segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

CONTA-ME || A Leitora


Quando deu por si, ele já sabia todos os costumes e traços dela. Não era um facto a que ele estivesse propriamente atento, ou sequer propositado, não. Fluiu naturalmente, de tal forma que assustou-se quando deu por si a saber cada passo que ela daria a seguir.

Começou com a procura de um livro. Há muito que já não visitava bibliotecas, considerava-as até obsoletas e antiquadas. Tinha tudo à distância de um clique, de um toque, de uma pesquisa rápida. E, portanto, demorou muito mais do que esperava na sua procura interminável por um livro nas 18 estantes disponíveis da biblioteca (facto que ele jamais saberá, a não ser que faça uma pesquisa rápida no Google).

Sabia o título, nome de autor, editora e até as duas capas seleccionadas para duas edições diferentes. E quando finalmente o viu, sentiu um enorme desconforto por o livro certo estar nas mãos erradas. Certamente não eram as suas e praguejou por as bibliotecas terem tão poucos exemplares.

Podia comprá-lo, mas não o encontrava em lado algum e não queria mandar vir da internet porque precisava de sentir as páginas velhas a que uma edição antiga é brindada. Portanto, feito predador de capítulos e aventuras de papel, pegou num jornal desportivo de há três meses, sentou-se e aguardou que ela finalmente se cansasse e o pousasse. Valia a pena e rezou a todos os santos que ela não o levasse. Se o estava a ler na biblioteca, com certeza não o iria levar. Quem iria trocar o conforto de ler um livro no seu lar pelas mesas desconfortáveis de uma biblioteca?

Mas não foi nesse dia que pôde levar o livro, pois com ela o levou, o que o deixou ainda mais desconfortável. E por isso, esperou uns dias e voltou lá, para o buscar. E mais uma vez, ela estava sentada, na mesma mesa, a ler o mesmo livro. Fazia-lhe uma tremenda confusão a sua preferência pela biblioteca para ler um livro que, claramente ela havia requisitado. Como se lhe quisesse exibir que tinha chegado lá primeiro. E ele, obstinado, recolheu exactamente o mesmo jornal e esperou, não poupando olhares fulminantes à rapariga. Uma grande falta de consideração por um leitor desesperado como eu, pensou.

E tanto andou nesta dança do aguardar que reparou nos seus traços e manhas. Não lia sem apanhar o cabelo mas a madeixa esquerda teimava em cair-lhe nos olhos. Com muita paciência, ela voltava a colocá-la atrás da orelha, sem nunca se chatear. A cabeça sempre a pender para um dos lados e o indicador pronto para virar a página. Não humedecia o dedo, preferindo ir fechando o livro e abrindo-o na página certa. Umas vezes punha a mão no queixo para repousar a cabeça e outras encostava-se para trás. Ele desconfiava que eram nas partes mais emocionantes. Por vezes, ela mordia o lábio e ele tinha a certeza de que ela nunca iria dar por isso. E sempre que terminava de ler, fechava os olhos por uns segundos antes de os abrir e levantar-se lentamente, pousando o livro com um cuidado desmedido.

Depressa se apercebeu que começou a aparecer todos os dias na biblioteca, não para aguardar o livro mas para a observar. Em gestos tão simples e discretos que se sentia mal por a saber de cor sem ela sequer ter em conta. Sentia que não devia, que era pouco cortês e um pouco assustador. Mas irresistível. E a cada dia que lá ia e tomava conta da sua presença, era um dia mais acolhedor. Chegava a desejar que o enorme livro não terminasse, só para ter a certeza de que a poderia ver para sempre. Sabia mais detalhes dela do que ela própria alguma vez viria a descobrir.

E foi por isso mesmo que os seus pés gelaram quando se dirigiu, mais uma vez, para a biblioteca e não a contemplou. Procurou-a por todo o lado (até no bar vazio) e nem um sinal dela, da sua presença serena. Sentiu-se sem saber o que fazer. Já contava tanto com ela, sem a mesma saber, que já não sabia o que fazer, sentido que não a veria mais, sentindo-se perdido. Então, dirigiu-se à prateleira onde deveria estar o livro, da primeira vez que o procurou. E ali o encontrou, a lombada tal e qual se lembrava, mas sem as mãos esguias e magras dela. Rapidamente, retirou o livro da prateleira e observou-o. Um pequeno papel encontrava-se preso no interior do livro e uma chama quente inundou-lhe o peito de expectativa. Tinha a certeza de que era dela, mesmo sem reconhecer a letra ou o nome que lhe poderia estar associado. E, quando o leu, não conseguiu evitar que um sorriso lhe desenhasse os lábios e as bochechas corassem de vergonha.

"Da próxima vez, folheie as páginas do jornal, pelo menos. Boas leituras."



Todos os meses, no dia 5, irei tentar publicar um conto.

6 comentários:

  1. Tão bonito, estou ansiosa pelo próximo! :D

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  2. Gostei mesmo muito! Este pequeno conto fez-me relembrar aquela história fantástica que escrevias no Teorema e é bom ver que esse dom para as história não te abandonou :) Aguardarei o próximo :)

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  3. Está tão awesome! Como assim eu não conhecia este teu lado de escritora? Opá adorei, quero dia 5 todos os dias, pode ser? Ahaha :D

    R: Fico à espera que também a faças okok (:

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  4. Este está simplesmente espetacular :)

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