segunda-feira, 27 de julho de 2015

MÚSICA || Afinar violinos


Quando tocava, afinar o violino era das partes que mais me dava prazer. Não a parte de ajustar o afinador ou a cravelha (os "botões" que estão na voluta, na ponta do violino). Mas do toque. A garantia da harmonia musical do violino faz-se sempre entre duas cordas, nas quatro possíveis que vão da mais grave à mais aguda. A aguda (Mi) é sempre tocada com o tom central (La), que corresponde à segunda corda. O La com o Re (terceira) e o Re com o Sol (quarta). E era o toque destas duas, do Re e do Sol, da terceira com a quarta que me deixava com os pêlos dos braços arrepiados.

Desenganem-se se pensam que é fácil fazer um toque de duas cordas. Havia posição de arco, trejeito de mão. Nenhum tom se podia sobrepor ao outro, logo, não podíamos tocar uma corda mais alto que a outra. O arco tinha de deslizar suavemente nas duas e a afinação da terceira e quarta corda é a mais difícil. É a mais afastada da mão (direita no arco) e implicava mais trejeito de pulso (porque neste instrumento não levantas cotovelos, não estás na TAP, como me diziam). Mas é o som que mais gosto no violino. Tão simples quanto isto. Sem toques no espelho, sem notas, sem outras melodias incorporadas. Apenas o Re com o Sol, ao mesmo tempo.

Não sei se é possível explicar o conforto que é o seu tom grave. Tem corpo. Parece veludo. Parece que as sinapses têm som e que os pensamentos, afinal, podem falar. Parece que o meu coração afinal não faz "tum-tum" e tem este som, tão puro e quente. Costumava deitar-me na cama com o violino no colo, a voluta para o lado das minhas pernas para que os tons graves ficassem mais perto da minha mão e costumava tocar essas duas notas consecutivamente, até fechar os olhos e divagar nos meus pensamentos e decisões ao som daquele tom. Baixava-me a frequência cardíaca e acalmava-me. Transportava-me para um lugar de mantas quentinhas. É absurdo, mas um músico acaba por ser assim, reconforta-se em notas. Às vezes batiam à porta do quarto e a minha mãe perguntava-me porque estava a tocar insistentemente a mesma coisa. Eu só dizia "porque é bonito". Sem grandes justificações e ela concordava. Também era o seu tom favorito. Quando tocava para ela, no momento de afinação, ela dizia sempre que era o que gostava mais. A genética talvez entre aqui em acção mas é, realmente, reconfortante.

Hoje, de coração alvoraçado, peguei no meu (agora pequeno) violino, pousei-o no meu colo de novo e toquei a melodia até ficar perfeita. Fechei os olhos. Frequência cardíaca a baixar e os pulmões a esvaziar. Há sóis que nos iluminam sem luz. Este Sol é um deles.

4 comentários:

  1. Tão lindo, adorei o texto que escreveste. Eu não sei tocar violino mas adoro o som que sai dele e adorava aprender um dia

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  2. andei no conservatório 5 anos e o meu instrumento também era o violino, é algo indescritível, hoje tenho saudades das aulas e dos treinos que fazia todos os dias sem descanso.

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  3. Oh Inês, que texto delicioso! A sério, já tinha saudades de ler estes teus textos mais "delicados" e não podia ter matado essas saudades de forma melhor... :) Tu fazes magia com as palavras, que sonho!

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