terça-feira, 25 de abril de 2017

FILMES || Human


Um filme documentário de Yann Arthus-Bertrand que estava tão curiosa para ver! Human reúne pessoas de 60 países diferentes com 2000 histórias para contar. Através de um olhar muito técnico, fotográfico, intenso e hipnotizante, o ecologista mostra-nos o quanto os costumes, a cultura e a própria natureza humana são tão belos e interessantes. Apresenta-nos uma série de pessoas comuns com visões distintas sobre os mais diversos temas como o amor, a felicidade, a morte, família, guerra, entre outros. Dão as suas opiniões com base nos seus testemunhos, nas suas vivências, na sua educação e até no próprio background cultural.

É extraordinariamente interessante ver como somos tão iguais mas, ao mesmo tempo, tão plurais. Como duas pessoas, com vidas completamente distintas conseguem, ainda assim, procurar os mesmos afectos ou considerar sentimentos e emoções de formas totalmente divergentes. Como duas pessoas podem ter no seu caminho o mesmo obstáculo, mas ultrapassam-no de maneiras opostas. Este é um documentário que nos apresenta a beleza da diversidade, do contacto com realidades muito diferentes da nossa. Faz-nos sair da bolha e perceber que nem toda a gente tem a mesma visão sobre uma série de assuntos que nós consideramos de definição global, erradamente. E faz-nos relativizar muitos dos nossos problemas e dramas. 

É fascinante como Arthus-Bertrand conseguiu cativar pelas palavras tão genuínas dos entrevistados (das mais diversas classes sociais e com experiências sociais e profissionais completamente opostas) mas também pelos pormenores fotográficos e visuais que não nos deixam indiferentes. O enquadramento dos entrevistados. O foco tão técnico no sorriso de uma criança. A luz certa para vermos o brilho nos olhos de uma senhora. O jogo de movimentos em câmara lenta que nos permitem admirar a própria Humanidade (de tão complexa, diversa e similar que é). Um trabalho magnífico que só podia ser feito por um fotógrafo e que vocês podem assistir, na íntegra, pelo Youtube através de três volumes, que deixo aqui abaixo. Envolvente.


Nota: Se activarem a opção das legendas nos vídeos do Youtube, podem ter acesso ao nome e origem de todos os entrevistados do documentário. Magnífico!

domingo, 23 de abril de 2017

LIVROS || 5 Livros que Me Marcaram (e porquê)


A convite da Sofia Costa Lima, e no contexto do Dia Mundial do Livro, recebi a proposta de partilhar convosco os 5 livros que me marcaram. Como já tenho uma publicação sobre os meus 5 livros preferidos, eu decidi partilhar, nesta publicação, livros que, mesmo não sendo os meus preferidos, tiveram um grande impacto, em mim. Que me fizeram reflectir, chorar, nunca esquecer a história. Não são necessariamente tristes mas sem dúvida que, por mais anos que passem, eu não esqueço o que estava dentro dessas páginas e, de alguma forma, transformaram-me. Não há uma ordem específica.

sábado, 22 de abril de 2017

DAILY || Há sempre boas notícias ao virar da esquina


Eu admito: quando acordei, só desejava que aquele dia fosse cancelado. Nem precisava de abrir a agenda para saber de cor todas as tarefas e trabalhos que tinha reservados para o dia, embora não estivesse programado nada de entusiasmante. Nesse campo, a folha estaria em branco e isso estava a desmotivar-me.

Tratei de todos os meus assuntos, cruzei todas as minhas tarefas e recebi o João em minha casa. Pior do que estares triste é veres uma criança ficar triste por te ver triste. E na sua doçura infantil, deu-me um abracinho e disse-me "Podemos ir passear à rua?". Não tinha vontade nenhuma de sair de casa, mas vi que ele estava com esperanças de que dissesse que sim e decidi fazer-lhe a vontade. Lá fomos os dois no carro a ouvir o último lançamento dos Coldplay e procurar um sítio giro para lanchar.

Um gelado para ti, um bagel de queijo creme para mim e um sumo de manga e laranja para os dois. De repente, o dia já não parecia tão escuro. Ele sempre a falar e a contar histórias. Não há nada melhor para curar dias tristes porque são sempre narrativas simples e que só exigem um pouco de atenção e imaginação suficientes para acompanharmos todos os raciocínios. Começámos a dar um passeio despreocupado pelas ruas - sempre a tagarelar - e demos com uma loja pequenina mas cheia de artigos em segunda mão, que decidimos espreitar.

Era como um pequeno sotão cheio de tesouros que, para alguém, não valiam nada e, para outros, podiam valer tudo; roupa, cerâmica, livros, acessórios, filmes e até jogos. Cada um foi para o seu canto para espreitar tudo e foi então que vi o meu filme preferido de comédia na prateleira. O DVD que andava há tanto tempo há procura e que não encontrava em lado nenhum estava ali, solitário, a um euro. Os meus olhos brilharam de felicidade. O filme não é nada de especial ou de extraordinário, a comédia é non-sense barata mas sempre fez recordar a primeira vez que o vi, em Aveiro, com a minha mãe e a minha madrinha, na sala. Perdidas de riso, esse filme ganhou o meu coração. Quando íamos alugar filmes, às sextas-feiras, eu e a minha mãe escolhíamos sempre algumas novidades mas não resistíamos e tínhamos sempre de levar este filme de comédia, só para sermos felizes garantidamente. Parecia que aquele DVD estava ali só mesmo para me fazer sorrir. O João apareceu aos pulos porque tinha encontrado um jogo que andava há imenso tempo a namorar. Decidimos levar os nossos tesouros para casa.

Experimentámos o jogo durante horas e terminámos o dia a ver o filme. Eu a rir das piadas que já conhecia de cor e salteado, ele a rir delas pela primeira vez e a torná-las suas. Foi só um simples filme abandonado mas que me fez rir e sorrir. Que fez um dia, que afinal valeu a pena, terminar de uma forma tão deliciosa e nostálgica. Afinal, o dia não devia ser cancelado e o que antes era uma folha de programas em branco, convertera-se num lanche com a melhor companhia do mundo e num final de tarde a ver um filme que adoro.

E é isto que quero dizer quando acredito que há sempre boas notícias ao virar da esquina. Descobrirmos que o nosso dia pode terminar de uma forma trezentas vezes melhor do que pensávamos é, também, uma boa notícia. Dos miminhos mais pequenos e gentis às novidades e surpresas mais maravilhosas, há sempre algo de bom reservado para nós nos momentos mais inesperados. Só temos de ter a coragem de caminharmos em direcção às boas notícias e o empenho certo para virar as esquinas. Eu não teria um final de tarde tão feliz se não tivesse alinhado num lanche fora de casa. Eu não receberia notícias profissionais tão boas se não trabalhasse por elas. Eu acredito que há boas notícias ao virar da esquina porque eu caminho nessa direcção para as receber. Mesmo quando acordo com as palpebras pesadas, o coração apertado e com vontade de passar um dia à frente.

Obrigada a quem se desfez daquele DVD, pensando que não valia nada (ou um euro). Fez-me sorrir, fez-me rir, fez-me sentir Inês. E, para mim, isso é precioso.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

PASSAPORTE || Aldeia Beunoba


Durante a nossa visita ao deserto de Niaga, o meu guia sugeriu-nos que visitássemos uma pequena aldeia que existia... no meio do deserto. Só esta declaração fez o meu coração parar. Como era possível tal coisa?

A aldeia Beunoba é de etnia Pular e encontra-se, literalmente, no meio do deserto. E foi chocante. Assim que parámos o jipe, encontrámo-nos com o chefe da aldeia, que rapidamente nos fez uma pequena introdução sobre Beunoba e fomos atropelados por dezenas de crianças pequenas que nos pediam para darmos a mão, abraços, ou para nos mexerem no cabelo. Imediatamente solicitou que não déssemos qualquer tipo de dinheiro (uma razão que, numa outra publicação, vou explicar). A aldeia é marcada por uma pobreza extrema e são muito poucas as casas que têm paredes de cimento. As que têm, carecem de tecto. A maior parte é composta por pequenas cabanas.

Sei que não parece mas isto é um conjunto de casas e "jardins". Esta área já é bastante "moderna"
A visita consistia em conhecermos os aldeãs e vermos as suas casas. As fotografias eram permitidas mas recusei-me a tirar fotos ao interior das casas porque acho que a privacidade é um direito inviolável. Não é porque eles desconhecem ou o permitem que nos dá o direito de pisar. Aliás, eu fiz questão de apenas tirar fotografias às pessoas que nos pediam que lhas tirássemos. Eu respeito muito a identidade de um lar e de uma pessoa, pelo que todas as fotografias que vão encontrar nesta publicação são das fachadas e "jardins" das casas e das pessoas que, como já foi referido, pediram que as registássemos em fotografias.

Nada do que eu possa escrever irá conseguir transmitir, a 100%, todo o choque e contraste que senti e vivi. A cozinha não era maior do que uma casa de banho de visitas, sem qualquer saneamento básico e com moscas em todos os recantos. Até há bem pouco tempo, cozinhavam utilizando estrume de vaca como combustível. Os quartos são minúsculos e desprovidos de nada. Conseguem imaginar viver num mundo em que nada no exterior expressa a vossa identidade, os vossos gostos, os vossos sonhos? 


Na aldeia, existem poços com água, a única fonte para poderem beber. Como não é potável, têm de adicionar pequenas quantidades de lixívia. Sim, lixívia. Os pátios e jardins estão cobertos de gatos e lixo. Em cada recanto das barracas e cabanas, há uma série de tijolos de cimento partidos, de restos de embalagens de plástico e outras tralhas amontoadas e esquecidas.


Num dos quartos, estava um pequeno bebé a dormir. Era o segundo de uma rapariga de 25 anos lindíssima, que está nesta foto acima. O pai do bebé tinha acabado de fazer 20 anos e esta é a sua quarta mulher.

Como estava com o meu guia Souleymane, que me traduzia para português tudo aquilo que o chefe da aldeia ia dizendo, senti-me muito confortável para conseguir ter um diálogo e fazer as perguntas que invadiam a minha mente. Aliás, é por isto que eles aguardam: satisfazer a vossa curiosidade. Responder às vossas perguntas. E eu disparei todas as que pude. Perguntei como faziam se alguma criança ficasse doente, se fosse necessário ir ao hospital. Existe um, fora do deserto, mas o caminho a percorrer é longo e exige que o motivo valha a pena. Também têm uma escola no meio da aldeia.

E uma das perguntas que mais tinha urgência em saber era como podíamos ajudar ou contribuir, se eles não aceitavam dinheiro. E esta aldeia tem a solução: um pequeno mercado de artesanato, onde as crianças e adultos fazem as suas criações e invenções que podemos depois comprar. Todo o dinheiro é revertido para a saúde e educação da aldeia. Isto faz com que as crianças continuem a valorizar a educação e que trabalhem o espírito criativo.

Já estávamos quase de saída quando, num dos pátios, vi uma casa com paredes de cimento, mas a céu aberto. Não tinha portas nem nada no seu interior a não ser terra batida e uma dezena de crianças reunidas em volta de um tabuleiro de alumínio que tinha arroz e um possível molho de tomate. Comiam com as mãos, sôfregas e esfomeadas. 

Eu sei. Não dá vontade de ler ou ver. Não dá gozo de saber. Chega a ser violento, até. Mas é uma realidade que temos de ver e ler mais. Quanto mais não seja, para sermos ainda mais gratos por todos os privilégios que temos na vida. Pelo conforto que temos. Durante toda esta visita, as pessoas olhavam para mim como se fosse uma pessoa cheia de respostas, conhecimento e sucesso. Mas eu sentia que aprendia muito mais ao lado delas do que elas comigo. A única coisa que conseguia pensar era "O que tenho eu para dizer a estas pessoas? A estas crianças? Que estão onde quiserem estar? Quão hipócrita seria eu?" porque sentia-me assim, se o dissesse. Eu estou onde quero estar porque tenho o conforto e privilégio (em todos os sentidos que possam imaginar) para o fazer. Uma mulher da minha idade, naquela aldeia, não está onde quer estar com a mesma facilidade que eu. Eu falo de barriga cheia. De acesso facilitado. Eu começo a imaginar tudo o que estas pessoas teriam de ultrapassar para seguirem os seus sonhos e fico sufocada de silêncio. E é por isto que eu admiro muito o guia que estava comigo. Ele conseguiu seguir os seus sonhos e lutar por eles. Só que eu sei que tudo o que ele teve de fazer para estar onde está, agora, foi muito mais do que seria exigido a um qualquer estudante de Turismo, como ele um dia já foi. 


Não é um relato cor-de-rosa e não sei como o concluir. Senti-me desolada mas, curioso, nenhuma criança partilhava o meu rosto de tristeza; todas tinham uma energia inesgotável, todas sorriam, brincavam e partilhavam. Para elas, aquilo parecia ser o paraíso. E talvez seja porque nunca conheceram outro. Não sinto que lhes tenha acrescentado nada. Não sinto que faria qualquer diferença na vida delas porque não sou nada ao lado delas. Fiz questão de contribuir o máximo que pude no mercado, onde comprei a minha piroga decorativa, o meu hipopótamo de madeira e algumas estátuas e porta-chaves. Mas eu sinto que saí de lá com enormes lições de cada um deles. Aprendi a agradecer mais. A relativizar, ainda mais, os meus problemas. A compreender ainda melhor que eu tenho uma vida maravilhosa. E digo tudo isto sem vaidade mas sim com uma enorme percepção e gratidão. Porque os nossos pais diziam "Há crianças a morrer à fome, em África" mas, por mais que vocês oiçam e compreendam, nunca o vão entender realmente até verem no rosto delas.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

BOM GARFO || Nicolau Lisboa

Foto | Facebook Nicolau Lisboa

Para uma segunda feira que já ia avançada e com um almoço por tomar, peguei numa óptima companhia, decidimos arriscar as filas e ir ao badalado Nicolau Lisboa, para fazer uma espécie de brunch invertido: um almoço alancharado!

Curiosamente, estávamos prontas para ter de esperar, para filas intermináveis mas... Não esperámos nada. O espaço estava cheio mas não concorrido por (acredito eu) ser uma hora menos movimentada. Não duvido que, se o visitássemos em "hora de ponta", o caso fosse diferente. Assim, chegámos e tivemos, imediatamente, mesa para nós.

Todo o espaço tem uma inspiração muito tropical; uma grande aposta nos tons verdes e azuis, nas plantas grandes e vistosas, nas luzes de neon, na mobília escandinava e nos pormenores mais tendência como paredes de tijolo, quadros com mensagens ou preçários originais. Todos os empregados eram muito prestáveis mas dei conta de uma certa lentidão no serviço.


A minha escolha foram uns ovos mexidos com cogumelos e parmesão e uma panqueca com doce de frutos vermelhos para rematar e a da minha companhia foi uma tosta de queijo brie com mel e uma limonada. A apresentação dos pratos é gira que dói, a música ambiente é muito agradável e não damos pelo tempo passar. Os meus ovos mexidos estavam cheios de sabor, cremosos - detesto ovos mexidos muito secos, quase a ganhar crosta de tão fritos - e o toque do parmesão faz toda a diferença. As tostinhas também tinham pedaços de parmesão ralado, o que as tornou ainda mais deliciosas mas... Não fiquei fã do pão. É uma preferência pessoal porque acho o sabor demasiado amargo, para o meu paladar. E a minha companhia também foi feliz com a sua tosta e não precisou de adicionar açúcar na limonada (um plus!)

Tenho de vos confessar que me fazia muita confusão pedir uma panqueca. Para mim, as panquecas são pequeninas e numerosas. Mas quando puseram o prato na mesa, compreendi: é uma panqueca colossal e muito grossa. Vem pulvilhada com açúcar branco e com um pote onde podemos barrar com o doce na quantidade que desejamos - outro ponto que adorei. A massa é deliciosa, fofa, e suficiente para ficar saciada. Foi o remate perfeito para o meu almoço e fico contente por só ter pedido uma. Arrisco-me a dizer que é um dos sítios chave para comer panquecas em Lisboa. Anotem a dica!


Ficam por provar uma série de petiscos que me fizeram salivar. Acho que nunca vi uma carta tão apetecível. Mas sem dúvida que quero regressar para ser feliz, mais uma vez!

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Rua São Nicolau, 15, 1100-026
Lisboa
Contacto: 218 860 312

quarta-feira, 19 de abril de 2017

LIVROS || Enzo


Comprei este livro há 10 anos e lembro-me perfeitamente de como o encontrei, porque o escolhi e do momento em que fui ao balcão, para o pagar. Mesmo assim, mesmo tendo lido o resumo na contra-capa e sabendo ao que ia, não fui capaz de o começar. 
No entanto, quando perdi a Laika, lembrei-me imediatamente deste livro e comecei a vasculhar a minha biblioteca inteira, à procura dele.

Esta história de Garth Stein apresenta-nos Enzo, um cão absolutamente adorável, filósofo, velho e que, na véspera do dia em que vai ser abatido, decide rever algumas das memórias mais importantes que viveu junto do seu amado dono, Denny.
Desenganem-se se pensam que vão ler uma versão medíocre de Marley e Eu porque o livro foge completamente de todas as narrativas típicas sobre animais de estimação. A começar, o narrador é o próprio Enzo e a dinâmica do livro tem o objectivo de nos fazer sentir que estamos dentro da sua cabeça, que estamos a presenciar as suas recordações. Outra particularidade é que a história pouco ou nada se centra na vida de Enzo. Não há grandes focos de atenção para as suas asneiras, para a sua vida de cachorro, para a forma como as pessoas lhe dão atenção. Como já referi, este não é mais um livro sobre animais de estimação. Uma outra particularidade da história é que Enzo tem uma enorme vontade de ser um humano e acredita com todas as suas forças que, quando morrer, vai reencarnar numa pessoa.

Existe uma narrativa meio que paradoxal, nesta obra. Os dramas familiares que Enzo vive com Denny são muito pesados e aborda questões como o amor, a amizade, os filhos, desentendimentos familiares, doença, morte, superação... Mas todas estas temáticas são-nos apresentadas por um cão o que, inevitavelmente, torna o relato muito inocente, muito puro. Não é infantil. É a perspectiva dócil de um cão. É tudo o que sempre imaginámos quando nos indagámos "o que será que a/o minha/meu melhor amiga/o pensa disto?"

Claro, não deixa de ter uma componente muito fantasiosa em inúmeros factores, em especial, por ser um cão a filosofar sobre muitas questões da vida e do seu amor pelo dono. Mas, sabem uma coisa? Foi reconfortante. Em momento algum eu projectei a história do Enzo para a Laika - até porque são cães com personalidades beeeeem diferentes - mas ajudou-me a processar o meu luto. É um livro que me fez chorar muito, que me fez rir também, mas que me trouxe alguma tranquilidade e me fez pensar que, talvez, num mundo imaginário, a minha melhor amiga também tenha pensado o mesmo que o Enzo pensou na véspera de morrer. É um livro que eu não posso deixar de recomendar a todas as pessoas que têm um melhor amigo de quatro patas em casa. Dá lágrimas, mas também dá abraços por dentro. Talvez tenha valido a pena esperar 10 anos para o ler.

Autor: Garth Stein
Número de Páginas: 350

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Desde que me conheço que sempre tive muita dificuldade em controlar as minhas emoções. Atribuo muito da culpa - sem remorsos - à ansiedade. É uma das características mais marcantes desta condição; não digo que seja impossível de a superar - aliás, é por isto mesmo que estou a escrever esta publicação. É possível, claro. Mas é muito difícil. Eu sempre vivi assim, especialmente em situações decisivas, de confronto, e não me refiro apenas a discussões. Isto sempre fez com que, por muito cabeça fria e solucionista que eu fosse, não conseguisse absorver no presente o momento que estava a viver. O que a outra pessoa me estava a dizer. Simplesmente entrava numa bolha e deixava-me levar pela bola de neve que aparecia à minha frente ou sucumbia à transparência do que sentia.

Desta vez quis fazer tudo diferente. Decidi, que para aquele confronto, eu precisava de viver o momento em pleno, sem me deixar paralisar pelo medo. Eu precisava de ouvir muito e dizer tudo o que tinha para dizer sem deixar que a minha cabeça viajasse para cenários hipotéticos. E foi o que fiz. 
Eu estava com medo. Muito medo. Das minhas emoções. De deixar que as minhas emoções falassem mais alto do que aquilo que queria transmitir e fazer. Eu não queria ir embora sem lembrar de nada, sem sentir que faltava algo por fazer, sentir ou dizer. Eu queria viver o momento com calma.

O engraçado é que, quando regressei a casa e dividi tudo o que tinha acontecido, começaram a cair muitas e muitas lágrimas. E a minha mãe sentou-se ao meu lado e disse "Não vais entregar-te à tristeza. Estiveste muito bem!" num tom carinhoso, não rancoroso. Mas, apesar de estar triste, eu estava muito orgulhosa de mim, como nunca antes tinha estado num momento de confrontação. Sim, eu chorei muito nesse momento, mas foi um choro controlado. Não foi de alguém que estava a sentir as emoções tomarem conta de si, não foram lágrimas desesperadas. Foram lágrimas de tristeza, que são válidas de sentir e demonstrar. Estas são naturais e não há que sentir vergonha. Foram lágrimas de conclusão, de saudade e de coração que, sim, está apertadinho mas não está frustrado. Eu vivi o momento em pleno. Eu disse tudo aquilo que sentia que precisava que a outra pessoa à minha frente ouvisse. Mas, acima de tudo, eu ouvi a outra pessoa. Eu percebi o seu desabafo. E eu tentei ajudar da melhor forma que podia porque tinha essa confiança e intimidade. Porque eu, melhor do que ninguém, naquele momento, podia dar a melhor opinião acerca dos seus sentimentos. Eu compreendi que o meu sofrimento era válido e grande mas que a sensação da outra pessoa era muito mais assustadora e que a estava a paralisar de viver. De ser feliz. E eu prefiro sofrer de viver do que sofrer por viver paralisada. Gosto tanto da pessoa que tinha à minha frente, seria impensável não dizer todas as mensagens que tentei que interiorizasse. Todas as lições e conselhos que eu precisava que metesse na cabeça. Podem não entrar, tudo bem. Pode não ter levado nada consigo. Pode não ter reflectido. Mas eu sei que levou. Eu sei que confia no que digo. Eu sei que acredita nas minhas avaliações e que o que eu disse era verdade. 

Eu fiquei muito orgulhosa de mim porque devolvi muito mais amor e apoio do que podia imaginar. E tudo porque quis ter um auto-controlo do meu corpo e do que estava a sentir. Não fui fria, nem calculista, nem fechei o meu coração, muito pelo contrário. Nada ficou por dizer. Mas a forma como disse tudo o que queria foi muito mais bonita e sincera. E isso permitiu-me ter abertura para aconselhar, ouvir e avaliar.

A forma como processamos as nossas tristezas (sejam elas quais forem porque todos nós temos tristezas) é um trabalho muito próprio e que ninguém pode julgar. Mas é muito importante que o façamos com paz. Com sensação de paz. Ninguém resolve tristezas com culpa ou a sensação de que ficou algo por dizer ou escutar. E eu estou em paz. Estou triste pelo presente mas feliz por tudo o que pude viver e expectante de todas as coisas boas ao virar da esquina, que me aguardam. Fui mais Inês do que nunca e, apesar de ter sido um pequeno momento da minha vida inteira, foi o momento em que eu mais senti orgulho na minha existência. Porque dei uma nova perspectiva de pensar a alguém, e a minha perspectiva é muito mais positiva, saudável e feliz. Foi a minha forma de retribuir tudo o que de bom esta pessoa fez por mim. Todas as coisas extraordinárias que fez por mim. Eu senti que, finalmente, devolvi à altura. E isso é um dos feitos mais extraordinários que eu senti que pude fazer. E escrevo-o de lágrimas nos olhos mas com um sorriso no rosto. Sou cada vez mais a Inês que quero vir a ser.

Acho que estou a crescer. É bom sentir isso.


Porque me marcaste mas, eu sei, também te marquei. Um abraço e um beijo do tamanho do mar, onde estás à deriva. Que sejam o teu farol.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

PASSAPORTE || Deserto de Niaga, Senegal


Esta viagem foi a conquista de vários sonhos e desejos, entre eles, andar num deserto. O deserto de Niaga não tem uma extensão de areia tão infinita como um Sahara - muito menos dunas verdadeiramente montanhosas - mas é uma paisagem de perder de vista e fascínio. Permanece com alguma vegetação graças a dois factores fundamentais: a presença de um oásis (e, acreditem, é tal e qual o que vai na nossa imaginação) e porque está próximo da costa africana.


Enquanto o Rally Dakar decorreu no Senegal, este deserto era um dos pontos de passagem, incluindo a costa. A prova terminava, depois, no Lago Retba. Embora o evento tenha, há muito tempo, mudado de lugar, ainda existem dezenas de experiências e tours que podem realizar para viverem um pouco do que é um Rally Dakar.



Eu fui num jipe de caixa aberta altamente duvidoso fazer esta aventura. Além da minha companhia e do nosso guia, estava connosco um casal absolutamente adorável de franceses que completava 60 anos de casados. Não se deixem enganar pela possível idade deste dois simpáticos franceses, eles tinham toda a genica e espírito de aventura dentro de si. Mas confesso que temi por eles quando os vi alinhar na nossa experiência de Rally. O jipe salta, sobe e desce uma série de dunas e nós vamos saltitando no banco de um lado para o outro, rindo para disfarçar o nervosismo de tudo dar para o torto ou de um carro daqueles parar no meio do deserto.




A aventura vale totalmente a pena pelas paisagens, pelas aves que fogem de nós à medida que o carro passa, pela brisa do mar a bater nas nossas caras, pelo tempo seco do deserto a abraçar-nos o corpo. Quando estamos ali, rodeados apenas de areia, sentimo-nos pequenos em todos os pormenores, especialmente nos nossos problemas. Como podemos nós sofrer por coisas pequenas, quando existe algo tão inacreditavelmente belo e simples como um deserto?

terça-feira, 11 de abril de 2017

FILMES || 100 Metros


O mundo de Ramón desaba quando, após alarmantes sinais, recebe o diagnóstico de que tem esclerose múltipla. De um momento para o outro, Ramón, pai de família, marido dedicado e profissional empenhado, vê-se a perder a sua autonomia e independência, sem alcançar sinais de melhoria e com o prognóstico de que, dali a um ano, já nem conseguirá andar 100 metros.

É durante uma profunda depressão que descobre a existência de uma prova de triatlo, Ironman que consiste em 3,8 km de natação, 180 km de bicicleta e 42 km de corrida. Disposto a não deixar que a doença o defina e o limite, Ramón decide inscrever-se e treinar para essa prova, com uma ajuda inesperada, indesejada e que traz consigo métodos muito pouco convencionais.

100 Metros é uma história verídica de superação e, ainda por cima, tem uma enorme componente desportiva, portanto, tem todos os elementos para eu gostar. Inspirou-me, emocionou-me profundamente e fez-me ganhar uma admiração enorme por este homem que teve de combater tantas adversidades. É um campeão.

Uma produção espanhola - que conta com alguns actores portugueses que, se me permitem o spoiler, não trazem absolutamente nada de relevante ao filme - que prova que podemos chegar lá, que podemos fazer aquilo que ambicionamos e que nada nos pode parar se tivermos a coragem, força, mente e apoio certos para conquistar as nossas metas e objectivos. Incrível.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

ISTO É TÃO INÊS || 23 Sonhos Realizados Antes dos 23


Não me canso de dizer o quanto sou privilegiada, grata e feliz por todas as coisas que pude viver. Por todos os momentos que pude experimentar, por todas as memórias que me foram possíveis criar. Falta-me viver muito, riscar muitos sonhos, descobrir novas aventuras mas, às vezes, dou por mim a ter esta reflexão comigo própria: do quanto eu sou feliz a fazer e concretizar coisas que me fazem sentir realizada e grata. E queria dividir isto; os imensos sonhos que já pude realizar antes dos 23 anos... Caraças...