Ricardo, The Ghostly Walker.

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  4. Simplesmente brilhante. És e serás uma grande Mulher, que vale a pena conhecer, que vale a pena ouvir e com a qual nos perdemos nas aprendizagens.

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  5. Fantástico. Adorei o texto, és enorme! Beijinhoo

    perdidanomar.blogspot.pt

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  6. Como sempre, uma reflexão brilhante e madura. Parabéns pela mulher em que estás a tornar-te, Inês :) principalmente porque pareces ser uma mulher madura que, ainda assim, mantém aquele espírito jovem e aquele brilho característico de quando somos mais crianças, que às vezes se desvanesce. tens todos os motivos para te orgulhar!

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  7. Sabes que isso aconteceu-me assim de repente também. Reparei que de repente estava mesmo mais mulher e dou por mim em fotos a parecer muito miuda mas depois vejo já umas rugas de expressão vincadas na testa. Fora outros comportamentos e gostos.

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  8. Que texto maravilhoso. Eu às vezes penso o mesmo - assusta-me e, ao mesmo tempo, encanta-me a independência que ganhei, os valores que cismei que tinha que ter. Mas acho que só vou ter essa perfeita consciência quando sair de casa e deixar de ter as asas dos meus pais a protegerem-me a tempo inteiro. Em breve...

    Jiji

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