domingo, 4 de outubro de 2015

MUNDO || Livre


Estava na entrada da minha adolescência quando a minha avó, que lá em cima olha por mim, contava-me a memória da primeira vez que votou (ou que pôde votar). Tanto ela como a minha mãe sentavam-se juntas no sofá e falavam sobre essa memória, tão viva na cabeça de cada uma, à sua maneira.

Eram tempos diferentes. As mulheres pela primeira vez podiam votar, dizia-me, mas ainda havia muito a cultura do homem. As mulheres não podiam trabalhar sem autorização dos homens, as mulheres não podiam viajar sem a autorização dos homens e só os homens votavam. Por isso, quando as mulheres foram livres de votar, sentiram-se numa estreia, viravam-se para os maridos e perguntavam como se fazia, perguntavam em que partido iriam eles votar. A minha avó já tinha a minha mãe (a mais nova dos três) e só então votou pela primeira vez. Não é uma estreia de miúda de 18 anos a votar pela primeira vez!!! Era mulher já feita, com filhos criados a perguntar como se faz.

Imaginem-se só votarem lá para os 30 e até lá viverem miseravelmente em conta dos resultados dos homens, dos outros. Não acham revoltante? Quando ela me perguntava isto eu ficava vermelha de revolta. Depois contou-me que, no dia de voto, a fila de mulheres era interminável. In-ter-mi-ná-vel. Dava curvas, as pessoas metiam-se na fila de manhã e só chegavam à urna à tarde. À TARDE! E quantas delas arredaram pé? Nenhuma! Aguardaram o tempo que foi preciso para exercerem pela primeira vez o seu direito. E eu acho isto emocionante e lindo, acho mesmo.

Chamam-lhe o Primeiro Dia de Igualdade e é dedicado a estas mulheres, sem dúvida. Num dia em que contam com um grande número de abstenção, eu penso o contrário, ou tenho de pensar! O meu conselho estava a abarrotar de pessoas e o de outros também. Só pode significar um acordar do país que finalmente dignifica este Primeiro Dia de Igualdade. Ficar sentado sem votar não é sinal de revolta, de desistência, impotência ou mensagem. É uma completa falta de respeito por todas as mulheres que lutaram, foram torturadas, vou repetir para ver se isto entra na cabeça de todos TORTURADAS(!) para um dia terem o direito a eleger o rumo do país. É uma falta de respeito por todas as vossas avós que se emocionaram por finalmente terem voz, palavra e poder de decisão. É um privilégio que deitam fora e vulgarizam como se a vida e os direitos e deveres da mesma fossem garantidos quando não o são. Não se trata de partidos nem dos seus programas nem de quem dá a cara por eles. Trata-se de algo que, no passado, levou suor e sangue para conquistar.

Este tipo de conquistas não se desperdiça. Nem pelo tempo, nem pelas caras dos partidos nem pelos filmes de Domingo à tarde. Façam, literalmente, qualquer coisa pela sociedade (de agora, do futuro e com alguma deferência pela do passado).

6 comentários:

  1. Sempre fui educada por uma família que vota sempre e que sempre me incutiu a mensagem que muita gente lutou e perdeu a vida para podermos ter este direito. São valores tão importantes e é fabuloso viver mos num país assim em que nos é possível votar e escolher quem queremos ver à frente do nosso governo (mesmo que não tenha idade para votar!)

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  2. Completamente de acordo com que o contas, e é de facto emocionante a história da tua avó e de tantas outras mulheres. É um direito que nos foi concedido e um dever ao qual devemos fazer juz. Agradeço a quem tanto lutou por esta igualdade!

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  3. Apoiada a 200%...
    Ao não votar, para além de implicar aquilo que referiste, estão a deixar os outros escolherem por ele(a)s. Estão a deixar de aproveitar o direito (que no meu ponto de vista é também, sem dúvida alguma, um DEVER) de ter influência no rumo do país.

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  4. Adorei esta publicação. Dizes tudo o que penso acerca deste assunto. Acho revoltante o facto de haver alguém que pense que o seu voto não vai fazer diferença alguma e que por isso mais vale ficar em casa confortavelmente sentado em vez de se levantar e ir enfrentar as possíveis filas e/ ou as partidas meteorológicas. Acho ainda mais revoltante quando fazem isto, mas depois acham-se do direito de reclamar. Sim, são livres de reclamar, mas se têm tanto para reclamar por que continuam a achar que o seu voto não faria a diferença? Enfim.

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  5. Este foi o primeiro ano que desde que posso votar, não o fiz!

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