domingo, 23 de março de 2014

AMOR || Sinais


Hoje tropecei num par de botas que estavam na sala e, à conta disso, parti o copo que estava na minha mão e estatelei-me no chão. Decidi interpretar isto como o derradeiro sinal. Há semanas que estava a dizer que ia tirar as botas dali, insucesso completo. O prémio foi um cotovelo negro, um chão para limpar e não andar de meias em casa durante três dias (não vá um vidro cortar-me). 
Interpretei isto como um sinal, porque às vezes é o que nos falta. Olhamos para as botas na sala e dizemos "depois eu mudo-as", olhamos para a pilha de camisolas que vamos acumulando na cadeira e dizemos "no fim de semana arrumo", olhamos para as nossas secretárias imundas de papéis e rascunhos, aparos de borracha, canetas, que escrevem, que não escrevem, a cores e grafias e dizemos "não vou mudar, porque o semestre, o período, a escola não acabou. Pode fazer falta". 

Não resistimos a comprar o pacote das batatas fritas porque a dieta é amanhã e estamos tão vazios cá dentro. E não apagamos as mensagens porque "Hoje não consigo, amanhã tenho nova força para as apagar". Não Nos decidimos finalmente a superar os nossos abismos do passado porque hoje não dá jeito. Amanhã arrumamos a sala, o quarto, a secretária, o telemóvel e, já que estamos prontos para amanhã, arrumamos a cabeça, os sentimentos e o coração.

E é então que recebemos os sinais. Tropeçamos nas botas, estatelamo-nos no chão e as coisas partem-se. Procuramos desesperadamente a nossa camisola favorita e vemo-la ali, serena, em cima das costas da cadeira junto à pilha de roupa, amachucada  e inútil para ser usada de momento. Damos em loucos para encontrar a ficha de trabalho no meio da papelada e não aparece em lado nenhum. Comemos doritos até acabarem porque não apagámos as mensagens e, céus, como dói. Mais do que um corte de vidro na mão. Ou no pé, por andarmos de meias depois de termos partido coisas. E não seguimos em frente com as coisas porque amanhã o faremos, até os sinais chegarem e tudo doer.

A dor de sermos estúpidos é a maior de todas as dores e mesmo assim não há ninguém que não o seja. É a dor que nós próprios provocamos e é por isso que dói mais. Dói por si só e dói porque nos sentimos culpados por nos mutilarmos dessa forma. Não avançamos por nós próprios porque pensamos que, algo vai mudar e que as coisas se resolverão sozinhas. Achamos que, um dia, vamos chegar a casa e ver as botas arrumadas, a camisola no armário, as folhas numa pilha, o telemóvel sem o seu contacto, sem memórias, a despensa vazia, o coração corado, a alma restaurada. Achamos que vamos acordar e puf. Estamos restabelecidos. Foi só uma ressaca má que passou com uma boa noite de sono. Esquecemo-nos que nada vai acontecer se não nos movermos, hoje, agora. 

Por isso, limpei o chão, apanhei o cacos do copo. Calcei pantufas. Arrumei a secretária, as roupas. Apaguei as mensagens. Apanhei os cacos do meu coração. Os maiores. 

É pena a minha alma não poder calçar pantufas. Vai sempre haver um pequeno caco que me escapou das mãos a cortá-la. 

19 comentários:

  1. Este post deve ter lugar guardado na rúbrica da Carolina, estou a ver! Adorei Inês, adorei mesmo :)

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  2. Acabei de ler isto e suspirei. E acho que estou com lágrimas nos olhos. Não, estou mesmo. Fogo. Acho que vou ali, num instante, arrumar a roupa que tenho desarrumada. Arrumar os papéis que tenho espalhados na mesa enquanto estudo. Apagar as mensagens que decidi que apagava amanhã.
    Obrigada, Inês!

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  3. r: Eu sei, croma! Estou-te a dizer que está tão bom que merece lugar na rúbrica de certeza. Escreves por paixão e isso é claro :)

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  4. Gostei mesmo muito do texto. Acho que é um dos teu melhores :)

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  5. vou arrumar as minhas cenas, Inês.

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  6. Lindo, lindo, lindo! Tivesses escrito isto há quatro anos atrás e eu teria arrumado as minhas coisas antes de ter sofrido tudo o que sofri. Se não te importares vou partilhar esta tua postagem porque, sinceramente, todas as pessoas deveriam lê-la!

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  7. Está tão amoroso! A sério, pareceu-me mais que digno de uma crónica de jornal! Mais digno do que muitas que por lá se escrevem. Deste-me força para ir já arrumar as minhas coisinhas, e principalmente, engavetar o meu coração e deitar fora o que só o está a magoar (como os cacos de que falas!)
    Olha, obrigada por isto que escreveste, suspirei:)

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  8. Simplesmente lindo! Tens muito jeito para escrever e para nos introduzir no teu mundo, na tua ideia. Talvez devesses publicar um livro porque tens capacidade para o fazer. És muito profunda e, ao mesmo tempo, direta. Parabéns! Tocaste-me muito.

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  9. Que texto mais lindo, Inês! Adorei! Força!
    Beijinho*

    R: Tens de partilhar o link da publicação comigo. Eu expressei-me mal no texto mas já tentei mudar isso Não é preciso enviar a foto! :p

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  10. Conheci agora o teu blog e fiquei estupefacta! Escreves tão, mas tão bem. Adorei este texto, e vou pôr o blog nos marcadores para qd tiver um tempinho vir cá ler mais algumas coisinhas. Mas sigo desde já! Fizeste bem em fazer uma "arrumação de primavera", às vezes é só disso que precisamos para seguir em frente :) Um beijinho e boa semana*

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  11. Simplesmente perfeito. Certeiro e inspirador!

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  12. Adorei este texto, já tinha comentado no blogue da Cláudia :) Parabéns querida.

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  13. Este texto está qualquer coisa de fenomenal. Descobri-o no blog da Claúdia.

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  14. Acho que nunca, em toda a minha vida, um texto fez tanto sentido para mim. Tu tens o dom de tocar as pessoas com as tuas palavras e a mim estas atingiram com uma força inimaginavel ... oh, Inn, obrigada por partilhares estas palavras. Inspiraram-me :)

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  15. R: Não sou contra esse tipo de praxes que descreves, nem acho que é tudo farinha do mesmo saco - para toda a regra há uma excepção. Não consigo é achar piada, sei lá, não consigo concordar com o sentido (?), aliás, não consigo é encontrar sentido, ver sentido em ser praxado - não me estou a referir às praxes violentas, agora. Acho desnecessário, uma perda de tempo, talvez. Sei que quem não é praxado se sente um bocado excluído, um bocado à parte, e é isso a principal razão para eu não concordar: não se deve excluir uma pessoa só porque teve uma opção diferente da nossa, não é? Conheço muitos casos assim e revolta-me um bocado... Mas, claro, longe de mim recriminar quem defende e é favor, cada um tem a sua opinião e temos que saber respeitar para viver em comunidade. Obrigada!
    Em relação a este texto, está realmente fantástico. Se o tivesses escrito mais cedo e se eu o tivesse lido mais cedo, não teria sofrido. Acredito que estas linhas tenham ajudado muita gente a arrumar as coisinhas :')
    Beijinhos*

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  16. É impossível expressar o quanto esse teu texto me fez pensar e mexeu comigo, interligou-se em recantos da minha pessoa que nem eu própria reconhecia e wow.
    Obrigada :) e fico feliz por ti, por fazeres as mudanças necessárias para te sentires melhor contigo própria e com o mundo

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  17. Lindo lindo lindo. E depois disto, vou arrumar a secretária, porque a escola ainda não acabou mas já chega de vidros e coisas fora do lugar a cortarem a alma!

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