sábado, 26 de setembro de 2015

SAÚDE || Como controlo a minha ansiedade


Este Verão eu fiquei muito contente com a quantidade de pessoas que falaram abertamente sobre a ansiedade. Quer pessoalmente (pessoas que falaram abertamente sobre isso comigo e eu pude falar abertamente com elas), quer no blogger, youtube... É inevitável, sofrendo desta condição, não me sentir compelida a desejar o melhor por estas pessoas ou sentir-me orgulhosa por elas terem exposto a sua situação - seja de que forma for -, mesmo que não as conheça. Eu conheço a condição e por isso sei como se sentem.

Eu raramente me sinto ansiosa em sítios movimentados ou com muitas pessoas. Aliás, é algo que agradeço imenso, mesmo não sendo uma party girl, eu consigo estar num centro comercial apinhado, eu consigo atravessar a Praça da Batata no Carnaval (Torreenses know what I mean), eu consigo estar numa festa sem sentir a sensação de prisão, de falta de ar, de claustrofobia. Por outro lado a minha ansiedade alia-se imenso à minha insegurança e falta de confiança e à possibilidade de falhar, o que significa que desafios para mim, mudanças e todo o outro tipo de experiências que puxem por mim facilmente recebem a minha ansiedade. E é mais nessas questões que a respiração pesada e os ataques de pânico entram em acção. 

Com o tempo tenho aprendido a usar métodos para conseguir controlar a minha ansiedade. Sendo a ansiedade algo tão personalizado e íntimo, os nossos truques também o são, o que significa que duas pessoas podem sofrer de ansiedade por razões brutalmente diferentes e acalmarem-se ou controlarem-se de forma absolutamente desigual. O que resulta em mim é gatilho para outra pessoa mas, se se sentirem perdidos como eu já me senti em tempos ou quiserem testar coisas novas, estes são os meus truques:

Correr: Correr é uma actividade muito específica. Eu escrevo isto porque facilmente vocês encontram pessoas que detestam correr, que não sabem correr, que se cansam a correr, que gostam de correr ocasionalmente ou que adoram e não conseguem passar o dia sem correr. Eu confesso que gosto de correr mas guardo a corrida para a minha caixinha especial da ansiedade. Quando começo a sentir o peito a pesar, quando começo a precisar de respirar devagar e quando me vejo sentada mas sem as pernas pararem, eu calço os ténis e vou correr. Não estabeleço metas, não contabilizo quilómetros, absolutamente nada. Eu simplesmente visto a roupa mais confortável que encontrar e vou correr. Para mim é uma sensação de liberdade, sinto que me estou a libertar de tudo o que me prende, de tudo o que me deita abaixo. Sentir o meu coração acelerado porque estou a correr e não porque algo me preocupa é um alívio que não vos sei explicar. E sentir que estou a correr, que estou a fazer algo por mim, pelo meu corpo e pela minha saúde acalma-me. Eu corro até não me apetecer mais e até os pensamentos ansiosos desaparecerem por completo. Há alturas em que eu fico surpreendida com a carrada de km que faço, que jamais faria numa situação de treino. Mas ajuda-me, o meu corpo reage bem.

Ler BD: Quem me conhece e lê o meu blogue com regularidade sabe que eu sou uma leitora de alma e coração, mas em alturas de ansiedade jamais vão ver-me tocar num livro. Mesmo que seja o mais cómico e engraçado de sempre. Não sou capaz de me comprometer a ler um livro quando me sinto tão presa nos meus pulmões, não me consigo concentrar e sinto-me ansiosa pelos personagens, por isso não me ajuda de todo e acabo por me sentir mesmo muito mal. Curiosamente o mesmo não acontece com BD. Eu adoro BD (mesmo que não pareça) e tenho imensa cá em casa, desde Garfield, Zits, Mafalda... Eu acabo por escolher estas que sei que são cómicas, são leves e deixam-me confortável e distraída sem exigirem demasiado compromisso da minha concentração. Uso-as especialmente antes de dormir porque indirectamente acalmam a minha respiração e transportam-me. A leitura chama o sono também porque é uma actividade muito tranquila.

Escrever coisas positivas: Apesar de tudo eu tento ser positiva por natureza. Às vezes nem sempre resulta, mas eu esforço-me por virar sempre o lado positivo da moeda. E, como já referi, a ansiedade é um enorme derivado da minha insegurança. Quando me sinto ansiosa a minha auto-estima e optimismo vão ao poço. Eu sinto-me incapaz, sem coragem, inválida, tiro valor a mim própria muito facilmente e penso sempre no pior cenário. Directo. Às vezes é difícil olhar-me ao espelho nestas crises e conseguir retirar coisas de valor. Olhar-me com confiança. E desde então, quando me apercebi disto, eu comprei um caderno, um bloco, onde escrevo apenas coisas positivas. Faço-as tipo listas e em cada página escrevo algo de bom. Às vezes escrevo coisas que quero fazer, viagens que já fiz ou viagens que quero fazer, coisas boas que já alcancei, o que gosto mais em mim (quer em personalidade, quer em físico)... Guardo esse caderno exclusivamente para momentos de caixa torácica pesada e, além de ler as coisas que já escrevi, disciplino-me a fazer este exercício. coisas positivas. Momentos com os meus amigos ou com a minha família, coisas engraçadas que me aconteceram. Ajuda-me a ver as coisas de outra perspectiva e escrever ajuda-me a relaxar. Eu sinto que aquele caderno é a minha âncora, quando me sentir em crise e sem nada de bom para olhar, eu sei que pelo menos naquele caderno eu só vou encontrar coisas boas e bonitas. E isso ajuda-me imenso.

Rodear-me de pessoas positivas: Cada vez mais eu elimino (okay, eu elimino da minha vida, não as elimino!!!) pessoas dramáticas da minha vida. Pessoas que vivem para conflitos, confrontos desnecessários, dramas inexplicáveis e que nunca conseguem ver o lado positivo nas coisas, nunca. A vida é sempre má, é ruim, e elas são uma sobreviventes de todas as coisas miseráveis que aconteceram. Eu cada vez menos suporto esse tipo de pessoas e afasto-me, porque dão cabo da minha saúde e não posso permitir tal coisa. Cada vez mais rodeio-me de pessoas tranquilas e que vejam a vida de um lado positivo e optimista. Que me façam ver o quão maravilhoso é viver pelo simples facto de viver. Quão maravilhoso é ter sonhos e objectivos pessoais e quão desnecessário é viver à custa dos outros. A minha família é um grande apoio nisto, eu sou uma miúda muito familiar e são eles que me reconfortam melhor nestas alturas. Ter amigos que sei que posso recorrer e vão ajudar-me a ver o mundo de uma forma ainda mais positiva do que eu vejo, é impagável. E saber que eles não batem nesta tecla da ansiedade a toda a hora, saber que eles respeitam e compreendem como sou é ainda melhor.

Cuidar da minha cadela: Quando quero distrair-me e não pensar mais no que me está a deixar nervosa e em crise, eu vou ter com a Laika. Ela tem um instinto supremo para se aperceber que não estou bem e, além de não me largar, deixa-me fazer tudo sem nunca ir embora. O que acabo por fazer é correr ao lado dela (que já falei lá em cima, portanto este não conta), penteio-a, já que é um cão de grande porte e pêlo longo, que não convém levar muitos banhos e então é recomendado escová-la imenso para a livrar das ervinhas que se prendem ao pêlo ou para retirar o cheiro mais intenso a cão. Além disso ela adora quando a escovo e passo um bom bocado a fazer isto, a dar-lhe miminhos, a falar alto para ela. Ter animais é das melhores coisas, eles amam-nos incondicionalmente e vêem em nós um valor que nem sempre enxergamos. Estar com ela faz-me sentir protegida e distraída, porque quero dar toda a atenção do mundo para ela.

Dizer alto "Isto é temporário. Isto passa.": Às vezes as crises crescem e crescem e não dá mesmo para controlar. A respiração fica cada vez mais curta, sinto formigueiros nas mãos, as lágrimas escorrem-me nos olhos. Eu aninhava-me e queria sair do meu corpo, da minha respiração, eu sinta que ia ficar assim, miserável, para sempre. É mesmo uma sensação de infinito porque quando temos um ataque assim, a crise já existe há imenso tempo e nunca mais passa. Nós sentimo-nos numa impotência ridícula e como se nunca mais voltássemos a estar em paz connosco próprios. De há uns tempos para cá eu decidi que queria ser mais forte que isto. Que isto é temporário e não domina, de todo, a minha vida. Então sempre que estou com o coração mais apertado, com a respiração a pesar 200kg e a sensação de querer sair, eu digo para mim mesma, alto, "Isto é temporário, isto passa". Não é dizer isto como se estivesse a ler a lista de supermercado, é dizer alto e bom som. Quando estou em crise não quero saber quem está à minha volta. Não quero saber se estou à porta da sala para fazer o teste e sinto-me em pânico, não quero saber se estou em casa com a minha mãe e não aguento mais. Eu digo alto e bom som "Isto é temporário. Isto passa" e durante todo o momento eu meto na cabeça que isto é temporário, que isto não dura para sempre, que esta sensação não é infinita. Não é. É temporário. Vai passar. Porque é. Se sofres do mesmo, por mais horrível que o teu pensamento seja, por mais prisão que te sintas, por mais mal que durmas e por mais ansiosa que acordes, isso não durará para sempre. Isso vai passar. Isso é temporário. Repete para ti, isso é temporário. És muito mais que isso, por mais inacreditável que seja. És uma vida inteira e tens valor. 

Eu espero que isto ajude alguém, por mais improvável que eu sinta que seja porque são coisas muito minhas. Ainda assim eu volto a repetir, adorei a abertura com que este tema foi falado e discutido e acho meeesmo que nenhum post é mais do mesmo. Acho que é importante falarmos sobre isto e, acima de tudo, falar de uma forma positiva e com ideias para nos entre-ajudarmos. De todo, a ansiedade não é a minha vida, mas eu aceito que faz parte dela e cada vez mais eu decido o quanto eu quero que ela faça parte. Sinto-me orgulhosa por isso e quero que as pessoas que passam pelo mesmo consigam sentir-se desta forma. Sem julgamentos e com o respeito que a condição merece.

4 comentários:

  1. Palminhas para este post, de pé! Está fabuloso e cheio de conselhos que podem ajudar muitas pessoas que se encontram nesta situação! Conseguiste falar de um tema tão delicado com uma abertura e uma sensibilidade incríveis, em simultâneo, e isso é de louvar! (:
    Beijinho*

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  2. R: Não perdias grande coisa. xD Depois partilho o novo link com a blogo. :)

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  3. ficamos ansiosas pelo mesmo motivo ... É mais complicado do que as outras pessoas pensam ..
    R: e obrigada pelo apoio Inês, sabes sempre o que dizer <3

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  4. Tal como disseste, nenhum post ou partilha sobre a ansiedade é mais do mesmo, porque todos somos diferentes e cada experiência vale por si!
    Eu também já fui diagnosticada por uma médica com ansiedade - porque hoje em dia, na sociedade em que vivemos, é muito fácil qualquer pessoa sentir-se mais ansiosa. Mas eu sinto-o mais e isto pode soar estranho, mas basicamente com situações sobre as quais eu não tenho total controlo. Quando não sei o que vai acontecer em dada situação, quando tenho uma avaliação e pode ou não correr bem, quando algo começa a sair fora do que seria normal e há qualquer imprevisto, eu sinto muito ansiedade. Tive dores no peito por causa disso durante quase um ano, e foi um ano mesmo importante para conhecer melhor a minha ansiedade.
    Como tu, há pequenas coisas que fazem alguma diferença, mas sinceramente ainda sinto que ando a tentar encontrar soluções mais adequadas. Algo que faz, de certeza, toda a diferença é conhecermos muito bem o nosso corpo e os sinais que ele nos envia, porque nunca falha nesse aspeto. E se começamos a perceber esses sinais, tentar combater a razão (e não fugir) é o melhor a fazer!
    Espero mesmo que todas as pessoas que sofram do mesmo se sintam ajudadas com este e todos os posts que têm vindo a surgir, para se conhecerem melhor e conseguirem viver melhor com a ansiedade - quiçá diminui-la :)

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