sábado, 5 de julho de 2014

MUNDO || Am I Good Enough?


Há algo que nós, mulheres, por mais ou menos femininas que sejamos, vamos ter sempre: um complexo. É um facto matemático que nós temos sempre um complexo, muitas vezes intensificado pela vizinha do lado. Ou a galinha. O que queiram então chamar.
E quem diz que não tem complexos nenhuns mente descaradamente.
Há uns complexos mais complexos que outros. Depende da situação. Mas há sempre um que nos persegue os pensamentos, algo que não nos deixa, abraça desde miúdas e fica connosco como um monstro apaixonado: serei boa o suficiente?

E raramente nos referimos ao boa que os homens adoram referir. Bastarei? Tenho tudo o que é preciso?
É a pergunta mais ridícula e penso que só fica em segundo lugar porque existe ainda o "Será que estou gorda?" mas que atire a primeira pedra qual não foi a mulher que o pensou. Oh, tantas e tantas vezes pensamos isso. É inevitável. 

A minha teoria é que nos conhecemos há demasiado tempo. Eu, por exemplo, conheço-me há quase 20 anos e já estou cansada das minhas neuras e birras pessoais. É uma chatice, dá-me vontade de dizer "amiga, acalma-te lá com a mariquice das ansiedades!" E conheço-me há tanto tempo que me pergunto se é, de facto, com a minha pessoa com que ele quer ficar. 
Pior que isso só quando estou a voltar da rua de calções e t-shirt encharcada, o meu cabelo num conflito armado com o elástico que, supostamente, servia para o prender, com a cara mais vermelha que uma pessoa com um choque anafilático por causa de uns amendoins e com um respirar de cão depois de uma corrida que me deixou no tapete e vejo a rapariga mais gira, com a roupa mais gira e (para me meter um grande nojo) com o cabelo impecavelmente apanhado, tão apanhado que dá nervos e vontade de o despentear. Mulheres.

Não é raiva dela, até porque (para me meter ainda mais nojo) ela viu-me a passar e, mesmo não me conhecendo, disse "boa tarde". Ou seja, além de gira era bem educada. Ou talvez tivesse compaixão com pessoas cujos pulmões estavam a sair pela garganta. E a raiva não é dela. É de não termos nascido assim. Oh, Deus, porque não nasci assim? Porque é que não posso ficar fabulosa depois de correr? Porque é que tenho de corar como um bicho venenoso que muda de cor para fazer de repelente, porque é que temos de ter pernas assim ou altura assado? Porque é que não podemos ter todas o dom de ser modelos lindas e maravilhosas? Porque é que não podemos nascer ricas também, com conta bancária infinita?

E pensam vocês (homens, as mulheres compreenderão esta dor que nos bate no peito) que só diz respeito à aparência. Mas não. Porque ela cozinha e é prendada, enquanto nós somos capaz de meter a massa a pegar fogo, ou porque ela já fez X e nós nem conseguimos fazer Y. Não é ela, nunca é ela, somos nós. Nós não odiamos a vizinha do lado, odiamos que haja esta desigualdade de fabulosidade entre as mulheres.

Chegamos a casa com a pergunta inevitável. Serei boa o suficiente? Com mau feitio, cabelo gerrilheiro e conflituoso, bochechas vermelhuscas, pernas NADA parecidas com uma modelo VS e uma t-shirt velha? Seremos boas o suficiente a pegar fogo à cozinha? Ou sendo esquisitinhas a comer? Ou comendo tudo o que há? Ou não sabendo como fazer X e Y?

Somos. Somos boas sim. Em todos os sentidos que me apetece referir. Somos todas maravilhosas e bonitas e não estou a brincar em nenhuma letra que aqui coloco. Somos.

Somos lindas sim. Com cabelo revolto ou bem apanhado. Com bochechas que coram - essas mal criadas - ou as que não coram, at all. Somos AWESOME de t-shirt encharcada ou top sequinho. Com ou sem a barriguinha, com mais ou menos rabo. 

São espectaculares as que fazem 15 bolos sem se despentearem e as que (perdoem-me a expressão) cagam a cozinha toda, móveis e ainda a casa de banho porque uma divisão só não chega para fazer um pudim. As que precisam de mais tempo para serem convencidas a entrar numa aventura ou as que se atiram de cabeça. As que comem tudo e são bom garfo e as que olham para todos os alimentos que não gordices com um ar desconfiado.

Somos lindas porque aturamos as nossas birras e neuras há anos e ainda cá estamos, lidando com estes complexos todos os dias e fazendo progressos a cada dia que passa, tornando-nos mais fantásticas e giras e engraçadas a cada momento que passa. Não há raparigas melhores ou piores. Ela nunca será melhor que eu e eu nunca serei melhor que ela. Não existem melhores, existem escolhas, as pessoas que escolhem estar connosco, mesmo com todos os defeitos que possamos ter. Ter defeitos não significa ser imperfeita. Nunca significará.

A única escolha que não pudemos, ainda, fazer na vida é nascer no corpo e na mente que quereremos. Mas nem que me pagassem eu iria para outro corpo. Eu fico com as minhas neuras, birras, com os meus conflitos de calças e com as minhas crises académicas. Eu não me troco. E gosto de mim, mesmo que às vezes tenha um nojo do pior daqueles cabelos bem apanhados. Ela é fabulosa no cabelo mas eu sou fabulosa a aguentar 20 km de corrida sem uma única dor de burro. Fica com o teu troféu, eu levo o meu para casa. Eu posso ser uma tragédia grega a física e um pouco a matemática, mas faço equações químicas de olhos fechados e a traduzir os Coldplay. Eu posso não saber como fazer um bolo de chocolate mas sei como o comer de forma profissional com alguém que goste ao meu lado, enquanto vejo um filme ridículo. Oh, se sei! 

E quem nos escolhe, quem fica do nosso lado, quem atura as nossas birras e neuras, merece tudo de nós. E merece também que nós pensemos que somos o suficiente. Somos o suficiente para nós e é a partir daí que podemos ser suficientes para os outros. E quem cuida de mim despenteada, de t-shirt imunda, pernas chatas, mau feitio e perguntas parvas faz-me sentir ainda mais fabulosa do que, por natureza, eu sou por ser mulher.

Bem haja a ele, que preferiu um conflito armado capilar. E bem haja aos vossos, que vos amam com os vossos complexos. Devíamos começar a fazer o mesmo.

11 comentários:

  1. E, sem grandes palavras digo: é por isto que te leio.

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  2. "Não existem melhores, existem escolhas, as pessoas que escolhem estar connosco, mesmo com todos os defeitos que possamos ter." - Não poderia concordar mais e ao ler este texto até fiquei com a auto estima mais alta :)

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  3. Acontece-me isto quase todos os dias, mas para quê querer ser como os outros se podemos ser nós? Há poucas coisas mais interessantes do que a singularidade(sejam virtudes ou defeitos) de uma pessoa.

    ( Este post fez-me lembrar isto. )

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  4. Eu acho que hoje me vou alongar contigo. Porque tu mereces que o faça. Leio-te de trás para a frente e de frente para trás. Já muitos textos teus me fizeram rir. Rir mesmo muito! Graças a Deus (posso dizer assim) que tens essa capacidade de fazer os outros rir lendo-te. Adoro isso, adoro chegar aqui e mandar gargalhadas puras! E depois, tens este texto, que tanto me faz vir lágrimas aos olhos como me faz rir. E caramba, só te conheço a ti que faça isto! És tão brilhante!
    Estava MESMO a precisar de ler isto hoje, em que senti 500x que não era boa o suficiente. E agora sou! Depois de ler isto. E vou colocar isto algures para ler, todos os dias que me lembre. MUITO OBRIGADA!

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  5. Tens o dom de fazer os outros sentir-se melhor e devias seriamente pensar nisso. Pelo menos a mim fazes. Sinto-me sempre melhor com as tuas palavras.

    Tens credibilidade nas tuas convicções e isso é muito raro. Obrigada por existires :')

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  6. Adorei! És incrível mesmo! É por coisas como estas que escreves que és a minha blogger preferida! :)

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  7. Sem palavras! Só isto: Obrigada! :)

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  8. CARAMBA, obrigada por teres escrito isto. Melhoraste muito o meu dia. <3
    Beijinho*

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  9. és verdadeiramente fantástica. adoro imenso o teu blog !

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