terça-feira, 15 de julho de 2014

ISTO É TÃO INÊS || Sou jovem até quando eu quiser.


Estava a fazer uma corrida de final do dia com a minha avó quando começámos a falar de estar e ser jovem. Fui-lhe sincera (como sempre fui e sou com ela) e confessei-lhe que havia algo na idade avançada que me preocupava e deixava assustada. Mas que, quando olhava para ela, essa insegurança me abandonava. Ela deu uma gargalhada e depois disse algo de grande valor: "Há uma altura na nossa vida em que sentimos que estamos finalmente encaixados no mundo. É uma altura em que tudo parece estar certo, mesmo quando há dezenas de problemas e a paz mundial está no fundo do túnel. Mas... Tudo faz sentido. A tua idade faz sentido, a tua postura faz sentido o que estás a viver e pelo que vives faz sentido também. Há quem se sinta assim muito, muito novo, há quem se sinta assim aos 40 anos. E eu... Confesso: Eu sinto-me assim neste momento. Eu nunca fui tão jovem como sou agora. O que é o raio de uma ironia, não achas?"

Não continuámos muito mais esta conversa porque o fôlego apertava nos km mas fui todo o caminho a pensar nisso e não pude evitar pensar: Eu estou nesse momento. Acredito que estou porque nunca a minha vida fez tanto sentido. 
Sempre tive um ar muito mais jovem do que a idade que figura no meu cartão do cidadão e sempre tive muitos pensamentos que acredito que estavam deslocados para a minha tenra idade. E agora... Sinto que está certo. Que as três parte que fazem o que sou: a minha idade, a minha aparência e a minha mente estão conjugadas como três holofotes de cores diferentes projectados na parede que fazem uma só cor. Nunca antes tinha sentido isso. Nunca quis crescer. Nunca quis ser mais velha. Sempre fui um Peter Pan. Mas... Estou bem assim. Gosto desta idade. Gosto e estou a vive-la como um bolo delicioso que depressa pode acabar.

Posso conduzir e posso meter o volume na altura que mais quero, com óculos de sol e cordas vocais a dar o máximo. Posso ir ao McDrive e pedir um Happy Meal enquanto o homem olha para a minha carinha e pergunta-me como é que uma fedelha de 16 anos está a conduzir. Podia beber, se quisesse e posso ter capacidade argumentativa de explicar porque não bebo. E posso ser respeitada por isso porque tenho amigos com a mesma maturidade que eu e não adolescentes parvos. Posso dançar a noite toda até cair sem pensar que tenho filhos para acordar amanhã. Posso ir à praia, posso namoriscar, posso estudar. Posso estar na Faculdade e focar-me apenas em ter boas notas. Posso ter descontos por ter menos de 25 anos e posso ver os filmes que me apetecer de terror porque tenho a idade mais que ultrapassada. Posso correr 25 km e ainda tenho audácia para pegar no carro e ir aquela festa de final de tarde na praia. Posso dar o corpinho num jogo de 40 minutos e dar cabo de mim, amanhã estou bem. Posso beijar na rua, são só "jovens apaixonados". Posso estar envolvida em projectos ligados ao que quero fazer de carreira e estar na front-line de um concerto que me faz abanar a cabeça do início ao fim.

Posso viajar por conta própria e posso fazer castelos na areia com os mais pequenos. Posso comer Epá e posso gritar "EPÁ MAS TU VAIS ANDAR OU VAIS ACAMPAR NO MEIO DA ROTUNDA?!". Posso usar sapatos altos sem rezar às cruzes e posso usar ténis. Posso dançar na rua e vão achar que sou doida e mais uma adolescentezinha que anda a "chutar" e não sabe o que quer na vida. Eu não me importo. Eu posso viver.

Eu não estou a dizer que todas as outras idades e gerações são inválidas ou que vou deixar de poder fazer as coisas que escrevi lá em cima. Eu invejo a jovialidade da minha avó, a capacidade com que ela tem de fazer coisas, de cozinhar, de correr, de meter ordem no meu avô e de lhe dar um abre olhos quando ela, enquanto mulher, não foi educada para ser sua parceira, sua abre-olhos, mas sim sua criada. É uma garra que quero ter. Mas o que eu percebi que ela disse foi que somos jovens quando e quanto quisermos. Há uma altura em que a vida faz sentido, e sermos faz sentido. Em que somos as pessoas mais jovens do mundo. Porque ser jovem não significa ser novo mas sim autêntico. Saber viver e saber ser feliz. E podemos ser e sentirmo-nos jovens a qualquer momento. A minha avó escolheu ser jovem depois dos 50 anos. Eu decidi ser jovem (bem diferente do ser "jovem" que está inerente ao facto de sermos novos) aos 19. E depois de muito tempo a pensar, voltei a ser-lhe sincera: "Tenho medo que esta sensação de ser jovem acabe, um dia. Tenho medo que não perdure." E ela fez-me o sorriso mais jovem que já vi na minha vida e disse, de bochechas rosadas "Tu és jovem até quando quiseres. A única pessoa que pode impedir de seres jovem és tu!"

E então decidi-me; Eu vou viver as coisas sempre como se fosse a última fatia do meu bolo favorito. Os problemas existem e as vontades mudam e sabe bem crescermos e termos novos projectos na vida. Um dia eu vou preferir deitar os meus pequenos numa cama em vez de sair. E outras vezes eu vou pedir à minha mãe para tomar conta deles porque há uma boa festa, bem gira, para viver. Mas não me vou impedir de ser jovem e espontânea. E, agora, ainda que com todos os obstáculos, tudo faz sentido na minha vida. E estou a saborear esta fatia de bolo como se fosse a primeira vez que tocou no meu paladar. E vou viver tudo o que gosto com esta sensação de plenitude que nunca antes tinha sentido e que recomendo.

Eu serei jovem até quando eu quiser. E que venha alguém impedir-me do contrário!

10 comentários:

  1. Estou assim, também. Há coisas impagáveis nesta vida e a felcidade, a concretização, a jovialidade, o poder... são essas coisas! :)

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  2. R: Talvez por isso não acredite na distância. É completamente utópico na minha perspectiva. E talvez por ter passado por isso e por ter sido a que morre e não relaxa, tenha esta opinião tão convicta. Comigo sei que não dá...

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  3. Continua assim, jovem. O mundo precisa de ti assim :)

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  4. Gostei imenso do teu texto e acho que adoro a tua avó ahahahah

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  5. Adorei o texto. Quem me dera ter uma avó assim, a sério!
    Fico feliz por neste momento o mundo fazer sentido para ti e o facto de cresceres, não implica que te vás deixar de sentir jovem. Como tu disseste, desde que a idade, a aparência e a mente estejam conjugadas, a evolução não é má :)

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  6. O teu texto saciou-me a felicidade e a jovialidade, porque me sinto tal e qual como te descreveste. Nós somos o que queremos e como queremos, e se queremos ser jovens, seremos até quando o quisermos! Do meu ponto de vista, não há nada melhor que aproveitar a juventude, porque porra, nós merecemos!

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  7. Que texto mais lindo, Inn! Devorei cada palavra e sinto-me como tu!
    Beijinho*

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  8. Adorei e eu espero por esse momento, em que me sinta completa e de perfeito encaixe na vida!

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