segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Nunca conseguiria ser médica


Há uns tempos, em Patologia, a nossa professora quis mostrar-nos um caso hospitalar que foi reportado com relatório e fotografias. Porém, como as fotografias eram bastante chocantes não obrigou quem não quisesse a ver, até porque nem era de urgência máxima para a cadeira e não estamos a tirar Medicina, ficando apenas um pequeno núcleo da minha turma (eu inclusive). 

Enquanto a professora passava as imagens de uma menina de 3 anos altamente desfigurada, apercebi-me que a minha inquietação ao ver as imagens não era o horror da desfiguração, do sangue ou das mazelas (em nada me impressionou ou chocou, eu aguento bem essas "imagens") mas sim algo que acabei por dizer em voz alta: "Os pais. Esta sensação de impotência ao verem a filha deles em tal estado e não a poderem proteger nem defender". 

Tal comentário fez com que a minha professora imediatamente olhasse para mim e sorrisse: "Aí está a prova de que você não poderia ser uma médica. Nunca, mas nunca pode pensar nos familiares. Tem de manter uma postura fria e sem qualquer ligação. Apesar de parecer o contrário, a partir do momento em que pensa nos familiares, perde a sua capacidade médica, que é aquilo que eles mais precisam. Eles não querem a sua compaixão, querem a sua competência. Amor e carinho eles já sabem dar. Tratar da doença dela é que eles não sabem fazer e contam consigo. Só tem de fazer o que está formada para fazer. Até ao último esforço".

O discurso dela fez-me pensar imenso. Faz todo o sentido. Não estou a seguir uma carreira em Medicina (nem lá perto) mas fez-me pensar, sem dúvida, que faz todo o sentido. Concordo com ela, não conseguiria ser médica. Não iria conseguir pôr o meu coração de lado. Não conseguiria ser uma Yang. As minhas emoções iriam, inevitavelmente, levar a melhor e eu não conseguiria apenas dar tudo do meu profissionalismo. Eu ia levar o meu coração comigo.

Não é o sangue, nem as feridas abertas, nem orgãos ou vísceras que me impressionam. É a fragilidade e a impotência. 

17 comentários:

  1. A tua professora tem razão, Medicina exige muito sangue frio.

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  2. Percebo o que dizes... Eu não consigo ficar indiferente a certas situações, nós, futuros médicos e médicos, também temos sentimentos (o meu irmão, por exemplo, é das pessoas com maior coração que conheço). Mas, de uma forma ou de outra, temos de ter igualmente a capacidade de colocar o coração ao largo...
    Beijinho*

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  3. Eu também nunca conseguiria ser médica! Em parte por isso!

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  4. Impressiona-me o mesmo que tu e é disso que tenho receio por ser de psicologia, apesar de não precisar dessa frieza. Em que curso estás?

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  5. Eu começo a achar, por diversas situações que tenho visto, que ser médica também não é para mim!

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  6. É por isso que os médicos são todos frios.

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  7. "Uma Yang" acho que não conseguiria ser, mas era capaz de ser "uma Meredith" ahahahah

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  8. Confesso que isso me fez pensar, nunca tinha visto isso dessa perspetiva...

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  9. Eu também não conseguiria ser médica, precisamente pelo mesmo motivo.

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  10. Não consigo concordar. Pelo menos em veterinária onde existem os donos (que na maioria das vezes consideram os animais a sua família). Quanto a cadela da minha tia ficou doente e teve de ser eutanasiada, a veterinária chegou ao pé de nós a chorar com os resultados na mão. Isso não quer dizer que não possa ser médica, as pessoas têm sentimentos e se não os consegues por de parte não quer dizer que não consigas ser uma excelente profissional. Outro exemplo é de quando eu tive o primeiro contacto com os donos de uma cadela que entrou de urgência no nosso hospital. Nunca tinha lidado com aquilo e quando a senhora começou a chorar pois considerava aquele animal a sua única família e não queria perdê-la, não deixei de ficar emocionada. Mas claro, tentei não mostrar e reconfortei-a a dizer que ia ficar tudo bem. Os médicos são humanos e não acredito que tenham de ter sangue frio :)

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  11. Às vezes, sentir compaixão pelas famílias também é um sinal que faz com qu as famílias se aproximem mais e acreditem mais no médico em questão.

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  12. Eu também nunca teria estofo para ser médico, impressiono-me com bastante facilidade.

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  13. Ser bom médico é ser insensível ao sofrimento dos outros?
    Não sou médica nem estudante de medicina. Sou estudante de enfermagem e em quatro anos de curso nunca contactei, pessoal ou profissionalmente, com um médico que fosse mais competente por ter as características referidas por essa tua professora, muito pelo contrário...
    Acho que como jovens temos de começar a desconstruir e eliminar este estereótipo e preconceito dos nossos pais e avós.
    Quando uma pessoa está doente, continua a ser uma pessoa, inserida no seu contexto e na sua família. É normal que a família sofra quando um dos membros está doente... Ser bom médico é ignorar a família e o seu sofrimento? Sim, ser bom médico é fazer um diagnóstico e passar umas receitas. Mas ser um excelente médico é fazer isso e ainda ter a humildade de compreender o sofrimento da família e, se for preciso, chorar com eles. Ser um excelente médico é ouvir a família e perceber que o que está ali são pessoas. Lá porque a família sabe amar os seus, não quer dizer que a família não precise de receber palavras de afecto e compreensão.
    Ao contrário da tua professora acho que darias uma excelente médica se fosse essa a tua vocação, ao contrário dela.

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  14. R: Eu percebi o que quiseste dizer :P só acho que alguns comentários por aqui estavam a dar a entender que interpretaram de outra forma o que disseste...

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  15. Eu não conseguiria por tudo, por aquilo que falaste e também pela parte das fridas e etc. Faz-me impressão e é por isso que os médicos me impressionam. Têm força a todos os níveis!

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  16. Não concordo com a tua professora. Conheço imensos estudantes de medicina, que acredito que serão excelentes médicos, que têm um coração gigante e que mostram compaixão. A compaixão é um valor muito importante e, provavelmente, só impulsiona mais a vontade de sermos competentes, de ajudarmos, de salvarmos.

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