terça-feira, 15 de dezembro de 2015

MUNDO || Vamos falar de humor sem piada.


Ando desde o Verão para falar-vos sobre este assunto. Às vezes faltam-me as palavras, outras vezes a sensibilidade para abordar o assunto. Há alturas em que fico tão revoltada que decido que nem sequer vou tocar sobre ele no meu teclado, decisão que tomo toda a vez que decido escrever para o blogue mas estou chateada. Mas acho que há um limite. Há um limite quando vou de gabardina apertada até ao pescoço, de calças vestidas e botas calçadas e mesmo assim oiço todos os carros possíveis e imaginários que se cruzam comigo a apitar sem travão na estrada. 

No Verão deste ano estava do Chiado a passear com uns amigos (e raparigas incluídas). Lá encontravam-se alguns operadores de câmara e um entrevistador, mediador de reportagem ou uma qualquer outra designação técnica de jornalismo e reportagem que agora não interessa. Pararam-nos e perguntaram-nos se podíamos participar na reportagem humorística deles. Estavam identificados e sim, era para um programa de canal aberto
O repórter teve especial insistência comigo, queria que participasse por tudo. Perguntei-lhe o que era preciso fazer. Naquele momento só pensava nas possíveis perguntas de cultura geral que ele ia perguntar, que eu poderia não saber responder e a figura que iria fazer por não me lembrar das respostas. "Só tens de tirar uma selfie comigo, pode ser?", disse o repórter. "Juntas-te a mim, olhas para aquela câmara e sorris!"
E ele tanto me empurrava que eu decidi alinhar e fazer-lhe a vontade. Juntei-me a ele e sorri. "Muito bem, isso mesmo", dizia-me, até depois ver a câmara começar a baixar e focar para o meu peito. Tal e qual. E quando me apercebi tapei-me e afastei o homem com um empurrão, indignada. 
ATENTEM: Não tinha decotes alguns. O meu top era branco e de decote horizontal direito e nem sequer dava para se antever o peito em si, de tal forma que era coberto. 
Mas o repórter começou a rir e disse "É uma boobselfie, nós tiramos fotos com vocês e depois focamos o peito, olha, está aqui" e mostrou-me todo o make-off. A peça era real. Real, meus caros. Eu acho que nunca fiquei tão indignada na minha vida, ao ponto de levantar a voz em plena rua do Chiado e dizer-lhe o quão absurdo eu achava. Nunca mais vou esquecer-me do que lhe disse: "Além da falta de moralidade por não explicar convenientemente o objectivo das suas gravações, ainda está a filmar algo que não autorizei", "Mas a peça vai ter montes de pessoas, é uma compilação". Eu exigi que a minha gravação fosse removida e fiz questão de a ver eliminada. Ameacei que iria ver a peça e, se eu entrasse sem a autorização assinada, não poupava a consequências. 

O homem olhou para mim estupefacto e ainda disse umas quantas asneiras para mim. Parece exacerbado ou não a minha atitude? Houve muita gente que achou. Eu não admiti que gravassem o meu peito, fosse de que forma fosse porque, além de ter sido defraudada quanto ao propósito da minha participação, ainda achei a peça descabida, por muito humorística que a tentassem fazer. Talvez vocês até a tenham visto e tenham achado muita graça, mas eu vi-a com uma sensação miserável na consciência e não achei a mínima piada.

Estamos no mundo #freethenipple e eu até compreendo a campanha. Mas esta é uma vontade sobre a própria vontade da mulher mostrar o seu peito da forma que quer, tal como o homem o faz sem atentados ao pudor. Não é uma demanda, não é um dever. E eu tenho o direito de mostrar do meu corpo aquilo que quero, mesmo que seja a cor dos olhos. É meu. E repugna-me cada vez mais que confundam o poder de decisão sobre o corpo e direitos de uma mulher com o poder de tornar os direitos e o corpo de uma mulher num objecto. Numa razão para rir. 

Porque estes programas aparentemente inocentes e engraçados fazem as delicias de quem sobre a mulher não tem qualquer respeito ou olhos de dignidade. Porque estes programas passam cada vez mais as mensagens "inocentes" da mulher gira, da mulher boa, da mulher porque tem rabo e mamas e isso é tão bom para se apreciar, comentar em voz alta a jeito de piropo e usar com propósitos humorísticos. Não tem nada que se queixar, não tem nada que se indignar, se tem é para ver, comentar e apreciar sem limites. Porque os sete tipos que apitaram para mim na rua, quando eu nem sequer de forma provocadora estava (que é a principal "desculpa" para os abusos que acontecem) vêem este tipo de programas que alimentam cada vez mais a distorção sobre o valor feminino. Por isso sim, quando um dos meus amigos disse "Calma, ele já apagou" não apagou nada. Dezenas de mulheres entraram na ideia, com caras surpreendidas por a câmara descer e sem se chegarem à frente para se imporem sobre o que desejam ou não ver exposto. Porque se é uma brincadeira, vamos com "calma". Não vamos dramatizar na rua. Pois eu não me arrependo e garanto-vos que se não apagasse, destruiria aquela câmara com os meus 48kg de força Hercúlea, custasse o que custasse.

Ninguém tem o direito de expor ou fotografar/gravar o teu corpo e muito menos sob os subterfúgios que preferir se não o permites. Seja por brincadeira, seja porque quer guardar para ver em privado. Não. E enquanto estas mensagens, especialmente em canal aberto (coisa que me deixa a ferver) ainda passam em pleno 2015 é difícil ser feminista sem passar a ideia de que somos pessoas profundamente revoltadas. Porque, para mim, isto fervilha e revolta-me tanto como se tivesse acabado de me acontecer. Basta.

8 comentários:

  1. Bem, é preciso ter uma lata de todo o tamanho. Canal aberto... Não acho que tenhas feito «cenas». Eu faria exactamente o mesmo. Aliás, faço exactamente o mesmo quando vou a qualquer lado e se põe a olhar para onde não devem. Sou a pessoa mais simpática do mundo se me tratarem com respeito, afinal, a aceitação de nós mesmas passa pelo respeito que as pessoas nos têm. Apenas eu decido o que fazem com o meu corpo. Sempre que me apitam na rua fico extremamente indignada. Não por me acharem suficientemente gira para apitarem, mas porque o fazem sem qualquer cuidado e, muitas vezes, com gestos obscenos. Não é a primeira vez que fico estática na rua a olhar severamente para o carro que por mim passa e apita. Assim como censuro com o olhar quando recebo um piropo. Lá porque andamos numa luta «feminista» contra a falta de integração da mulher na sociedade, não quer dizer que possam abusar assim da nossa imagem. Principalmente, porque não andamos aí a abusar dos atributos do homem a torto e a direito. Que patetice! Não os vejo a fazer programas destes com homens.
    É mesmo complicada esta batalha, contudo, não podemos desistir.

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  2. Nem acredito no que acabei de ler. Aplaudo de pé a tua postura perante uma situação absurda dessas. Não estavas a exagerar, muito pelo contrário, o que o "repórter" (recuso-me a tratá-lo como tal) fez é no mínimo criminoso. O facto de existirem parvinhas que compactuam com este tipo de "acções" é algo que me supera, tomara que todas fossem como tu! É nestas alturas que tenho imensa vergonha dos restantes indivíduos do sexo masculino. Tanto neste caso como nos piropos e por aí fora, é simplesmente nojento. Não percebo qual é o prazer de apitar um carro ou gritar profanidades a uma mulher. Ela não vai largar tudo e correr para os braços deles, portanto porque é que insistem? Enfim, agora sou eu que estou a fervilhar com isto ugh.

    Ricardo, The Ghostly Walker.

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  3. A mim (mesmo sendo novinha) já ouvi umas quantas buzinadelas e uns olhares de "alto a baixo" e senti me horrível. A minha mãe já passou por coisas semelhantes e destestaria que a próxima geração passasse pelo mesmo. E é para isso que nos temos que educar e que temos que nos perceber, saber respeitar aquilo que não nos pertence. Faço uma venia à tua atitude!

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  4. Mais uma vez, um post teu que não me desilude. Desde à cerca de 5 anos que sou leitora assídua dos três blogs que já tiveste e é com prazer que acompanho a tua evolução. De todos os blogs que existem na blogosfera, és o único que nunca deixei de acompanhar e de apreciar o conteúdo. Parabéns, continua sempre assim Inês.

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    1. Eu é que agradeço a leitura tão assídua e teres acompanhado os meus blogues! É inacreditável ler esta mensagem, e é tão bom saber este tipo de coisas. Não tenho palavras. Muito obrigada :)

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  5. Não achei a tua atitude exagerada! Metade dessa atitude em muitas pessoas e o mundo seria bem melhor (:

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  6. Ainda há pessoas que olham para mim indignadas quando eu digo que sou feminista. Mas basta ler uma ou duas histórias assim para se perceber que de facto as mulheres ainda não são suficientemente respeitadas e que os "nãos" ainda não são prontamente ouvidos. Essa situação que contaste é ridícula e explica muito bem a falta de valores da sociedade em geral e dos canais generalistas em particular.

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  7. Estou indignada por ti, pelo jornalismo e pelos editores que aprovam reportagens destas. Mas que raio?!


    www.asofiaworld.com

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